terça-feira, 10 de setembro de 2013

Fabiana Faleiros: a palavra não está aqui, ela está lá onde eu escrevo.

Um pensamento que alcance o presente, ou antes, que se permita ser atravessado por ele, por sua multiplicidade de tempos. Esse parece ser o desafio a que Fabiana Faleiros se expõe. Como quem diz que quer ser devorado por essa multidão de discursos desconexos e caóticos que compõem as cidades, ou talvez como alguém que simplesmente queira devorá-los. Fabiana Faleiros, poeta, artista visual e performer, nascida em Pelotas em 1980, talvez fosse bem descrita como alguém que escreve/deixa cantar – quase numa aceleração frenética que por vezes provoca humor, por vezes desperta para uma observação de questões não contempladas – isso que acontece entre “eu” e o mundo. Ou ainda, alguém que pergunta: o que acontece quando busco ter a palavra aqui? Quando ela se coloca lá onde escrevo? Por exemplo, na tela e depois num livro? Como faço um livro ao vivo? Como ponho uma palavra de frente para mim?
Assim que ela descobre que tudo que eu escrevo, tudo que escrevi num programa de processador de textos pode ser a minha autobiografia. Todos os diálogos, que atravessam o espaço por onde eu circulo, as redes sociais em que (me) leio/posto com frequência. E as falas que atravessam minhas atividades, meu pensamento: sobre arte, sobre política. Tudo num mesmo livro. Não está aí uma escrita de mim? Não são essas coisas que acabam por fim me escrevendo? Lá onde eu escrevo ou aqui onde (não) estou? Toda autobiografia não terminar por ser um modo de me/se colocar o "eu" em suspenso?
Movimento semelhante pode ser notado no seu trabalho com música, intervenções e performances. O artista funciona como um vórtice em que diferentes recortes (políticos, estéticos, mosaicos sociais) se recolhem. Como se o canto não fosse senão a voz das ruas reunida, remixada, atravessada, entrecortada. Todas as músicas mais todos os sons das cidades. A palavra não está aqui, está lá onde eu escuto.
         Para nós, é uma alegria podermos publicar aqui trechos de sua segunda autobiografia, o trabalho “Diálogo interno” (espécie de obra em progresso continuamente, e com planos de intervenções que só se resolvem no momento da performance da sua escrita), além de poemas inéditos e uma pequena coletânea de fotos de suas obras mais recentes, e as canções que ela fez a partir dos poemas da poeta e amiga, a também pelotense Angélica Freitas – ainda encerramos com um retrato da personagem Lady Incentivo, criada por Fabiana para intervenções radiofônicas e performances variadas, feito pelo artista conterrâneo de ambas, Odyr.

*


Autobiografia I: Tudo que eu escrevi (2010-2013).



*


Autobiografia II: Diálogo Interno (2013).

Sobre a Obra: “Diálogo Interno” é um livro a ser lançado ao vivo no word. Faz parte de uma pesquisa que venho desenvolvendo sobre a escrita de si no presente. Como escrever o momento em que vivemos? Como habitar o presente? É o segundo volume da Coleção “Autobiografia”, sendo o primeiro “Tudo que eu escrevi” durante um mês. A proposta do “Diálogo Interno” é escrever um livro ao vivo, a ser projetado em uma parede ou no chão. O texto que o compõe já está escrito e é formado pela edição de textos de sites colaborativos como Wikipédia, yahoo respostas, facebook, etc. (A parte da bibliografia é meu histórico de pesquisa do Google da época). Também serão criados textos ao vivo de forma improvisada, a compor com a estrutura textual já preparada. No lançamento pretendo diagramar tais textos de forma que eles se assemelhem a estruturas poéticas. Além de ser um comentário sobre como a escrita de si é feita hoje em público, através do facebook, a publicação também aponta para os ‘diálogos internos’ atuantes em mundos que não conversam entre si: a universidade, a polícia, as esquerdas, o governo...

         É uma autobiografia que não faço só com o texto que é meu, mas com o texto do outro, entendendo o Outro como o Próprio, e vice-versa.

*

Diálogo Interno (trechos – Obra em progresso).

Como escrever o presente? Um cigarro às vezes é melhor que tudo no presente. O difícil é encontrar como colocar as mãos na altura certa, mesmo estando de pé para escrever.

Diálogo Interno começa a ser escrito agora, aqui dentro do word. Se você digitar a palavra word no google o resultado da pesquisa de imagens será a logomarca do word. Quando penso no word penso em diálogo interno. O resto, ou quase tudo, publico na rede social. O pensamento está ali em forma de diálogo interno que se torna público no instante em que escrevo. Para escrever o diálogo interno em que pessoa devo escrever, eu penso. Utilizo várias pessoas. Não só a primeira. Procuro saber em que pessoa se pensa, mas não me é possível.

Estou sentada em uma cadeira, utilizando um teclado que faz referência a uma máquina de escrever. As palavras que escrevo aparecem num projetor, deixando-as maiores, fazendo as vezes da tela do computador, já que tenho o público. Não é para mim. O que temos: a tela (releitura da televisão) + teclado (máquina de escrever) + o word (as palavras) + o público (estou de costas para o público). Já estive sentada em uma cadeira. A diferença era que a tela era só minha. Na época adquiri uma LER: lesão por esforço repetitivo. Estava tratando imagens que não tinham sido feitas por mim no photoshop. Lesão corporal: o crime.

Quero me afastar deste livro sempre. Fumo um cigarro e volto para o livro. Afastamento e aproximação.

Este livro começa antes de junho de 2013. Quando começo a escrever um texto demoro muito. É a minha inscrição dentro da palavra e junção de palavras com palavras. É o pensamento tomando forma fora do meu corpo, que está sentado em uma cadeira em frente à tela projetada, debruçado no teclado. Os aparelhos estão conectados. Não tenho muitas opções, mas acho muito mais fácil escrever poemas do que escrever textos que tem como objetivo descrever uma situação.

Depois de junho de 2013 o diálogo interno cresceu com as manifestações. As manifestações foram iniciadas por mim no ano de 2011 na cidade de São Paulo, quando na ocasião do Carnaval, a montagem um trio-elétrico chamado Rivotrio. Quando a cracolândia foi invadida pela polícia que queria tirar os viciados em crack dali eu estava lá. Me vesti de polícia e o meu amigo de mendigo. Nos apresentávamos assim em festas que custavam 100 reais pra entrar morto. Do trio elétrico eu cantava as palavras de ordem: sexo, violência e religião. Sexo violência e alucinação. Várias pessoas viram, andamos a Augusta abaixo e pegamos carona no público de um bloco que estava à frente.

Só penso nesse livro. Acho mais fácil pensar em palavras repetidas e no sentido que surge a partir de sua repetição. Por que se a batida da música é sempre a mesma a letra tem que ir mudando? O que atrapalha a escrita é a necessidade de uma ordem, algo que começa num ponto e termina em outro. Mas a palavra não está aqui, ela está lá onde eu escrevo.

Agora que eu sou artista não preciso mais ir às manifestações. O que está sendo escrito é a concretização da poesia. Os memes têm uma grande familiaridade com a poesia concreta. Mas quem os escreve hoje não são necessariamente os poetas. Os poetas estão escrevendo livros. A coesia está na rua.
Enquanto os seus amigos estão todos sentados em frente ao computador esperando que você converse com eles no chat.

O diálogo interno não é só meu. Quem é meu inimigo? Para quem estou falando e quem são os meus amigos?
É ouvindo que se fala. E é escrevendo que se o quê?

(...)

passo muito tempo aqui
escrevendo na sua língua a língua

que é você
mesmo tendo eu escutado tudo
em outra

conforme você lê o livro
ele aparece
neste momento
era para tudo estar em frente
e não simplesmente
acessível

(...)

1. Doutorado Suicídio

Muitas pessoas vêm até a UERJ para cometer suicídio. A UERJ dá depressão e no momento 7.115 estão falando sobre isso. Há pesquisas que apontam a universidade como a terceira no ranking dos locais escolhidos para cometer o ato no Rio de Janeiro. O primeiro é a ponte Rio - Niterói e o segundo eu não recordo. Muitas pessoas acreditam que os suicidas escolhem as pontes por não serem janelas. Talvez por nem todos morarem em um andar alto de um prédio. Vão Livre. 

Muitas pessoas vêm até a UERJ para cometer suicídio. Eu não

eu vim para a UERJ
para fazer doutorado
e quem sabe até
arrumar um namorado

(aplausos)

(...)

Por que a mídia não mostra os frequentes suicídios na UERJ? Melhor resposta - Escolhida pelo autor da pergunta

Olá, O suicídio é um evento constrangedor. Nem a família gosta de comentar isso, prefere manter silêncio. É que o suicídio parece mostrar uma culpa aos ficaram, seja da família, seja da sociedade, que não amparou, não ouviu, não percebeu sua iminência. Na UERJ não deveria haver pessoas felizes, já que fazem parte de uma elite (universitária)? Pois é aí justamente que parece haver uma ligação: O suicídio é maior nos lugares onde há maior índice de felicidade à volta porque permite comparações. A dificuldade de uns parecem maiores quando comparadas com a fartura dos seus companheiros. Veja esta notícia: Uma pesquisa concluiu que várias nações --entre elas, Canadá, Estados Unidos, Islândia, Irlanda e Suíça-- apresentam índices de felicidade relativamente altos e, também, ALTOS ÍNDICES DE SUICÍDIO(*)
Por que a mídia não mostra? Porque também não mostra o alto índice de suicídio entre os médicos e os policiais. Acho que nas minhas duas primeiras frases deveria incluir a mídia como ente da sociedade.

Um abraço. Até mais.

(...)

Já é a terceira vez que venho na UERJ e vejo a tela de proteção que foi colocada em alguns andares. Olho e penso que preciso fotografar para incluir no livro que estou escrevendo sobre suicídio. Talvez não tenha fotografado porque pense que a solução melhor seja colocar no térreo
próximo de onde caem os corpos
camas elásticas.
Não incluiria em meu livro a solução inimiga.
Eu quero morrer
eu também quero matar
não quero morrer
quero morrer
quero matar
vou matei
voumatei

2. Museu da Polícia Militar

Eduardo Viveiros De Castro ,14 de julho, domingo

Avenida Oswaldo Cruz, Botafogo-Flamengo, 15h30: passam várias picapes da Policia Federal, outras (mais) da Força Nacional, ocupantes de armas à mostra, e mais uma fila de carros pretos, luz vermelha em cima, escoltados por uma profusão de motociclistas da FN, outros da Prefeitura. Será o Cabral voltando do casório da máfia que rolou ontem? Ensaio para os desfiles do Papa? Ou só mais uma boçalidade das Forças da Ordem?

(...)

você precisa chamar a polícia para desocupar áreas onde eles querem construir um prédio, ou onde eles querem construir uma praça, ou onde eles querem construir uma cidade. Mas não é você que chama a polícia: eu vou chamar a polícia

um psicótico pode querer chamar a polícia no estado de delírio ou pode mesmo fazer uma queixa para a polícia, mas pode também ser perseguido pela polícia. Pode se dirigir a uma delegacia.

quando você vai internar alguém num hospital psiquiátrico você precisa chamar a polícia que acompanha o corpo de bombeiros para conduzir o paciente até o local

depois que eu cheguei no Rio de Janeiro a minha mãe e o meu pai precisaram chamar a polícia para internar a minha irmã num hospital psiquiátrico. Ela estava em crise.

(...)

3. Histórico de Pesquisa

A
anderson diretor de producao BH
altruísmo
A origem do Drama Barroco alemão
arquivo geral do rio de janeiro rosangela renno
antidepressivo efeitos colaterais
angélica freitas poemas de o útero
artista polonesa
aracy de almeida
Aby Warburg
argila branca é bom para
artista e o caralho autor
ataque do pcc
atelie dissidencias
Alfredo Jaar
apic artista patrocinado
andrea frase concinittas
arara de roupa no saara
a cocaina na colombia
a artista invasor materias
Arte contemporânea brasileira , Rio de Janeiro, Contra Capa, 2001
avianca
aniversário do Neymar
animista
azume
adriano costa
atrizes aborto
as cantoras de rádio
adília lopes
adicionar créditos
andre breton augustine
a voz do morto letra
augusto dos anjos consiste alegria tristeza

B
bolsa de criacao literaria
bombay banda argentina
bailaments histerique
boletim de ocorrencia
basbaum
bebe de 5 meses
blog estadao voodoohop secretaria de cultura
brega e chique
bebe criado pelos avos
bocas de ceniza
bebe 4 meses
buffet movel aparador
buffet neoliberalismo
barbados to bogota flights
bomba eletrica tira leite sao paulo
barracao maravilha
bienal de stambul
Barbara Kruger
bom dia tristeza
babador
bebe bipolar
bebe agitado de 2 meses
bocejo histerico
bienal do mercosul
britney spears criminal
biblioteca de teses usp
bolsa nos olhos

(...)

F
ferreira gular filho morreu esquisofrenicos
favela do esqueleto
factoide
filho bipolar genetica
fidel castro uerj
funarte criacao literaria
foucault matei minha mae
fuga pelo miojo
fuji
fabrica ocupada artistas rio
filho cildo meireles
FERNANDO ARIAS
festival encantado

(...)

H
historia do mpl globo reporter
histeria coletiva
hino nacional
her name is sabine dowload
Heraldo Bichara
historia do predio da uerj
hipismo hipinose
hora certa
how to change
how to change language on mac
horarios onibus sao paulo rio de janeiro
Huseyin Alptekin's
Hans Jacke
historia da loucura
Hal Foster
horario colombia
horario da colombia
hormonios gravides
horario mais barato para fazer ligacoes


I
i feel love lyrics
injecao antipsicotica
impressora riso
im no god
im still alive
INVENCION DE LA HISTERIA. CHARCOT Y LA ICONO, LA
interpretacao musical
interdicao de bipolar
itau cinema
ibere camargo
Isabelle Wenzel
iching
im a victim of this time
inicio das aulas na uerj

J
jack kerouac
jogo de amarelinha trecho
jornais de fortaleza
juliana bala borracha
jose alejandro restrepo
just what is it that makes todays home só different, só appeling?
Junk
jonas arrabal
Jean-Martin Charcot
Jorge Cury
Jenna Jameson
jonas mekas
juan parada
juliana paes olheiras

L
lei antimanicomial
leila danzinger
Lady Warhol
lastro
lycra
lavinia assassinato
luzes
lacma
Louise Lawler
Lady, Lady, Lady, Lady
ler na praia
lina bo bardi folder exposicao
La Otra Biennale 2013
laptop
leptop
lei de incentivo a cultura
leme metro rio
la grande nevrose
livro pau brasil

M
marianne wex
Me Acalmo Danando
miguel anges rojas david
manha de carnaval
museu mar
mc daleste
mcs mortos
mercado porto alegre fogo
movel fofoqueira
mam rio
musica dos anos 2000
merece
miss you too
mulher sentada
museu da loucura
museu da polícia militar
mercado de arte boom brasil
migre
Museu dos Pretos Novos
musica de protesto
manifestacao na candelária
maconha e antidepressivo
murilo mendes poesia liberdade
maxie wander
Marina Abramovic: "Confissões", 2010
mulher sentada
Milu Vilela
minuciosa
macabeia
MOMA-Poll ,
metal recortado
mimesi simbiose
maison de france
mar
Marpessa Dawn
megafone de bolso

N
ninguem leonilson
nouvelle charcot foi publicada
nao salvo
ninfomaniaca
nota microempreendedor individual
novela odete

O
o que faz escrivao da policia
opiniao nara leao
Orson Wells
onibus rio de janeiro franca
onibus rio de janeiro são paulo
onibus ribeirao franca
onibus do aeroporto de ribeirao para franca
Orquis mordax
OSWALDO MACIÀ
o que é bloquear rede no celular
oleo de linhaca
Olavo de Carvalho
orfeu chorando a morte
Oferta Quem sabe Se algum dia Traria O elevador Até aqui O teu amor
o que e um abscesso

P
pipa
pomada para candidiase
parasita social
palco 3d
psicose mae filho
Pedro Meirelles
passagem sao paulo rio de janeiro
parodia
Pulsion[s], art & déraison - Expositions du 22 septembre 2012 au 6 janvier 2013
paródia
passeio público
popporn
posicao da mao
previsao do tempo rio de janeiro
placa de rua passeio publico
prostituto deise só deu um gozada
preco bateria macbookpro
pinel hospital
primeiro vibrador

Q
Que meu novo nome é um estranho que me quer.
quantidade de cd
quem tem filho grande é elefante
quanto é 30% de 40000
quanto tempo dura um projeto da funarte

R
rilke shake poemas
rio de janerio things to see
remedio bipolar
rua da relação
risperidona
roda viva tv cultura
risoto de funghi
radio mobile
ricardo basbaum eu você
ritornelo
revista piaui
roteiro de novela
rico ri a toa
razão social
repetition
richard prize

S
suely rolnik sindorme do pânico
sangue estagnado
suicido uerj
salao de arte
sorry for not suferring
sexo videos caseiros
substituto
sindrome de down genetico

*

Atividades com pronomes

Não se deve
usar
pronomes
possessivos
diante de partes
do próprio corpo.

Amanhã irei cortar os cabelos.
(e não os meus cabelos)


Não se deve
usar pronomes possessivos
diante da palavra casa
quando for a residência
da pessoa que estiver falando.

Estou indo para casa
(e não para a minha casa)

O emprego dos possessivos de terceira pessoa
seu sua seus suas
pode dar duplo sentido à frase.
Para evitar isso coloca-se à frente do substantivo
dele dela deles delas.

Joaquim contou-me que Sandra
desaparecera com seus documentos
De quem eram os documentos?
Não há como saber


Quando um pronome possessivo faz referência a um substantivo que não foi sequer enunciado, ele acaba cumprindo o papel desse substantivo ausente dentro da frase, e é portanto um pronome possessivo substantivo ou também chamado pronome possessivo absoluto.

O MEU é melhor que o TEU.

*

Os pássaros têm o canto, o qual,
junto com as outras vozes
será destruído

eu não sei se vou aguentar
saber o que é assim

se os pássaros
cansam da paisagem
se
só mesmo deixando os olhos largos

é só assim que os pássaros voam
temos o objetivo de saber o que é assim

*

(linha 5)

chorei o peito e já foram detectados:
1. o choro do ventre
2. o choro das costas
3. o choro do pulso
4. o choro do peito

todos eles deságuam nos olhos
porque não choramos com os olhos

agora assim: a lágrima levanta este corpo
a mão (pulso) está
a
90 graus do teto
as costas
arredondadamente
se grudam no ventre
5. o choro do público

(linha 14)

eu não aguentaria o choro do pulso novamente

eu aguentaria um arrepio, ou
ouvir as canções
as orações musicadas,
as breves, mas muito breves estrofes e refrões
daquela canção
de um mar inteiro que se abre naquela canção
no rádio


*

Atitudes Passionais (2013) – Atualmente na Galeria Vitrine-Sete no Centro de São Paulo.


Disco de Ouro fictício baseado no livro Iconographie photographique de la Salpêtrière - especialmente a prancha de fotografias Attitudes passionelles, publicado no final do século XIX pelo médico francês Jean-Martin Charcot, considerado o "inventor" da histeria.






*

Batom Borrado.




*

Eu durmo comigo (Angélica Freitas + Fabiana Faleiros).




*

Uma canção popular séc. XIX-XX (Angélica Freitas + Fabiana Faleiros).




*


Lady Incentivo, por Odyr.
***

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Poemas eróticos de Konstantinos Kaváfis: “O melhor momento do amor é quando o amante está indo embora de táxi”.

Há um belo de trecho de uma entrevista de Michel Foucault realizada por James O’Higgins em março de 1982, em que o francês começa procurando responder a uma pergunta acerca das diferentes formas do erotismo aparecer em uma literatura homossexual e em uma literatura heterossexual, e que desenvolve talvez alguns dos elementos fundamentais para o início de uma conversa sobre o homoerotismo na poesia do alexandrino Konstantinos Kaváfis, e tudo segue mais ou menos assim:

“Foucault: (...) A experiência da heterossexualidade, pelo menos desde a Idade Média, foi sempre formada por dois quadros: de um lado o quadro da corte, no qual o homem seduz a mulher; e de outro o do ato sexual em si. Mas a grande literatura heterossexual do Ocidente se polarizou fundamentalmente em torno do quadro da corte amorosa, isto é, de tudo quanto precede o ato sexual. Toda a atividade do refinamento intelectual e cultural, toda a elaboração estética ocidental, se centrava na corte. Daí a reduzida valorização literária, cultural e estética do ato sexual em si.
         Por outro lado a experiência homossexual moderna não tem nenhuma relação com a corte. Naturalmente na Grécia antiga não ocorria o mesmo. Para os gregos a corte entre os homens tinha mais importância que entre homens e mulheres (pense em Sócrates e Alcibíades). Mas na cultura cristã ocidental a homossexualidade se viu repelida e teve portanto de concentrar sua energia no próprio ato sexual. Não se permitiu aos homossexuais elaborar um sistema de corte, uma vez que lhes foi negada a expressão cultural necessária a essa elaboração. A piscadela na rua, a repentina decisão de ir ao que interessa, a rapidez com que as relações homossexuais são consumadas, todos esses fenômenos têm origem numa proibição. Por isso é lógico que quando começam a se desenvolver uma cultura e uma literatura homossexuais elas se centrem no aspecto mais ardente e veemente das relações homossexuais.

O’Higgins: Lembrei-me da célebre frase de Casanova: ‘O melhor momento do amor é quando subimos as escadas’. É difícil imaginar um homossexual dos nossos dias fazendo essa observação.

Foucault: Exatamente. Em vez disso ele diria algo assim: ‘O melhor momento do amor é quando o amante está indo embora de táxi’.

(...)

Foucault: (...) É o momento em que o ato já se realizou e o rapaz vai embora e começa a lembrar o calor daquele corpo, o encanto do sorriso, o tom da voz. O que assume a maior importância nas relações homossexuais não é a antecipação do ato, e sim a lembrança dele. Essa é a razão pela qual os grandes escritores homossexuais da nossa cultura (Cocteau, Genet, Bourroughs) podem escrever com tanta elegância sobre o próprio ato sexual, já que a imaginação homossexual trata sobretudo de lembrar o ato e não de antegozá-lo. E, como lhe disse antes, tudo isso se deve a circunstâncias de caráter muito concreto e prático, nada nos dizendo sobre a natureza intrínseca da homossexualidade”.

(FOUCAULT, M. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. Tradução: Maria Cristina Guimarães Cupertino. Sp: 2 ed. 2005).

         Se, desde o momento de Kaváfis viveu e escreveu seus poemas, e mesmo desde o momento em que Foucault concedeu essa entrevista, até hoje, operou-se uma série de deslocamentos nas formas de se viver/perceber/dizer o ato sexual e a sexualidade, isso não aponta para um esquecimento ou uma insignificância da prática e da poética de Kaváfis no mundo atual. Antes, a sua leitura nos permite colocar a questão acerca de que relações o erotismo, e a poesia erótica heterossexual e homossexual, tecem com as circunstâncias práticas e concretas em que vivemos e que diferenças nelas e com elas, ou a partir delas, se podem operar.
         Aqui, estamos publicando uma pequena seleção de seus poemas nas traduções de José Paulo Paes, e nas de Isís Borges da Fonseca, bem como revisitando o poema Ombro enfaixado, em tradução de Fernanda Lima, publicado na revista Bliss. Além disso, incluímos a apresentação com novos poemas traduzidos, elaborada pela mesma Fernanda Lima e por Luciana Póvoa, para uma publicação que apresenta 45 poemas eróticos do alexandrino (e que será, em breve, disponibilizada aqui para download). E deixamos rodando essa insistente pergunta, (de que modo ela retornará?), que enfeixa uma escrita do erotismo: qual o melhor momento do amor?

*

Longe

Quisera referir essa lembrança...
Mas já se apagou tanto... visto que nada se mantém –
pois longe, nos primeiros anos de minha adolescência, ela jaz.

Uma pele como feita de jasmim...
Aquela noite de agosto – era agosto? – aquela noite...
Mal me lembro agora dos olhos – eram, creio, azuis...
Ah! sim, azuis: um azul de safira.

(KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas de K. Kaváfis. Tradução, estudo e notas de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus).

*

Volta

Volta outras vezes e domina-me,
frêmito amado, volta outras vezes e domina-me –
quando a memória do corpo despertar,
quando ao sangue retornar o desejo de outrora
e os lábios e a pele lembrarem e as mãos
sentirem-se como que tocadas de novo.

Volta outras vezes e domina-me, quando a noite
fizer com que os lábios e a pele se lembrem.

(In: PAES, José Paulo. (org.: seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986).

*

O espelho da entrada

À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atletas diletante)
estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.

(In: PAES, José Paulo. (org.: seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986).

*

Desejos

Como belos corpos de mortos que não envelheceram
e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,
com rosas nas cabeças e jasmins nos pés –
assim se lhes assemelham os desejos que passaram
sem se realizar, sem que nenhum
alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.

(KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas de K. Kaváfis. Tradução, estudo e notas de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus).

*

O ombro enfaixado

Disse que bateu em um muro ou que caiu.
Mas provavelmente a razão seria outra
para o ombro ferido e enfaixado.

Por conta de um movimento um tanto brusco
em direção à estante, para descer algumas
fotos que queria ver de perto,
soltou-se a faixa e um pouco de sangue escorreu.

Novamente enfaixei o ombro, e demorei-me
um pouco nesta tarefa, pois não doía
e agradava-me ver o sangue. Coisa
do meu amor era aquele sangue.

Assim que saiu, encontrei sobre a cadeira em
frente
um pano das ataduras manchado de sangue,
pano que parecia dever ir direto pro lixo
e que sobre os meus lábios mantive eu,
e que beijei por longo tempo –
o sangue do meu amor nos meus lábios.

(Tradução de Fernanda Lima. In. Bliss. Editores: Lucas Matos, Clarissa Freitas e Márcio Junqueira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).

*



De desejos e silêncios: 45 poemas de (i)legal prazer   

Fernanda Lima e Luciana Póvoa

                                                                    
                                                                                         
Estético, sensível, sensorial, sensual: são esses quatro adjetivos que Konstantinos Kaváfis, poeta de língua grega radicado em Alexandria, no Egito, carrega na tinta expressa das linhas engavetadas. É um αισθητικός voltado para um homoerotismo particular que abriga pinceladas de όμορφος e ηδονή, de belo e prazer amalgamados por uma poética do desejo.
As cenas, os encontros e o entrelaçamento de corpos são preenchidos por pura plasticidade, ponto em que a compaixão pelo ego torna-se uma compaixão pelo ser homoerótico-universal. Este, por sua vez, vive sob a satisfação adiada e o desejo reprimido. E é a tensão entre a vida consciente do ego e a repressão da busca pelo “prazer preliminar” – o poder da forma artística que transpira nas linhas e silêncios kavafianos modelando e plasmando a essência de um amor entre iguais fugitivo das garras repressoras-centrífugas – que molda a clave dos constituintes da criação kavafiana, como é perceptível no poema Muros: “Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora. Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.”
O ambiente retratado pelo poeta é o oposto de um mundo de plenitude, sem faltas ou exclusões de qualquer tipo: existe um hiato, um abismo hiante entre significante e significado, entre o eu e o tu. A aposiopese, muitas vezes utilizada por Kaváfis, carrega uma distância estruturada ad infinitum de um significante para outro. É a partir daí que se estabelece a ponte com o desejo, e, para que isso aconteça, se faz necessário um processo de omissão e deslize constantes da significação. Sem isso, a preservação saudável do eu-poético seria consideravelmente dificultada.

Quando surgirem

Poeta, empenha-te para que as retenha
enquanto são poucas as que se estancam
as quimeras do erotismo teu.
Incute-as, levemente encobertas, nos versos teus.
Poeta, avigora-te para que as retenha,
quando surgirem em tua mente,
à noite ou ao resplandecer do meio-dia.

Pode-se dizer que a omissão e o deslize do significante, a revelação e o ocultamento são uma espécie de parapraxis forçada, lapsos linguísticos propositalmente incitados. O trabalho sobre o gênero do ser desejado é um exemplo: o ocultamento de gêneros e nomes é fundamental para que o deslize das epifanias seja concretizado.
Com isso, o processo da tessitura – ο ato textual – deve ser despido de sua própria composição para que haja estímulo de reflexão crítica sobre as maneiras particulares pelas quais elas construíram a realidade cotidiana de Kaváfis e de seus amantes – desejos poéticos – de forma a reconhecer que tudo aquilo poderia ter acontecido de modo distinto. Assim, há uma demanda de atos e suposições de muitos olhares atentos para que o processo estético possa ser recepcionado de maneira adequada. E produtiva:

Mas para nós da Arte,
por um instante, habita a alma, e de fato
por curto tempo, engendramos o prazer
que fantasio como se fosse real  

São esses olhares atentos os responsáveis pela particularidade do poeta em questão: “as atividades dos olhos kavafianos”, assim como a das câmeras de Hollywood, devem ser destacadas de modo que o espectador, tanto das imagens quanto das entrelinhas, não possa somente efetuar uma observação dos objetos através da interferência dessa operação, mas sim deitar as suas sinapses refletivas e refletoras sobre as lições de poesia e desejo que esses olhos criptografados querem dizer:

Vitrine de Tabacaria

Perto da vitrine iluminada
de uma tabacaria pararam em meio a muitos outros.
Por acaso, seus olhares se encontraram
e o ilegal desejo das suas carnes
se revelou timidamente, hesitante.
Depois, alguns passos ansiosos pela calçada ¾
até que sorriram e trocaram acenos discretos.

E depois, na carruagem fechada...
O sensual aproximar de corpos;
as mãos que se penetram, os lábios que se penetram.

Esses olhares refletem em linhas pontilhadas o desejo na esfera (in)consciente do ser direcionado ao Outro de uma forma nunca plenamente satisfatória, em função da impossibilidade de percebê-la: Χαρά é um ato – ou um fato, como preferirem – momentâneo. E Kaváfis tem plena consciência desse caráter tão intrínseco aos trinta e dois cromossomos, sejam eles gregos ou não. Humanos, pois.
A partir das atividades dos olhares atentos na poesia kavafiana, o indivíduo em seu caráter masculino-homoerótico é levado a fermentar sua exegese em âmbito amplo e restrito, geral e particular, tendo como âncora a estética epifânica e propositalmente omissa de fugazes e (i)legais prazeres.
Talvez se possa conjecturar uma singela semelhança estrutural de transpirações poéticas entre Luis de Camões, poeta português do século XVI e Konstantinos Kaváfis, o polidor de versos alexandrino de língua grega moderna do século XIX: ambos recorrem ao empirismo pessoal voltado ao prazer como dínamo para a busca de conhecimento interior que fomenta a chamada experiência hipotética. É tempo de pluralidade de verdades e de amores em sua esfera carnal, epidérmica e sensória para que sejam efetivados questionamentos, tentativas de resolução de dúvidas que emergiram na mente humana. 
A suspensão dos signos linguísticos, aquilo que a obra não diz, pode ser tão importante quanto o que ela venha a expressar, e o que está à margem, escondido ou maquiado, ambivalente ou dicotômico pode constituir o portão de entrada para a Troia do poeta. A obra pode observar não só o que o texto realmente diz – ou o que pretende dizer -, mas também o seu funcionamento, o seu modus operandi, as palavras que não são ditas, que são retiradas com excepcional frequência, duplicações e lapsos de linguagem – é a criação do subtexto, do subliminar poético. Assim, em cada simbologia do não-dito, Kaváfis expressa a sua tríade epidérmica – desejo, prazer e repressão.
“Por completo o ilegal prazer se deu” e “Ruído ou som de pedreiros não ouvi outrora, de mundos imperceptivelmente me excluíram”: a partir de trechos como esses, percebe-se que existe algo fora do lugar, fora de um centro voltado para uma espécie de δόξα – senso comum –, e a expressão do desejo. Este só não pode ser verificado porque somos colhidos por relações linguísticas, sexuais ou sociais, ou seja, em todos os campos do “Outro” que geram esse desejo. Há uma censura da agressividade burocrático-comedida impulsiva ou libidinosa, todavia aceitável em função da forma, do jogo verbal e do δαιμονισμένος textual – aquele que atua no processo de inspiração de linhas e expiração de entrelinhas pelos poros da caneta: “As miseráveis leis da sociedade (...) impediram-me de dar luz e emoção aos que são como eu”.
Uma mesa, uma cadeira, um quarto em um apartamento: tentativas de recriar o ambiente em que o poeta vivia na sua antiga residência, que hoje abriga o museu Kaváfis, na Alexandria do Egito. Antes, o poeta dividia o espaço do sobrado com um prostíbulo no térreo, onde, algumas vezes, podia vislumbrar jovens que a ele mais pareciam anjos em busca dos prazeres da carne. Muito escreveu Kaváfis sobre os prazeres do amor proibido, sobre o desejo entre iguais, de modo velado, na maioria das vezes, pois o tempo em que viveu não permitia a visibilidade. Todavia, sua poesia se construiu a partir de uma estética da subversão, que falava do proibido, reconhecia-o como tal e, ao mesmo tempo, exaltava-o.
O pensamento sonha, disse o poeta. Sonho é simbologia camaleônica, realização dos desejos inconscientes. E é através da roupagem da iconografia poética que o material é expresso – caso contrário, a objetividade impulsiva poderia ser chocante e perturbadora a ponto de desligar o receptor da área da ποιήσις, transportando-o para o campo ativo da πράξις. A simbologia precisa ser decifrada, todavia paulatinamente, em processos de metáfora – a condensação de significados em conjunto – e metonímia – deslocamento de um para o Outro, transposições de realidades de um εγώ, de um eu, para um υμεις, para um vós.
Um possível enfraquecimento da ordem simbólica é dado através da própria linguagem do semiótico em Kaváfis: não se trata de uma alternativa à estrutura de simbologias, à língua que poderia ser utilizada no lugar de um λόγος, de um discurso próprio – é um processo que ocorre dentro dos sistemas convencionais de signos do autor, cujos limites são possivelmente questionados e ultrapassados. Desse modo, as dicotomias pré-estabelecidas no sistema podem vir a ser desconstruídas: lícito e ilícito, adequado e inadequado, meu e teu, sadio e insano, obediência e autoridade nas quais uma sociedade baseia os seus princípios e seta, define os seus parâmetros.
Kaváfis se auto-recria por meio de uma veleidade expressiva de um polidor de versos mais forte: “para corpos covardes não foi feito prazer de tamanha intensidade.” É, para si mesmo, heroica e demasiadamente humano: por ter a humanidade dionisíaca, paradoxal em sua essência, que se permite auto-recriar em busca do verbo λύνω (soltar, desatar) presente nos libambos do Externo. É uma salvação por meio de letras ordenadas com alto poder de persuasão de si mesmo e do Outro apaixonante através do tom, do ritmo e do material valorizados. Desse modo, passa a haver a criação de um impulso no texto que ameaça romper com os significados sócio-metrificados existentes na esfera homossocial.
É assim que o poeta modela a chamada Influência Tranquilizadora de sua escrita, em que há um combate à ansiedade e à glorificação da ordem, do cotidiano vital e do prazer: Kaváfis é εραστής, ερωμένος – amante – e έρωτας – amado, mesmo em sua fantasia, em seu simbolismo do inconsciente, no imaginário (não impresso) expresso por seus silêncios.

Lembra, Corpo...

Corpo, lembra não só o quanto foste amado,
não só os leitos em que deitaste,
mas também os desejos que por ti
brilhavam nos olhos, claros,
e tremiam na voz – e alguma
barreira do acaso os frustrou.
Agora que tudo já é passado,
parece que àqueles desejos
também te entregaste - como brilhavam,
lembra, nos olhos que te fitavam;
como tremiam na voz, por ti, lembra, corpo.
        
Assim, a vida pessoal se torna matéria poética, elaborada, como faziam os Antigos, aqueles dos quais o poeta moderno nos falará em vários de seus poemas, velados ou nem tanto, mas com muita sensualidade, uma sensualidade misturada à lembrança das experiências eróticas evocadas, sentidas por uma memória que teima em se apagar:


Janeiro de 1904

Noites outonais de janeiro,
ao assentar-me e recriar com a mente
aqueles momentos e te encontrar,
e ouço as minhas derradeiras palavras e ouço as primeiras.

Desesperadas noites outonais de janeiro,
como escapa a visão e me deixa só.
Como foge e se desfaz célere –
todas as árvores,  ruas, casas,  luzes.
Apaga-se e se dissipa a tua erótica beleza.

Interessa-nos perceber como o poeta arquiteta a sua arte, trazendo um homoerotismo velado em muitos de seus poemas, denunciado simbolicamente apenas por uma gravata que é comentada, por um termo utilizado, pelo local em que se dá a troca de olhares. Não obstante, outras peças nos dão quadros completos, evidentes e vivos de momentos de êxtase, de tensão erótica, de respeito entre amantes.
No processo de amante-amado kavafiano, Mnemosýne é fundamental: o presente é constituído a partir de lembranças de um passado sem o qual a sua poesia perderia a essência. O παρών, o presente, está intimamente ligado ao παρελθόν, ao passado, em busca de reminiscências vitais a serem transportadas ao papel com ares, como o próprio autor menciona, de ilícito: são os apegos inquietos, o έρωτας, que são servos do impulso da suspensão de vida momentânea durante o processo do “ilegal prazer”: 

Inícios

Por completo o ilegal prazer
se deu. Do leito se levantam,
e com pressa vestem-se sem nada dizer.
Saem desunidos, escondidos, da casa; e seguem
assim inquietos pela rua, como se
temessem que algo neles denunciasse
em que tipo de cama há pouco deitaram-se.

Mas a vida do artista se enriquece
Amanhã, no outro dia, anos mais tarde, serão escritos
os versos fortes que tiveram aqui seus inícios.

As linhas e os silêncios kavafianos são fonte de hedonismo, tanto para quem emite a obra em gestos de liberação por poros quanto para quem as recepciona: é uma “estética da recepção” prazerosa para as duas extremidades: quem escreve também se auto-recepciona em doses homeopáticas de desejo poetizado todo temperado de arte. O διαφανής, o límpido impera.
Essa dinâmica do prazer e do desprazer politicamente forçado é investigada devido à repressão e ao adiamento do ato de satisfazer-se que um ποιητής (verbo ποιώ + sufixo –τής), um poeta engajado em desconstruções de δόξα através de uma relação entre πράξις e ποίηση pode tolerar, já que a sociedade na qual ele é inserido desvia o desejo de finalidades consideradas moralmente aceitas para outras que o menosprezam e degradam. O desejo entre iguais é um exemplo: o homoerotismo é transviado para uma esfera falsamente exposta como promíscua e degradante, fora do normal, um “prazer ilícito, estéril, perigoso, doente”1.

Passagem

As tímidas coisas que o estudante imaginou
estão abertamente reveladas diante
dele. E busca e vela
e deixa-se levar. E como é
(para minha arte) verdade,
seu sangue, novo e quente,
o prazer que enleva. O seu corpo vence
a ilegal embriaguez erótica; e a juventude
se rende à sua brandura.

E, assim, um rapaz simples
torna-se digno de ser visto, de sua superioridade
o Mundo da Poesia um instante toma, este ¾
o sensual menino, com seu sangue novo e quente.

Os poemas kavafianos (de)mo(n)stram todo o lirismo presente no caráter humano desse Έρως, fazendo com que os sentimentos expostos borbulhem em nossa epiderme, ao degustar cada lição de poesia e desejo de um ser dionisíaco, em que corpo e mente se entrelaçam entre quartos, ruas e cafés – palavras de Fernanda Lima - , em um espaço homossocial, público, onde a intensidade do encontro de linhas pontilhadas oculares e corporais pode – e deve – ser efetivada.
A moral de Kaváfis reconhece, mas rechaça, as noções de dever, de consciência, de mérito e de erro em nome da imponência do prazer, da libido, do desejo em relação ao Outro dificultado pelas normas. É puro empirismo de Eros, de carnes mareadas pela cobiça, banquetes de regozijo servidos por Afrodite.
Ao passar a retina afiada pelas linhas do poeta, é visível que ele entregaria o próprio coração para ser mordido, quereria sair dos limites de sua própria vida como suprema crueldade, como disse Clarice Lispector. Os “apesar de” são introjetados nos constituintes de βουστροφέδον do seu sentir, as sombras com as quais conviveu passam a se mostrar, dizer que ocupam, sim, um lugar no kósmos e demonstram que ninguém se perderá no sistema vetorial de dar e receber prazer. Mesmo que em um ato glorificado de iluminação do eu.
Kaváfis ultrapassa a simbologia de um Zeus hesiódico, aquele que exerce um controle do homem nos seus transbordamentos e paixões – a poesia kavafiana apresenta uma ficção paidéitica às avessas. A covardia do corpo não pode ser tolerada. A mente que usa antolhos, rédeas e cabrestos, igualmente. É um constante ato de ηδονή άφθαρτη, de prazer imperecível da inseparabilidade entre moral e destino, de um futuro no qual o poeta confiou.
“Mas a vida do artista se enriquece. Amanhã, no outro dia, anos mais tarde, serão escritos os versos fortes que tiveram aqui seus inícios”. Que as alegrias e mirras kavafianas possam sempre transcender o gozo dos amores da rotina.


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1 LIMA, Fernanda Lemos de. “Entre quartos, ruas e cafés: imagens da poesia homoerótica de K. P. Kaváfis”. Rio de Janeiro: Nonoar, 2007.