terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Roberto Piva [parte 1/2]: Uma outra cidade

Em setembro deste ano fizemos um post em torno do Roberto Piva. O post era um tributo de Clarissa Freitas ao doc  “uma outra cidade” de Ugo Georgette.   Histórias + poemas de  Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo Haro, Jorge Mautner e Claudio Willer.  Piva rondava o post (sendo inclusive sido citado no título) mas não aparecia com nenhum texto. Esta primeira postagem dedicada à sua poesia é uma espécie de complemento/desdobramento do post de setembro.  
Trazemos, então, o documentário de Ugo Georgette, diretamente dos arquivos de carlos lima, + uma seleção de Paranoia (1963)  e Piazzas (1964), os dois primeiros livros de Roberto Piva, que dialogam diretamente com o ambiente descrito tanto no doc quanto no post de setembro. (Não por acaso o filme começa exatamente no relançamento de Paranoia, em abril de 2000).
Uma sugestão que pode render leituras interessantes é brincar do jogo dos sete erros com o doc  de Ugo Georgette e “dentes da memória”  (Azougue, 2011), biografia de Camila Hungria e Renata d’Elia sobre o mesmo período e personagens (no livro Haro e Mautner viram coadjuvantes e Roberto Bicceli, que não aparece no doc, vira o quarto beatle).  Formalmente a montagem do livro se assemelha muito a transcrição de um documentário.  
Entre o filme e o texto, a gente imagina Piva como um personagem do Detetives Selvagens de Roberto  Bolaño. Piva é Ernesto San Epitáfio explicando a taxionomia literária para Juan Garcia Madero (que pode ser Willer, Haro ou Mautner, de acordo a sua imaginação):

Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.
Dentro do imenso oceano da poesia, distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bambis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bambi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Darío era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma das bichas-loucas.
– Na nossa língua, é claro – esclareceu –, no vasto mundo o paradigma continua sendo Verlaine, o Generoso.
Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podiam ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. De fato, a poesia mexicana carecia de poetas bichonas, embora algum otimista pudesse pensar que aí se enquadravam López Velarde ou Efraín Huerta. Bichas, em compensação, abundavam, do maldoso (mas por um segundo escutei mafioso) Díaz Mirón até o conspícuo Homero Aridjis. Deveríamos remontar a Amado Nervo (vaias) para encontrar um poeta de verdade, quer dizer, um poeta bichona, e não um bambi como o agora famoso e reivindicado potosino Manuel José Othón, pesadão como ele só. E falando de poetas pesados: borboleta era Manuel Acuña e ninfo dos bosques da Grécia, José Joaquín Pesado, perenes cafetões de certa lírica mexicana.
– E Efrén Rebolledo? – perguntei.
– Uma bicha menorzíssima. Sua única virtude é ser, se não o único, oprimeiro poeta mexicano a publicar um livro em Tóquio, Rimas japonesas, 1909. Era diplomata, claro.
O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que, por fraqueza ou comodidade, acatavam – se bem que nem sempre – os parâmetros estéticos e vitais das bichas. Na Espanha, na França e na Itália os poetas bichas foram legião, ele dizia, ao contrário do que poderia pensar um leitor não excessivamente atento. O que acontecia era que um poeta bichona feito Leopardi, por exemplo, reconstrói de alguma maneira os bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo, o trio da morte.
– Do mesmo modo, Pasolini retoca a bichice italiana atual, vejam o caso do pobre Sanguinetti (com Pavese eu não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único de sua espécie, nem me meto com Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais). Para não falar da França, grande língua de fagocitadores, em que cem poetas bichonas, de Villon à nossa admirada Sophie Podolski, apascentaram, apascentam e apascentarão com o sangue de suas tetas dez mil poetas bichas com sua corte de bambis, ninfos, bonecas e borboletas, excelsos diretores de revistas literárias, grandes tradutores, pequenos funcionários e grandíssimos diplomatas do Reino das Letras (ver, se for o caso, o lamentável e sinistro discorrer dos poetas da Tel Quel). E nem falemos da bichice da Revolução Russa, em que, se tivermos que ser sinceros, só houve um poeta bichona, um só.
– Quem? – alguém lhe perguntou.
– Maiakovski?
– Não.
– Essenin?
– Também não.
– Pasternak, Blok, Mandelstam, Akhmatova?
– Muito menos.
– Diga de uma vez, Ernesto, estou roendo as unhas de curiosidade.
– Só um – San Epifanio disse –, e tiro já a sua dúvida, mas este sim, bichona das estepes e das neves, bichona da cabeça aos pés: Khlebnikov
                                                                           ###

Aqui na bliss consideramos o Piva uma bichona, detetive selvagem no deserto de São Paulo. Mas sei que já disseram por aí, e foi pessoa seria quem falou, que ele não passa de uma bicha. Azinimiga chegaram a dizer que era na verdade uma bambi.

***

De Paranoia (1963)

A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
sábados à noite
Eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu de ferro e me 
fariam perguntas por que navio boia? Por que prego afunda?
Eu deixaria proliferar uma úlcera admiraria as estátuas de 
fortes dentaduras
Iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho 
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos

*

Boletim do Mundo Mágico

Meus pés sonham suspensos no Abismo
minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina
eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão
havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios
eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa
na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as galerias do
meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos
colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longo delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados 
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool 
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios de telefônicos cruzam-se no meu esôfago 
nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo 
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota
minha alma desconjuntada passa rodando

*

Os anjos de Sodoma

Eu vi os anjos de Sodoma escalando 
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando 
prodígios para a criação não
perder seu ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e 
violentos aniquilando os mercadores
roubando o sono das virgens
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando 
A loucura e o arrependimento de Deus

*

Poema porrada

Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei  uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição de tudo que é frágil
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
duas centopeias 
o universo é cuspido pelo eu sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem 
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que eu existo
mariposas perfuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o  mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
a Morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos
de Modigliani
Eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani
minha alma louca aponta para a Lua
vi os professores e seus cálculos discretos ocupando 
o mundo do espírito
vi criancinhas vomitando nos radiadores
vi canetas dementes hortas tampas de privada
abro os olhos as nuvens tomam-se mais duras
trago o mundo na orelha como um brinco imenso
a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego

*

Meteoro

Eu direi as palavras mais terríveis esta noite
enquanto os ponteiros se dissolvem
contra o meu poder 
contra o meu amor
no sobressalto da minha mente
meus olhos dançavam
no alto da Lapa os mosquitos me sufocam
que me importa saber que as mulheres são 
férteis se Deus caiu no mar
Kierkegaard pede socorro numa montanha
da Dinamarca?
os telefones gritam
isoladas criaturas caem do nada
os órgãos de carne falam morte
morte doce carnaval de rua do 
fim do mundo
eu não quero elegias mas sim os lírios
de ferro dos recintos
há uma epopeia nas roupas penduradas contra 
o céu cinza
e os luminosos me fitam do espaço alucinado
quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?

***

De Piazzas (1964)

Piazza VI

Algumas vezes
                as bombas de sorvete
                     caindo há 15 anos
                                 durante a tempestade

Sem ler
        Freud ou Villon
                  os garotos
                                         rompem barreiras
                  então em qualquer
                                            terreno baldio
iluminam
                               vestem-se
                                            no furacão do amor humano
onde
                               um cometa se desdobra

TESTE DI RAGAZZI CHE RIDONDO
          nos céus de whisky
          em cada canto da boca
                                                   cósmica

Matéria & clarineta

As panteras das plumas & as tranças das estrelas
numa fuselagem sem saída
um pelicano de tempos em tempos esganiça o mar dos 
      ambulantes

noite de meninos com corações brancos
fendas diminuídas  na imóvel lamentação entre a sopa
       & o garfo de polaroide
os canteiros dos clavicórdios em oblíqua oração sob os
         dentes

um curto langor & velas ampliando

*

Piazza VII

O equilíbrio (embora meu)
é um pouco teu como esta luz ao nível da maré
que tu divides benfeitor fascinando meu olho de fogo
            justo
é a vibração impossível de domar agora na potência do
            vazio celeste
dizem que urras
desmaias & tens visões
rolando sobre tua boca dilatada as auroras feitas de
            Presa

*

Piazza VIII

Eu aprendi com Rimbaud
& Nietzsche os meus
toques de INFERNO
(Anjos de Freud
            sustentai-me!)
& afirmando isto
    através dos quartos sem teto
    & amores azuis
eu corro até a colher de espuma fervente
      driblando-me no cemitério
faminto da última FOME
com tumbas & amantes cheios de pétalas
porque o céu foi nossa última chance
    esta noite

*

Piazza IX 

Os corações árticos coçavam suas cabeleiras cultivando
a morte
grandes & ardentes no mesmo sopro de um mesmo
sorriso apodrecido
purificados como os nossos idênticos pioneiros metálicos
às vésperas dos trovões de ar que nos arrebatam as
cabeças para o céu
sobre os muros de plenas dissecações ao brilho
inesperado do salmão das nuvens
nas cidades circulares de dolorosos espinhos atômicos
na infância cor de pêssego como a hora do amor
em cada solitário as mesmas oitavas com ossos à mostra
éter & línguas sólidas que nós não vemos
catalogadas ao lado trágico das mesmas ondas paralelas
aquelas que nos transportam vencendo toda a paisagem
purulenta
gotas de meninos morenos mudados em nevoentos
cascalhos de desolação
nas montanhas murchas de luar onde a lembrança é
cinzenta
correndo teu arco na tempestade solar da incerteza
o dia escurecia a auréola dos mortos descobridores de
Mágicas

*

PIAZZA XII

Teus olhos amarelos
                                 ritmados numa ferida distante
                                                                           de AMOR
A Rosa Azul & vazia como uma gaveta de hotel
Diga-me langorosamente os pequenos mamelucos
                                tremem em tentáculos eletrificados
       eu provo tua boca
                                       as folhas se desorganizam
                     em tapeçarias outonais
                                             & nas curvas de teus RINS
Fotografando em cores (em supremo grau como
                                                  o fogo na floresta)
uma cidade sagrada tão

                                        AZUL

***

Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Carolina Aleixo: “Registro. do olhar E da fuga”

(20/06/13)



Num breve exercício de digressão me ocorre que não lembro de já ter ouvido Carolina se referir aos seus cadernos pela palavra “diário”. A maior parte das entradas é marcada por data; o conteúdo é de cunho essencialmente íntimo/emocional, por vezes descritivo; são escritos quase que diariamente, ainda assim não são exatamente diários. São cadernos.

Carolina Aleixo é carioca, estuda cinema na UFF, e há muito escreve cadernos.

O que interessa neles é a sua versatilidade e a não correspondência com qualquer fórmula previamente dada. Então, se são certamente diários, são também efetivamente espaços de experimentação e exercício artístico. Interessa nos cadernos da Carolina justamente a coexistência de poemas, desenhos, pinturas, trechos de roteiros, citações, letras de música, relatos, desabafos e uma série de outros registros entre. De algum modo, o que interessa nos cadernos é poder pensá-los não como arquivo, ou registro da vida que depõe sobre uma obra – interessam os cadernos como obra.

Neles, o jogo entre vida e poema, inclui o pensamento da vida como poema, dividido entre o que se consegue escrever e o que não chega a (não pode?) ser posto em palavras. O que se percebe nesse exercício é a sensibilidade de um olhar que se detém sobre aquilo que haveria de mais trivial e explora suas potencialidades de texto e imagem, na direção de uma pergunta pelos contornos emocionais de cada elemento.

“Enquanto preparava essa introdução, perguntei por inbox a Carolina:
"vc se refere aos seus cadernos como diário?”
"acho que sim”

Também, faz um tempo, escrevi algo que ia mais ou menos assim: “Quando Carolina entrou no quarto, as paredes explodiram em significado.”
Revirando seu caderno de 2013, encontrei o seguinte: “O problema de ficar sozinha no meu quarto é que eu transbordo de amor”.
Significado. Amor.

Melhor ouvir dos cadernos.

*

Segue aqui, uma seleção de registros, poemas e desenhos do Caderno de 2013 de Carolina Aleixo, seguidas do filme Os taxidermistas estão chegando, em parceria com Lucas Paes Leme.

Técnicas utilizadas: giz de cera sobre papel; caneta sobre papel, lápis de cor sobre papel.

Thiago Gallego

***



lp


você fuma os seus cigarros matinais e eu te observo
sua rotina diária inabalável
você se senta curvado de frente para o computador
seu café na caneca do pink floyd
ao fundo, jim morrison me olha
eu olho pra você

.

eu acordo com você e
fico feliz pelo calor que emana
das correntes minúsculas que fluem entre
os nossos corpos relaxados na cama

eu quero viver no
eterno acordar de olhar para o lado e
ver você me sorrir
e saber que
por mais um dia
nós estamos bem

por mais um dia
cada dia é um dia

.

nós dois
a saveiro branca
uma estrada verde azul infinita e eu
canto a plenos pulmões
i was alone a took a ride i didn't know what i would find theeeeeeeeereeeee

eu nunca amei tanto na vida
eu sinto medo

.

a desarmonia
as correntes minúsculas que fluem parecem que não fluem
a gente não se entende
parece que pela primeira vez nem a música nos salva
nem a literatura
nem os passarinhos
...

and at the final moment i cried
i always cry at endings





*

Eu nem me lembro da primeira vez que eu vi seus olhos, mas no fundo já nem me importa, porque o que eu me lembro da primeira vez que eu vi seus olhos eu nunca esqueci. Eles me diziam que permaneceriam acesos para todo o sempre e que eu os encontraria quando não queria e queria e mesmo quando eu não queria eu queria.

Eu detesto essa voz que soa na minha cabeça e diz que eu sou incapaz. Os seus olhos são essa voz.

*








*

autorretrato


sol na cabeça preta
a pele preta cabelo preto ideia preta
mergulho gelado azul
tudo nada
nada sou eu
que
nado
no gelado azul imenso
pele preta cabelo preto ideia preta
gelado azul

queria ser peixe preto barbatana preta guelra preta ideia preta
peixe preto sabe
o segredo
que eu sei
que o único lugar
possível
de se ter paz
é o gelado azul imenso

*

 “E se agora eu não fosse mais eu, mas fosse a Hilda Hilst?”




*

o universo e o infinito são bregas. eu sou brega


as correntes minúsculas que fluem do meu corpo para o seu corpo dos nossos corpos de quando descobrimos a origem do amor as correntes não são minúsculas mas fluem do meu corpo para o seu corpo e do seu corpo para o meu corpo dos nossos corpos em órbita no universo e as correntes que fluem do universo para os corpos dos corpos para o universo são as correntes de energia que provam a mim que a energia boa do universo é infinita mesmo que venha a ter um fim como tem todas as coisas infinitas ou não
as correntes minúsculas que fluem imediatas e eternas sua perna minha perna seu braço meu braço seu sorriso e o calor

(esse final foi na verdade escrito pelo bukowski)

*

[tem uma citação de uma música do lobão o que talvez não seja tão legal nesse momento da história dele]

*

Crônica


Os acordes da sua música favorita. Não existia mais nada no mundo além da certeza da minha presença naquela sala escura e aquele guitarrista, na minha frente, dedilhando intensamente os acordes da sua música favorita. E os meus olhos ardiam, porque tudo o mais era falta. E nem mais de chorar sou capaz. Durante aqueles minutos insanos, aquele solo de guitarra, todas as minhas incertezas planavam por ali, e eu gritaria, subiria no palco, se fosse necessário para me fazer acreditar em mim: eu fiz a coisa certa. Depois, aquela mão no meu ombro e sabia que eu era pura rigidez, e que olhava para frente com os olhos vidrados, porque tomava consciência do que teria daqui para frente. E depois daquela imagem me torturar até o final do solo eterno eu só pude concluir que tinha feito a coisa a certa mesmo. Que poderia subir ao palco e gritar "Tu serás feliz, Bentinho!", mesmo que Bentinho seja você. E enquanto minha mente estava bem longe de mim, o meu colo sentia o peso daquela cabeça e os meus dedos sentiam aquele cabelo macio. E eu quis desesperadamente que fosse o peso da sua cabeça, que fosse o seu cabelo seco aquele que meus dedos sentiam. Então lembrei: eu fiz a coisa certa. Na eternidade desses dias que parecem não terminar nunca, eu sou impiedosa e dedico todo o meu amor a mim.

*

Tarde em Paris

Era uma tarde fria, tão fria quanto aquela tarde fria que eu gastei pensando e você e meu corpo congelava do frio de pensar em você mas não estar com você. Era uma tarde ainda mais fria que essa. Não sei o quão fria pode ser uma tarde em Paris mas você sabe e eu sei o que é uma tarde fria com você ou uma tarde fria sem você mas pensando em você o que torna a tarde ainda mais fria. Mas nessa época eu já sabia como é uma tarde fria em Paris e pensar em você já nem doía mais, você era só uma recordação sorridente do meu desequilíbrio juvenil e eu era só uma recordação da sua indecisão juvenil. Mas eu ainda te amava como te amo e como se deve amar uma recordação sorridente tão bonita quanto aquela cara de bobo que você faz e é justamente o motivo pelo qual eu gosto tanto de você. E a gente se encontrou naquela tarde fria em Paris, e a gente sorriu e conversou e sentou naquele café e conversou ainda mais e eu comecei a pensar sobre o porquê da gente nunca ter dado certo mesmo e por que eu me senti pisoteada por você tantas vezes e em todas as vezes em que eu passei correndo pela Presidente Vargas chorando por sua causa. E a resposta óbvia é que eu sou uma boba. Mas naquela tarde em Paris eu não era mais boba e nada disso importava mais, porque naquela tarde você me olhou com a sua cara de bobo e eu só podia mesmo sorrir, porque é tudo o que posso fazer quando você me olha assim. E era a sua cara boba em Paris. Aquele momento em que o meu sorriso e a sua cara boba finalmente ficaram em harmonia e você nem ao menos sabe que ele existiu.

*





*

Comida

Ham
Burger
(de fraldinha)
Beter
Raba e
Cenou
Ra!
Saaaal
Mão
Mac
Ar
Rão
  A
Bolo
Bolognesa
Fran
Go +
Abobo
Bobo
Abobo
Ra!
Moran
Go
Ga
Fr
An
Go na
Mo
Ra
Ng
 A
Uma historia
De amor
Através
Dos
Tempos

*

esse é o poema que
eu disse que
nunca te
escreveria
se eu escrevesse era porque
estava realmente
apaixonada
quando o disse
estava
mas agora
não estou.





*

1.
Thiago abre sua caixa de correios
Procura por um cartão postal
Imagina que agora vive em um país distante
Que é hora gelado
E hora bem quente.

2.
Thiago procura por um cartão postal
Onde o seu antigo
Rosto de agora
Mostra seus olhos de girassol –
Que são de girassol agora antes e depois e sempre –
Que o encaram
E dizem
“Thiago, não desanime
Não se entregue, Thiago
Se mexe, Thiago
Não se perca, Thiago
Confia em mim
Mas, Thiago, se liberta de mim”.

3.
Aconteceu da caixa de correio estar vazia
Porque correspondências não chegam ao país distante
Em que agora Thiago vive.
Aconteceu do seu país distante
Ser, na verdade, uma ilha
Isolada.
Aconteceu do mar ser gelado e revolto demais.
O correio não chega
Mas os meus braços chegaram
E descobriram que os seus olhos
Que fazem girar o sol
Aquecem toda a ilha.

Agradeço aos meus braços.

*




*

Conjuntivite

eu amo você
com o meu pulmão
que agora tenta tão
insistentemente
pular do meu peito e
viajar até a holanda

ou me matar sufocada

meu pulmão congestionado
de amor
catarro
e saudade

*

-~-~-~-~

escrevo um ----
para explicar o ~~~~ que sinto
----
~~~~
----
~~~~
e ele não vem
porque o
não pode ser dito
ou medido
ou curado
até que eu tenha o que espero
e o que espero é:






  





(o infinito)

*

escrevi poemas que não escrevi

I.
não lhe importa as desmedidas dos governos
os protestos violentos aqui ou na turquia
porque de violento já basta
o seu peito
que dói ao ouvir as notícias que dizem
que o japão está cada vez mais longe da escócia
e os dois não se encontram no brasil


II.
da primeira vez que vi seus olhos
eles não me disseram nada
porque não os vi
desde a primeira vez que vi seus olhos
passei a vê-los em qualquer lugar





(Caderno de 2013)

***

OS TAXIDERMISTAS ESTÃO CHEGANDO
(por Carolina Aleixo e Lucas Paes Leme)




[o filme é melhor aproveitado em fones de ouvido]