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domingo, 4 de janeiro de 2015

Luca Argel: “Já disseram as respostas (Nós erramos mesmo assim)”.

A postagem de hoje encerra as atividades do blog de 2014, e dá início ao ano em que já nos encontramos. Vamos às férias, porque sofremos todos os desastres nesse ano desastroso, e merecemos gozá-las. O blog e seus editores voltam às atividades periódicas apenas em abril. Mas antes de irmos ao verão, paramos um momento para Luca Argel.

Organizamos, junto aos amigos e queridos artistas dos Jardins Portáteis [mais informações aqui e aqui], um evento para que Luca apresentasse o livro de reclamações [veja/ouça/sinta o livro aqui] pela primeira vez no Brasil. O evento acontecerá no Rio de Janeiro, dia 06/01/2015 e será acompanhado por um show de Dimitri BR [mais sobre o artista aqui e aqui] em que ele apresentará, pela primeira vez, seu álbum Música Sólida na íntegra. Além disso, também teremos apresentações com poemas/cenas/canções dos artistas: Lucas Matos e Thiago Gallego; Cristina Flores, Eduardo Sande e João Marcelo Iglesias.

Na postagem de hoje, dedicada à obra de Luca Argel, vídeos da série desinventor e um texto inédito que encomendamos a Luca sobre a sua experiência em Portugal (ele foi para lá em 2012 logo após o lançamento de seu primeiro livro, Esqueci de Fixar o Grafite, 7letras, 2012) e um pequeno ensaio sobre sua poesia, assinado por Lucas Matos.

Seguimos vivos,
de bliss em bliss.

Sobre o Evento:
Lançamento de O livro de reclamações (Luca Argel) & show Música Sólida (Dimitri BR).
Onde: Sede das Cias. Rua Manuel Carneiro, 12. (Escadaria Selarón). Lapa. Rio de Janeiro.
Quando: 06/01/2015. Às 20 h.
Apresentam-se: Cristina Flores, Dimitri BR, Eduardo Sande, João Marcelo Iglesias, Luca Argel, Lucas Matos e Thiago Gallego.
Mais info: aqui

*


Foto da capa d' o livro de reclamações (por Bea M. Saiáns)

PARTIU-ME O PESCOÇO (Luca Argel, 2014)

-ter uma tag na caixa de emails com o nome "diaspora". ser essa tag referente a tudo o que diz respeito à viagem, mas que essa tag acabe por reunir praticamente apenas os emails relativos a toda a burocracia da mudança: documentos de viagem, visto, papelada da universidade, seguro saúde, bilhetes de avião, cotação do euro...

-…o que acontece no mundo quando você se muda é só que mais um monte de papel é criado. mas mantive o nome da tag, só porque tinha que ser um nome curto.

-aquela grande frase da llansol, que dizia que só voltava pra portugal quando já não fosse mais um voltar e sim um ir. (não pelas implicações da frase, mas porque ela faz parecer que até existe essa possibilidade, digo, essa possibilidade de "voltar", assim, voltando).

-"partiu-me o pescoço": causou-me espanto; surpreendeu-me; impressionou-me (positivamente). a primeira expressão nova que aprendi (e nunca usei). (mas justiça seja feita: mais por pudor, do que por falta de oportunidade).

-e isso de estar no país do colonizador? na língua do colonizador? e essa coisa de ser você o estrangeiro – mas menos estrangeiro do que uns, e mais estrangeiro do que outros – e lembrar que das últimas vezes que estive em certos bairros do rio de janeiro também já me sentia um pouco estrangeiro?

-outra coisa é descobrir que ir "às brasileiras", aqui, quer dizer ir ao puteiro; outra coisa é ouvir um "volta pra tua terra" numa briga de bar, e entender a frase não porque você entende aquela língua, mas porque foi dito na tua própria língua

-mas há "o garrote", de fernando assis pacheco; "visitação I" de antónio franco alexandre; "carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de goya" de jorge de sena; "levadas" de manuel de freitas; "ritos" de josé miguel silva; "acrobacias", de ana paula inácio. por isso sim, por isso sim.

-e mais: o acordo ortográfico, um crime. não que ele seja respeitado aqui, mas é que desobedecê-lo em portugal é um prazer ainda maior do que desobedecê-lo no brasil!

-aprender definitivamente uma coisa: a odiar a palavra "pátria", seu conceito, sua etimologia.

-estar sempre em defasagem, só começar a entender o lugar anterior depois de já estar no lugar seguinte.

-um péssimo lugar para ser vegetariano. a maioria nem sabe o que significa essa palavra. em geral acham que quer dizer "não gosta de churrasco", e te oferecem fiambre. (fiambre é presunto). no melhor dos casos, peixe. (segue texto explicativo decorado, interrompido por interjeições de surpresa, indignação, escárnio).

-e toda uma nova caixa de ferramentas: a segunda pessoa do singular, a segunda pessoa do plural, pronomes oblíquos, pronomes oblíquos por toda parte!

-ah, sim, a crise. há outros nomes pra isso, também.

§

*

Nenhum código de emergência para esse tipo de situação: escutando Luca Argel.

Por Lucas Matos

1.

Ao se referir ao conjunto de práticas artísticas que envolvem o poético, ou estão no nome da poesia de Luca Argel, é comum que se usem frases como “ele também faz poesia textual”, ou que apareçam adjetivos como “tradicional”, e até – o mais curioso - “clássico” para se referir ao trabalho verbal que não se dá em meios audiovisuais ou por performance. De fato, Luca tem-se destacado por um trabalho que se ramifica numa espécie de trânsito entre linguagens diversas.

Nesse sentido, sua empreitada mais recente, o livro de reclamações [cujo lançamento no Rio de Janeiro se dará na terça-feira conforme texto acima], se por um lado sintoniza-se com uma ideia de livro que vai encontrar sua forma no dispersivo e no fragmentário (pensemos, por exemplo, n’O livro do Desassossego), por outro, responde ao afirmar-se como música-e-poesia-ao-mesmo-tempo (e talvez pudéssemos acrescentar performance e vídeo) que não se trata de coisas co-extensas, adjuntas. Antes, quando nos vemos diante da simultaneidade que ele propõe pela recuperação do uso de uma palavra – mas que não só de uma palavra, senão de uma experiência da arte ou da cultura – antecedente à Poética aristotélica e suas práticas analíticas e classificatórias que propiciariam a cisão entre música e poesia, pensamos numa espécie de implicação.

Então, ao me propor um exercício de escuta de seu primeiro livro, o Esqueci de fixar o grafite [7 letras, 2012], queria dizer que, de algum modo, estou me propondo considerar sua poesia “textual” não como um também, ou um além de, e sim como um ao mesmo tempo. Isso se dá pelo reconhecimento de uma unidade de composição em que os desenhos acústicos que as frases apresentam desempenham um papel fundamental a partir de recortes/colagens, repetições de padrões rítmicos e sintáticos, etc. em que o som cotidiano da língua aparece próximo/distante, em deslocamento.



2.

UMA HORA PARA AS CAIXAS DE SOM PARAREM DE FUNCIONAR

conheci você no banheiro da cantina
cantando muito alto uma marchinha famosa
não era roxo ainda seu cabelo
não era roxa ainda sua voz

conheci você num leilão de frangos
fugindo do plantão
não era roxo ainda seu nome
não era roxa ainda sua mão

conheci você no maior município em área deste país
roubando uma canoa
não eram roxas ainda suas fotos
não era roxa ainda sua língua

conheci você andando de bicicleta
na primeira manhã de uma guerra
não eram roxos ainda seus amigos e o seu corpo
não era roxo ainda

Os três primeiros quartetos apresentam uma estrutura sintática semelhante, numa espécie de jogo de permutação, em que sobre uma forma que se repete, diferentes arranjos de conteúdo se sucedem, como numa variação sobre um tema, ou num exercício probabilístico de possíveis. Nos dois primeiros versos de cada uma, temos a frase “conheci você + local + modo”. Aqui, o tema do a primeira vez que um par se viu/formou ocorre na estrutura discursiva eu-tu que percorre todo o livro, e se vê condensado na forma do conhecer como um encontro que envolve um local e um estado de coisas que dá a situação, o contexto psíquico e físico dos corpos no momento do encontro. É interessante que as orações subordinadas que apresentariam esse estado tenham uma indeterminação quanto a seu sujeito (não se sabe quem estava cantando, fugindo, ou roubando, apenas por uma questão de ordem presume-se que é o segundo termo (você), mas podia ser o primeiro (eu) ou mesmo ambos). Também é notável que se a estrutura se repete, o jogo do que se sucede estabelece uma gradação (do menor espaço para o maior espaço, expresso pelo maior sintagma, e do potencialmente incômodo/causador de perturbação ao ilegal). Os dois últimos versos de cada uma dessas estrofes também repetem, como num refrão, “não era roxa/o ainda” e diferentes elementos ocupam a posição de sujeito, o par quase sempre apresenta uma parte do corpo (cabelo/mão) e algo que mais próximo ou mais distante do corpo anuncia uma espécie de linguagem ou codificação significativa/expressiva (voz/nome/fotos). Aqui, o interessante é que a ambiguidade da palavra língua vai dar o tom da instabilidade, ou antecipar o movimento, a reordenação que ocorre na estrofe final.

Nos dois primeiros versos da estrofe final, há uma inversão da ordem, o estado das coisas, o contexto físico dos corpos aparece primeiro (“andando de bicicleta”), o que possibilita um deslocamento e não mais temos um adjunto que informa um local, mas uma circunstância histórica ou de temporalidade – a primeira manhã de uma guerra. Os dois versos finais também se reordenam e ganham uma espécie de ambiguidade sintática, ou mobilidade interpretativa. Quer dizer, podemos ler tanto “não eram roxos ainda seus amigos e o seu corpo”, quanto “e o seu corpo não era roxo ainda”. Além disso, quanto ao refrão “não era roxo ainda”, se considerarmos a repetição e os significados da cor roxa, podemos agora entendê-lo como uma espécie de prenúncio de desastre, ou de desenvolvimento de um tema sombrio que afinal vem para o primeiro plano, encerrando a peça. Ao final, é como se “não era roxo ainda” ficasse ressoando, nota em suspenso, prolongada no tempo da leitura.

Estamos bastante próximos de outro poema do livro, que tem estrutura quase complementar:

PARA VOCÊ APRENDER A PALAVRA NACRE

oi eu estou com o seu casaco frio
oi eu estou dentro do seu casaco frio
oi eu estou cobrindo o meu rosto
com o capuz do seu casaco frio
agora eu não vejo mais nada
agora está ficando
mais difícil
respirar

No caso, o tema do “seu casaco frio” inscreve a estrutura eu-tu no jogo da ausência/presença (você ausente, mas perceptível através de um objeto que concentra a memória ativa da sua presença, a princípio) e encarna na relação dicotômica dos seus termos – aquilo que deveria propiciar calor, ser quente, se revela frio – a dinâmica de temperaturas do corpo que estão sujeitas à dinâmica do afeto. Aqui, talvez não seja absurdo uma aproximação com a lírica das febres da paixão e do amor.

As frases do poema são todas iniciadas por uma partícula que marca uma proximidade com o registro oral, e que se coloca como que fora, ou na posição “mais externa” do encadeamento sintático da oração (oi/agora). Os três primeiros versos são também variações sobre um tema, mas no sentido de uma estrutura que vai se alargando, se desdobrando tanto do ponto de vista da relação entre os termos da frase quanto de seu significado. No trabalho de Luca, é bastante comum que haja um entrelaçamento do tipo, em que uma mudança no padrão sonoro, discursivo, frasal sempre implique, ou se faça acompanhar de alterações do ponto de vista do conteúdo do que está sendo dito. Do primeiro ao segundo verso, a variação operada (com -> dentro) se dá como um deslocamento do referencial espacial na relação do sujeito que fala e o objeto. O casaco vai de algo que o acompanha, que está junto dele, para algo que o circunscreve, que o contém. No terceiro verso, a introdução de uma nova oração na posição final, dilatando a frase (que se quebra em versos distintos), mais uma vez promove uma alteração do ponto de vista que se dá como uma intensificação do movimento anterior. Agora, apenas partes do corpo de quem fala e do objeto estão em cena, e quem fala se confunde com o próprio objeto na ação de circunscrever/constranger o corpo.

A alteração maior permite que uma nova estrutura se apresente a partir de uma partícula dêitica (agora) que concretiza, trazendo para o primeiro plano, o índice de performatividade do poema. As frases seguintes se aproximam pelo tema da obstrução progressiva. A primeira delas, obstrução da visão, possibilita um deslocamento do foco com relação a quem fala, e nas orações finais a palavra “eu” já não se pronuncia, embora seja o sujeito possível – ou presumido – da última delas (respirar). É claro que aqui a sugestão do poema é a de um entrelaçamento de quem fala no poema com quem lê – como se o leitor pudesse sentir também a dificuldade de respirar. Note-se que a quebra dos versos não segue a constância sintática anterior, simulando pausas, ou um espaçamento mais irregular na frequência do ritmo inspiração/expiração. O final, mais uma vez em suspenso, condensa a performance do poema – sugerindo uma progressão da falta de ar ao ponto de não se conseguir mais manter a sustentação da fala.

Como se vê, a sugestão de uma musicalidade, aqui, se dá menos por procedimentos fonéticos/fonológicos (não que não ocorram rimas e/ou aliterações, assonâncias localizadas, mas não é nelas que se concentra o que procuro destacar) e mais pela imbricação entre um movimento da forma/estrutura rítmica – e com sugestões de desenhos acústicos, frasais claros – e o seu conteúdo temático. Quer dizer, ela seria perceptível enquanto modo de composição, e não por uma ênfase na carga sonora da matéria verbal, produzindo a impressão de uma imitação dos efeitos causados pelo trabalho com melodias e harmonias.



3.

FICAR EM PÉ NUMA CADEIRA COM RODINHAS

eu vou te dizer o que eu vejo
daqui
enquanto eu estiver aqui
e você estiver em outro lugar
eu direi primeiro eu vi
um mandarim levando debaixo do braço
um banco
onde esteve sentado durante noventa
e nove dias sob a janela da cortesã
que o receberia apenas no centésimo
eu direi primeiro eu vi
uma criança correndo na direção
de um tigre
eu direi primeiro eu vi
alguém
tomando por música
o som do alarme
por estar com o corpo
totalmente submerso
as palavras lhe saindo pela boca
direto à superfície
onde já não pertenciam à qualquer língua
da superfície
eu vou te dizer o que eu vejo
porque eu ainda vejo
porque eu estou aqui
porque a queda é uma grande possibilidade
sim, embora para meu lado esquerdo
sim, embora para o lado da mão
com que você escreve

O título de saída nos coloca numa situação de jogo entre equilíbrio e desequilíbrio de quem fala. Trata-se não só de uma inversão da função de um objeto cotidiano – ficar em pé numa cadeira – como também de se colocar em um solo móvel, em um trânsito em que o corpo se encontrará sob a ameaça iminente de uma queda. O início do poema insiste não só sobre a marca de um dêitico – aqui – como pela diferença de ponto de vista que se opera (ver as coisas de cima de uma cadeira que se move, portanto, do alto, mas em posição instável). Mais uma vez, a sequência se dá pela jogo com a ausência imediata do interlocutor com relação ao lugar de onde se fala. Nesse sentido, dizer o que se vê se anuncia como um compromisso, ou necessidade de dar testemunho ao outro enquanto a diferença de pontos de vista, ou de lugares de fala se fizer irredutível. Por um lado, a questão da presença/ausência se articula como consciência do livro e da leitura do impresso enquanto um meio/contexto específico do poema, por outro, a sugestão constante de uma situação em que se inscreve o corpo que fala a partir de índices de certa performatividade – que não deve ser tomado aqui imediatamente como performance no sentido de arte performática – instaura uma tensão. A forma livro/impresso nunca parece se apresentar como ponto de estabilidade, ou fundamento fixo a partir do que se levanta o poema. Diferentemente, a sugestão é de uma possibilidade de desequilíbrio, ou equilíbrio precário que marca a abertura constante para outros modos do lance poético se apresentar.

No dizer o que se viu, entretanto, se instaura um descompasso entre uma imagem e a narratividade do próprio discurso – o enfrentamento de dois códigos distintos. Acabo por dizer sempre mais, ou a partir de um referencial que é antes da própria fala do que o que eu de fato posso ter visto. Expando assim a imagem, como se pudesse ver no banco que o mandarim leva consigo a história prévia que o marcou. Consigo, antes, passar pedaços de histórias que acabam colocando outras matérias que criam opacidades à imaginação da matéria visual, epílogos, oscilantes entre o fracasso/triunfo, desencontro/encontro, prenúncios, a inocência diante do perigo, a disposição para o risco. A repetição do verso “eu direi primeiro eu vi” acaba por refazer o jogo da série de permutas, seja como uma cena que retorna e se refaz mudando seu arranjo de possibilidades, seja como afirmação desse dizer que compõe o que se viu ao se enunciar. A ênfase recai sobre a performance do dizer ao invés da experiência visual.

O termo que altera e encerra a lógica da série é aquele que diferentemente parece apresentar um contraponto ao lugar de onde se fala – o corpo submerso não só está abaixo de algo, mas em outra substância/ambiência que altera o seu equilíbrio também e a relação com o peso mas de forma completamente distinta. De qualquer modo, também aqui o que marca, com relação ao equilíbrio, é a ausência da possibilidade de estabelecer um ponto fixo, ou tão fixo quanto sobre o solo. Aqui, além da situação, o contraponto também se estabelece por um estar em deslocamento com relação a linguagens, e/ou códigos específicos. Assim, escuta-se como música sons a princípio não ordenados numa linguagem musical, e as palavras encontram um movimento ascendente até à superfície onde não se conseguem organizar enquanto discurso de uma língua, tornando-se de som obscuro, e bolha, a algo que somente aparece, sem som. O corpo oscila entre o ruído que ouve como música, o discurso que se perde, e a imagem que se vê.

O estabelecimento do contraponto permite o retorno à situação inicial, agora com o tema que apenas se insinuava entrando em foco. A queda aparece enquanto potência orientada numa direção numa forma de reafirmar a relação entre quem e com quem se fala através do movimento da escrita, do movimento da mão na escrita. Nesse sentido, talvez o que interesse ao livro, de outro modo, seja não uma combinação de diferentes códigos numa forma estável, mas o registro desse movimento do corpo que oscila, que está na iminência de uma queda, do corpo que, entre os códigos diversos e cambiantes, não completamente compatíveis, se movimenta sem ponto de apoio fixo possível.

COMO FAÇO PARA RECONHECER PESSOAS DE QUEM NÃO LEMBRO MAIS O ROSTO

nem a voz
de quem não combinou
comigo
nenhum código de emergência
para esse tipo de situação
em que por exemplo
você se encontrará
se não soltar logo os cabelos
nem sujar a ponta dos meus dedos
de batom
quando entrar nesse pátio:
vai ser estranho
e eu nunca poderei ter certeza
e isso é bom
porque é tão pouco
como jogar cartas na cama
ou pilotar juntos
a carcaça de um monomotor

O que me parece é que, em Esqueci de fixar o grafite, desde o título até os pontos que procuro rastrear, o trabalho de Luca Argel não é o de quem se move com tranquilidade aceitando as regras de domínios distintos, mas de quem diante da sobredeterminação – pela saturação de todos os códigos – vai criar perfurações, espaços de indeterminação. O que interessa, no sentido do lance que concentra a carga poética, é o limite a partir do qual a série se desfaz, e em seguida ou temos silêncio, ou início de uma sequência de construções distintas – em tom distinto. O que interessa é a cena desse corpo oscilante entre linguagens diversas, em estado de desorientação/desequilíbrio, em busca de qualquer coisa que é como um jogo, ou um risco. Uma zona de indeterminação em que se pode dar algo como um encontro.

Reconhecer alguém é um exercício de leitura, decifrado em sua operação de certo conjunto codificado – os traços fisionômicos do rosto, o registro do conjunto de variações/alcance sonoro da voz – para fazer encontrar uma informação imediatamente presente com um conjunto de memórias. Nesse sentido, não se lembrar é de algum modo manter a memória em seu estado de feixe de experiências, de pequenos acontecimentos (soltar logo os cabelos/ sujar a ponta dos meus dedos de batom) que não se traduzem no ato de conferir ao outro uma identidade mais ou menos fixa. O verso “nenhum código de emergência”, a impossibilidade de resolver a situação a partir de um sistema de signos pré-combinado, antecipa a situação que será posteriormente atualizada por um sistema de dêiticos no qual quem fala coloca a pessoa com quem fala (esse tipo de situação/nesse pátio). É interessante que o jogo de indeterminação se opere numa oscilação de um “você”, que é genérico, que pode dizer qualquer um, e a implicação de com quem se fala, e potencialmente de quem lê no contexto criado.

No encontro encenado, tanto a estranheza quanto o diminuto da experiência importam pelo seu grau de incerteza, entre o blefe nas marcas de um jogo entre o cotidiano e o afeto (cartas na cama) e a sensação de um risco compartilhado nas imediações de um desastre (pilotar juntos/ a carcaça de um monomotor).



4.

AQUELE DIA EM QUE VOCÊ ABRE A GELADEIRA DÁ DE CARA COM UM SAQUINHO DE COUVE E DÁ UMA CHORADINHA

e você fecha a porta da geladeira
quando a geladeira apita
e olha você
em um corpo
que se recorda
que abre a porta da geladeira
e olha você
nas condições
normais
de temperatura e
pressão
se estavam todas amarradas
estavam
naquela fita
que era qualquer fita
que arrebentou semana passada
e arrebentou hoje de novo.

Não seria de todo ocioso tirarmos um momento para falarmos apenas dos títulos dos poemas. São invariavelmente compostos por frases, que podem se apresentar como plenamente realizadas do ponto de vista oracional ou como tópicos frasais destacados (cuja complementação pode residir no primeiro verso ou não existir, apontando apenas para um contexto maior de onde ela teria sido retirada e que se encontra subtraído). O interessante, entretanto, é que se a estrutura, na maioria das vezes, é reconhecível imediatamente como referência construções, lugares comuns sintáticos do cotidiano de trocas sugerindo um processo de recorte e montagem a partir de textualidades e hipertextualidades diversas, o conteúdo sempre insere um elemento cujo encaixe causa surpresa. Não só pelo seu dado inesperado, mas pelo fato de ele se apresentar simultaneamente como algo inusitado e ordinário. Inusitado no sentido de que tem uma carga de afeto excessiva, que não é explicitada, apenas se põe enquanto mistério a partir de sua própria intensidade. E ordinário porque não se opera um jogo que faça menção a qualquer ordem que não a das relações que se encontram no dia a dia, coletâneas de pequenos momentos, instantâneos que se dão numa poética do mínimo e do menor. “MOSTRANDO AO MUNDO QUE É POSSÍVEL QUEIMAR MACARRÃO”. “NÃO CONFIO NESSE MERTHIOLATE QUE NÃO ARDE”. “É OFICIAL: ACABARAM MEUS GRAMPOS”. “A ARTE DE TOMAR BANHO E CONTINUAR AZUL”. “CONTRAÇÃO LOMBAR ÀS SETE DA MANHÃ E O ARREPENDIMENTO DE NÃO TER ADESTRADO SEU CACHORRO”. São pequenos fragmentos que apontam para situações que não estão presentes, e que quase poderiam ser tomados enquanto pequenos acontecimentos linguísticos em si, mas se relacionam com o todo do poema numa espécie de montagem, podendo ser esclarecidos pela sequência sintática ou semântica, ou manter-se numa espécie de ressonância conjunta título/texto.

Voltando à geladeira e ao saquinho de couve: o poema se compõe todo ele a partir de pequenos recortes, repetições, montagem. Recortes de discursos diversos: do coloquial, ao científico, ao dramático. Da geladeira que apita e olha/lança luz – num provável código sonoro que indica o excesso de tempo aberto, e uma vigia, observação dos usos da luz e eletricidade – à fita frágil que arrebenta uma vez e de novo sem explicação e sem conseguir manter-se unindo o que tende ao disperso, ressalta-se o corpo e sua memória física. E do que o corpo recorda nessa cena simultaneamente inusitada e ordinária, estranha e cotidiana? Do que se arrebenta, dessa fita que não vale por suas características mas pela sua função: deveria dar a coesão, a unidade dos múltiplos, e que não se mantém todos amarrados, reunidos. Sobre essa memória física, daquilo que se borra, do que se desfaz e não se mantém fixo se faz o livro.

ESQUECI DE FIXAR O GRAFITE

por que nós filmamos
os acontecimentos
apenas para vê-los em retrospecto?
para que eu acredite
que este cardume de pixels
sou eu
é no mínimo preciso
para que você acredite
de uma história ou
de outra dimensão mais
espaço
por que nós lembramos
isto é
não esquecemos
para falar
de realidades semelhantes isto é
desiguais
é preciso
de mais
espaço neste cartão ora
de memória

A pergunta inicial é um pouco como um enfrentamento do hábito de tomar o registro em código visual no lugar da memória, ou melhor como tentativa de ordenação da memória, e em última análise, do tempo e da história. A frase que vem na sequência, recortada para recriar o percurso de um discurso com marcas de oralidade, com interrupções do encadeamento sintático, fragmentação e isolamento de tópicos frasais, é todo o resto do poema. E ela diz, em suas construções por semelhanças sonoras (cardume-pixel) e sua quebra de unidades lexicais complexas (cartão ora de memória) de uma lembrança que não pode ser reduzida às dimensões do código visual. Mais: uma lembrança do que é desigual, portanto, do que sendo semelhante revela-se na diferença.




Por um lado, as novas tecnologias permitem um trabalho que vai reunir saberes que se tinham separado – na sua saturação de códigos e de diversidade de informações mais ou menos descontínuas. E é, nesse contexto, ou mesmo a partir desse contexto, que Luca Argel pode se propor como um poeta que trabalha sobre aquela palavra que diz música-e-poesia-ao-mesmo-tempo. Todavia, o que se revela na consideração do seu trabalho é uma espécie de resistência ao que pode haver de homogeneizante ou de apagamento de diferenças numa submissão a um mesmo conjunto de padrões técnicos/ estruturas de escritura-leitura. É justamente da memória física – e afetiva – que se constrói um imaginário de fragmentos e intensidades que constituem uma espécie de terreno tanto aquém quanto além do indivíduo. O par eu-tu que estrutura o livro não é tanto pessoal, senão construção ficcional/discursiva. E esse material de sensações, percepções, pequenos gestos e acontecimentos, isso que se retém enquanto ação no corpo, isso que não se esquece, mas que se borra, que constitui uma matéria de construção ativa do imaginário e da memória é o estofo de qualquer linguagem, mas o que não pode ser completamente dado por nenhuma delas.




Foto orelha Esqueci de fixar o grafite, 7letras, 2012. Por Matilde Campilho.
 *

Foto Luca Argel e Dimitri BR em sarau no Rio de Janeiro, promovido por Alexandra Lucas Coelho. (2014)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita

Se abril foi o mês de retorno do blog à agenda de postagens semanais, maio será em definitivo o momento em que o coletivo Bliss não tem bis retoma, após os lançamentos na Bahia, os eventos de leitura e reflexão do fazer poético. São quatro os eventos programados para o Rio de Janeiro, dois deles com a presença dos poetas Marília Garcia e Aníbal Cristobo:

06/05 (terça), 20h - CEP 20.000/ CEP VINTEMÉIER
Retorno do CEP 20.000, agora em novo espaço. Dentre os apresentados, estará Lucas Matos. Estarão disponíveis para compra também as revistas-disco de poesia Bliss não tem bis.
Local: Imperator, na Rua Dias da Cruz, 170 - Méier.

08/05 (quinta), 18h - CORPO, POLÍTICA E CANÇÃO
Performance seguida de comunicação sobre voz, som e poesia - por Lucas Matos.
Oferecido pela Escola de Letras da UNIRIO - grupo de pesquisas CNPq Literatura e Linguagens: fronteira, espaço, performance, memória.
Local: Av. Pasteur 436 - fundos - CLA - sala 504 – Urca.

13/05 (terça), 19h30 - EDIÇÃO DE POESIA HOJE: MODOS DE FAZER E DESFAZER
Mesa de debate com a presença de Aníbal Cristobo (Kriller71 Ediciones), Italo Moriconi (Ciranda da Poesia/EdUERJ) e Marília Garcia (Revista Modo de Usar & Co)
Mediadores: Lucas Matos e Marcio Junqueira (ambos editores da Revista-Disco e blog Bliss Não Tem Bis).
Local: Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel. Rua das Palmeiras, 82 – Botafogo.

15/05 (quinta), 19h30 - LEITURAS DE POESIA/PERFORMANCES POÉTICAS
Apresentações dos poetas: Aníbal Cristobo, Clarissa Freitas, Lucas Matos, Marcio Junqueira, Marília Garcia e Thiago Gallego.
Local: Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel. Rua das Palmeiras, 82 - Botafogo.

*

Propomos esta semana, um olhar sobre formas de escrita cuja (não-)criação passa pela reapropriação do material já presente no mundo deslocado de sua posição inicial.

Referindo-se à sua técnica de criação por justaposição de fragmentos de materiais diversos, que vão da própria memória a textos e imagens de revistas, William  Burroughs declarou em entrevista à Paris Review, em 1965, “O que é qualquer texto senão um cutup?”. De forma similar, Fabiana Faleiros monta sua segunda autobiografia (com trechos publicados neste blog) num misto de improviso – o livro é pensado para um lançamento ao vivo em Microsoft Word – com textos previamente arranjados “de sites colaborativos como Wikipédia, yahoo respostas, facebook”. Faz parte da obra também, o próprio histórico de pesquisa da internet.
Já em trabalhos como os de Pablo Katchdjian,  “eu” embora ator na interpretação e rearranjo do material selecionado, não é o foco. Em seu El Aleph Engordado, o argentino, sem modificar a ordem e pontuação das quatro mil palavras de O Aleph, de Borges, insere entre elas cinco mil e seissentas outras, de modo a gerar um outro texto, onde, nas palavras do próprio autor, “se alguém quiser, pode voltar ao texto de Borges a partir deste”.

Seu El Martín Fierro Ordenado Alfabéticamente, reordena os versos do épico argentino de José Hernández, em um processo que Marília Garcia repetiria com A teus pés, de Ana Cristina Cesar. O que se tem difundido enquanto prática artística contemporânea, levando a crítica norte-americana Marjorie Perloff a formular a ideia de "unoriginal genius", é um questionamento da atividade artística, em que o processo de criação é revisto, sendo compreendido não a partir da produção de algo inédito, mas a partir da reordenação ou recolocação de objetos/textos/informação previamente existentes, de modo a se permitir observar o quanto do contexto atua na produção de significados. O que marca os procedimentos atuais, no sentido de uma diferenciação com relação a práticas bastante antigas de escrita (como o pastiche, a paródia, e mesmo a colagem, o ready made, e o cut up) é a ênfase na utilização de novos aparelhos de organização e de escrita (seja pela marca das ferramentas de pesquisa, seja por fazer algo que se destaca que poderia ser feito por um robô) bem como certa tendência ao repetitivo, à acumulação informativa, por meio de critérios que não revelam, de imediato, uma interpretação subjetiva (reduzindo as marcas de pessoalidade de um texto a um mínimo inextinguível). Os gestos básicos desse modo de escrita seriam: selecionar (escolher), (re)ordenar e deslocar. Nota-se uma contração, por meio de um pensamento espacializado, da diferença que Borges notava nos textos com as mesmas palavras - um do Quixote de Cervantes, outro do Quixote de Pierre Mènard - mas cuja diferença contextual era produzida pela temporalidade, ou pelo espírito do tempo.

O que interessa aqui, porém, é sobretudo como esses deslocamentos podem atuar em diferentes obras e propostas poéticas. Reunimos, então, trabalhos de Angélica Freitas e Marília Garcia a um ensaio-tradução-colagem de Lucas Matos acerca da escrita não criativa, que lida com a questão "quanta criação cabe num texto sobre as técnicas de não criatividade?". Junto às googlagens de Angélica Freitas, também a vídeo performance de Rwolf Kindle para os poemas, dirigida por Marcio Junqueira e apresentada em alguns dos eventos de lançamento da revista-disco Bliss não tem bis na Bahia.


***
Angélica Freitas

POEMAS COM O AUXÍLIO DO GOOGLE

a mulher vai

a mulher vai ao cinema
a mulher vai aprontar
a mulher vai ovular
a mulher vai sentir prazer
a mulher vai implorar por mais
a mulher vai ficar louca por você
a mulher vai dormir
a mulher vai ao médico e se queixa
a mulher vai notando o crescimento do seu ventre
a mulher vai passar nove meses com uma criança na barriga
a mulher vai realizar o primeiro ultrassom
a mulher vai para a sala de cirurgia e recebe a anestesia
a mulher vai se casar, ter filhos, cuidar do marido e das crianças
a mulher vai a um curandeiro, com um grave problema de hemorroidas
a mulher vai sentindo-se abandonada
a mulher vai gastando seus folículos primários
a mulher vai se arrepender até a última lágrima
a mulher vai ao canil disposta a comprar um cachorro
a mulher vai para o fundo da camioneta e senta-se, choramingando
a mulher vai colocar ordem na casa
a mulher vai ao supermercado comprar o que é necessário
a mulher vai para dentro de casa para preparar a mesa
a mulher vai desistir de tentar mudar um homem
a mulher vai mais cedo para a agência
a mulher vai pro trabalho e deixa o homem na cozinha
a mulher vai embora e deixa uma penca de filhos
a mulher vai no fim sair com outro
a mulher vai ganhar um lugar ao sol
a mulher vai poder dirigir no afeganistão

*

a mulher pensa

a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos
a mulher pensa muito antes de fazer besteira
a mulher pensa em engravidar
a mulher pensa que pode se dedicar integralmente à carreira
a mulher pensa nisto, antes de engravidar
a mulher pensa imediatamente que pode estar grávida
a mulher pensa mais rápido, porém o homem não acredita
a mulher pensa que sabe sobre homens
a mulher pensa que deve ser uma “supermãe” perfeita
a mulher pensa primeiro nos outros
a mulher pensa em roupas, crianças, viagens, passeios
a mulher pensa não só na roupa, mas no cabelo, na maquiagem
a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente

*

a mulher quer

a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer ter estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar

*





*

De: Angélica Freitas
Enviada: Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013 15:31
Para: Marcio Junqueira [para seus alunos da graduação em Letras na UNEB]
Assunto: poemas com o google

oi, márcio, tudo bem? espero que sim. você me pediu algumas linhas sobre os poemas escritos com o google. pois bem: comecei a fazer algumas experiências com o google lá por 2004, 2005, por curiosidade, mesmo. não tinha notícia de ninguém fazendo poemas com o google. e bem, minha preocupação nunca é "fazer poemas", mas ver no que a coisa vai dar, sempre tentando me divertir bastante no caminho. a primeira experiência de que gostei deveras foi a partir de textos encontrados na internet sobre o episódio do tiro que o verlaine deu na mão do rimbaud depois de uma briga. coloquei as palavras "rimbaud shot verlaine" no google e li os resultados. eram vários textos contando a história de maneiras levemente diferentes, com algumas disparidades nas datas do ocorrido, por exemplo. recortei frases dos textos e fui montando um outro texto intuitivamente. ficou assim:

 LOVE (collage)

During a drunken argument in Brussels, Verlaine
shot atRimbaud, hitting him once in the wrist On 10
July 1875, in a drunken quarrel in Brussels,
Verlaine shot Rimbaud in the wrist, and was
imprisoned for two years at Mons. Together again in
Brussels in the summer of that year, Verlaine shot
Rimbaud in the wrist following a drunken argument.
Verlaine, drunk and desolate, shot Rimbaud in the
wristwith a 7mm pistol after a quarrel. At one
point, the tension between them became so great
thatVerlaine shot Rimbaud in the wrist. about 2
o'clock,when M. Paul Verlaine, in his mother's
bedroom, fired a shot of revolver. the subject of
various books, films, and curiosities, ended July
12, 1873 when a drunken Verlaine shot at Rimbaud and
injured him in the wrist. Verlaine shot Rimbaud in a
fit of drunken jealousy.

resolvi chamar o texto de "LOVE" porque me pareceu um caso de amor mesmo. :-)

depois continuei fazendo algumas tentativas com o google, mas nada que me empolgasse muito. e eu só costumo mostrar os poemas que me empolgam, de outra forma não vejo muita razão pra publicar.

corta pra 2011, quando estava escrevendo os poemas de "um útero é do tamanho de um punho". decidi procurar na web textos sobre o corpo da mulher, pra ver como eram escritos, como era a linguagem, que palavras eram usadas, se havia alguma estrutura ou pensamento recorrente. e como o google também é um termômetro da internet, resolvi procurar as frases "a mulher vai", "a mulher quer" e "a mulher pensa" pra tomar um pouco a temperatura. me surpreendi, encontrei muitas piadas, textos machistas, preconceituosos... fiz uma seleção das frases, recortei-as e colei para tentar buscar um sentido. acho que ficaram poemas absurdos e também engraçados. mas o engraçado aqui funciona pra jogar uma luz sobre o absurdo dessas frases, de um tipo de pensamento que ainda existe, enfim.

um abraço,
angelica


***
Marília Garcia

a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente



98 voltas pelo parque antes de cair em
círculos sobre o próprio peso
               98 vezes dizia o mesmo:
você pode ou não pensar em algo
definitivo. parecia a garota de belfast com
sua memória dobrada como um pára-quedas
dentro do tecido eletrizado.
                                      enquanto falava descia a
escada lateral recortando os ruídos
da orquestra. a roda da bicicleta
girando em loop esfarelando os
reflexos no ar e seis horas parada diante
do ralo, pode ou não pensar em algo, sentada na beira do
quarto. olha de longe quando o carro
passa, desce à noite pelos trilhos
quando tudo é uma vingança
[passagem é a ligação externa
entre dois prédios]
fala de pontes atravessando os túneis
da cidade e ordena a teus pés
alfabeticamente

          A anoitecer sobre a cidade
          A câmera em rasante
          A correspondência
          A curriola consolava
          A dor
          A espera
          A intimidade era teatro

e depois de algumas linhas

          A tomar chá, quase na borda
          A voz em off nas montanhas
          Abre a boca, deusa
          Abria a cortina
          Acho que é mentira

pode ou não pensar que era sua voz em mountain hill
a uma velocidade de 1 km/h ou mil. antes
de voltar para a irlanda já começara a perder. entende
que só depois de o blindex esfarinhado contra a
cabeça, só em poucos segundos até que a cabeça
contra o blindex, mas era apenas parte
do trajeto, não tinha como calcular as noites ou linhas
em que passaria.

                        "como extrair o áudio de uma imagem
congelada" era a etiqueta que colava nas paredes
para tentar descobrir como chegar com precisão
e ao fundo a voz pela fresta
a ordenar este livro:

          Agora nessa contramão
          Agora chega
          Agora é a sua vez
          Agora estamos em movimento
          Agora pouco sentimental
          Agora sou profissional
          Água
          Água na boca
          Agulhadas

ou vertigem das alturas. você pode acordar trinta anos
depois com a imagem ainda mais viva
quando o quarto está às cegas

          As cartas
          As cartas, quando chegavam
          As lupas desistem
          As mulheres e as crianças
          Asas batendo
          Atravessa a ponte
          Atravessando a grande ponte
          Atravessa vários túneis da cidade
          Autobiografia. Não, biografia
          Aviso que vou virando um avião
          Azul deixo as chaves do 1114 soltas no balcão
          Azul que não me espanta

*

conheci a poesia de ana c. lá no parque lage, em 1998, em um curso de
pintura. conheci a poesia de ana c. em um fim de tarde de
sexta-feira quando alguém citou o poema dos dois quartos vazios
como epígrafe para uma tela, preciso voltar e olhar de novo.
aqueles dois quartos vazios da pintura
são hoje para mim um eco do poema de ana c.
conheci a poesia de ana c. várias outras vezes
parece que a gente está sempre buscando conhecer de novo,
refazer o caminho até as coisas.
dez anos depois, fiz o poema “a garota de belfast
ordena a teus pés alfabeticamente” para participar da antologia
a nossos pés, publicada nos 25 anos de sua morte, pelas editoras dantes e da casa.
o poema partiu de uma experiência bem material:
peguei todos os versos de a teus pés e os coloquei em ordem alfabética.
foi uma maneira de conhecer ana c. outra vez, de deslocar o
contexto de onde tinham saído esses versos e poder perceber
outras relações a partir dos próprios versos. ou de
confirmar certas relações a partir da repetição. ou de se
surpreender ao ver, por exemplo, que “atravessar”
se repete muitas vezes ou então que “agora” é o marcador temporal
mais frequente ocupando o início dos versos. surpresa que se junta com a
curiosidade crescente ao pensar que é possível conhecer
os caminhos tomados pelo
pronome “eu” nos poemas de ana c.
ou pelo “você”.
a teus pés em ordem alfabética foi apenas uma brincadeira
para conhecer ana c. outra vez. a partir dele, cheguei
ao poema da antologia que ganha
agora, para esta homenagem, movimento, corpo, voz, quase uma carta
atravessando essas linhas invisíveis e os túneis da cidade.

[retirado de: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/12/homenagem-a-ana-c-por-marilia-garcia/]

***
Lucas Matos

Escrita Não Criativa

Cena 1.
É a cena final da peça – mas não há cena final. Molière – o ator que interpreta Molière – disse na primeira cena que não houve tempo de escrever. Talvez ninguém lembre, mas ele disse ao fim da primeira cena: “Quanto ao final? Já sei: vou à frente e peço desculpas ao rei”. O ator agora está no alto da escada. Ele não vem à frente, não estamos no século XVII, estamos em 2001. O ator olha para o público e diz: “Majestade, nada mais sublime que o nome de sua alteza, sereníssima, o rei Luiz XIV, e nada mais insignificante que a comédia que ora encenamos”. Olha para o público e diz: “Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?”. Olha para o público e diz: “As flores do mal foi um dos primeiros, mas não o primeiro. Creio que estive experimentando coisas durante todo o ano de 2006: ordenei poemas meus, grandes e curtos, e poemas de outros. Talvez As flores do mal tenha sido o primeiro que ordenei inteiro, como livro. Mas a cada vez que ordenava, eu ria e guardava porque nada acontecia, quer dizer, não se ordenava realmente nada porque o que aparecia não era uma ordem. Se bem que eu não estava pensando o tempo todo em ordenar textos, se vinha pensando nisso era algo que estava em segundo plano. E um dia apareceu a ideia de ordenar o Martin Fierro, e quando fui fazer, tive a impressão de que aconteceu algo. O que eu queria ver era se um sistema de organização conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. E a ordem alfabética me atraía porque tem algo puro e autônomo, né? Como que além das decisões do autor. A cabeça do autor estava no que se unia. De qualquer forma, creio que cada vez que trato de explicar ou de me explicar este livro, penso e digo coisas diferentes”. É Molière – o ator quem o interpreta – que olha para o público e diz: “Tudo que fiz na minha vida foi plagiar. Plagiei Plauto, Terêncio, os gregos. Plagiei a mim mesmo”.

Cena 2.
Hoje é dia 18 de dezembro de 2013 e estamos, como todos os anos, imersos em listas e mais listas que seguem enumerando os feitos e acontecimentos do ano. Acho que estou mais para este outro tipo de lista, ordem alfabética. Escolha um livro que você goste muito e ordene alfabeticamente.


Cena 3.
Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. (Obs: quando se coloca no Google “Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita”, alguém pode encontrar a frase: “A forma correta de escrita da palavra é mau-caráter”).

Cena 4.
Houve uma explosão de escritores – Houve uma explosão de escritores empregando estratégias de cópia e apropriação nos últimos anos – Houve uma explosão com o computador encorajando escritores a mimetizar seus processos. Nada mais sublime do que o nome de sua alteza, nada mais insignificante que a comédia que ora encenamos. Com o montante sem precedente de textos disponíveis, estamos, como todos os anos, imersos em listas e mais listas que seguem enumerando os feitos e acontecimentos do ano. Nosso problema não é produzir mais textos; ao invés disso, precisamos aprender a negociar a vasta quantidade existente. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. Como eu faço meu caminho através da densidade das informações – como administro, como analiso, organizo e distribuo – é o que distingue a minha escrita da sua. Nos últimos anos, dei um curso na Universidade da Pennsylvania chamado “Escrita não criativa”. Nele, os alunos são penalizados por mostrar qualquer traço de criatividade e originalidade. O que eu queria ver era se um sistema de organização de conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. Os alunos são penalizados por mostrar qualquer traço de criatividade e originalidade. Ao contrário, são congratulados por plágio, falsificação de identidade, reapresentação de artigos, pastiches, misturas, saques e roubos. O ato de selecionar e recontextualizar diz tanto sobre nós mesmos quanto a operação de câncer da nossa mãe.


Cena 5.
Marília Garcia faz filmes recortando trechos de outros filmes, editando. Muda a velocidade da cena, repete imagens, acrescenta versos sobrepostos. Lê a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente. Ordena a teus pés ou ordena a teus pés? Marília ordena um poema próprio alfabeticamente. Adriana Calcanhotto canta a resposta de Joaquim Pedro de Andrade em uma entrevista. Caetano Veloso canta trechos de email que escreve. Verônica Stigger recolhe frases ouvidas na rua. A Companhia Teatral Nosconosco monta a comédia As Artimanhas de Molière – ou Molière Em cena – um texto composto de cenas de peças diversas coladas juntas por Célia Bispo e Roberto Dória. Victor Heringer rouba vídeos de família do youtube para fazer o clipe de A mutante, canção de Jonas Sá, gravada por Mariano Marovatto em Praia. Tom Zé canta os comentários feitos no facebbok sobre a campanha que gravou para uma marca/empresa de refrigerantes estadunidense. Victor Heringer intercala com seus poemas trechos de textos diversos escritos em acordos ortográficos há muito em desuso. Trechos que falam sobre o diabo, por exemplo. Nos 3 poemas com o auxílio do google, não é Angélica Freitas quem fala da mulher. Flora Sussekind escreve um artigo para o jornal falando sobre vozes ou versos corais na poesia brasileira contemporânea. Pablo Katchdjian achou que O Aleph estava magro, tratou de engordá-lo. Penou processo por isso. Se O Martin Fierro ordenado alfabeticamente pode ser feito por um robô em um minuto, O Aleph engordado é feito por um artesão durante várias semanas. Todo um movimento de escrita, chamado Flarf, é baseado em reunir o resultado de pesquisas do Google: o quão mais ofensivo, mais ridículo, mais revoltante, melhor. Thiago Ponce, em sua dissertação de Mestrado, escreveu um capítulo, em que tudo que há são trechos da tradução de Donald Schüler para o Finnegans Wake, de James Joyce, reconfigurados, remontados e recolecionados para que funcionem como comentários de leitura de poemas de Paul Celan e Ricardo Reis. A coisa que os alunos de aulas tradicionais de língua mais falam quando não querem escrever a redação que estão sendo forçados a escrever: “hoje, eu estou sem criatividade”.


Cena 6.
A estratégia é recolocar textos que já existem em novos contextos para lhes dar novos significados. A colagem apresenta materiais integrados num conjunto, pela habilidade do artista, produzindo uma expressão singular inventada pelo artista. O plagiário pega uma fonte e a realoca, para chamar atenção para o seu novo contexto, de modo a recolher os sentidos dessa mudança. Mais, o plagiário explora e restaura a instabilidade da linguagem, conforme ela tropeça dentro desses novos contextos. Essas novas situações instigam incerteza, que, por sua vez, instigam experiências culturais e investigação. As escolhas de como alguém compõem com os textos encontrados, como alguém conceitua tais escolhas, determinam o sucesso da poesia. Para poetas, esta é uma nova prosódia, um novo modo de pensar como ler e escrever.

Cena 7.
“Quanto ao final? Já sei:

Vai ter brigadeiro de vagina
beijinho de pênis
e muita champanhe”.

Cena final.
É a cena final da peça – mas não há cena final. Molière – o ator que interpreta Molière – disse na primeira cena que não houve tempo de escrever. Talvez ninguém lembre, mas ele disse ao fim da primeira cena: “Quanto ao final? Já sei: vou à frente e peço desculpas”. O ator agora está no alto da escada. Ele não vem à frente, não estamos no século XVII, estamos em 2001. O ator olha para o público e diz: “Nada mais sublime que o nome, e nada mais insignificante que a comédia”. Olha para o público e diz: “Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?”. Olha para o público e diz: “O que eu queria ver era se um sistema de organização conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. E a ordem alfabética me atraía porque tem algo puro e autônomo, né? Como que além das decisões do autor. A cabeça do autor estava no que se unia. De qualquer forma, creio que cada vez que trato de explicar ou de me explicar este livro, penso e digo coisas diferentes”. É Molière – o ator quem o interpreta – que olha para o público e diz: “Tudo que fiz na minha vida foi plagiar. Plagiei. Plagiei a mim mesmo”.

Fontes:
http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/2013/07/antes-do-encontro.html
http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/2013/12/a-garota-de-belfast-ordena-teus-pes.html
http://www.marovatto.org/a-mutante/
https://sites.google.com/site/la3eraopinion/la-tercera-numero-4/entrevista-a-pablo-katchadjian
https://files.nyu.edu/rmf1/public/works/identity_theft_final.pdf
Freitas, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
Stigger, Verônica. Delírios de damasco. Florianópolis: Cultura e barbárie, 2012.
Motta, Marcus Alexandre; Moraes, Thiago Ponce de. Remos e Versões. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.

Obs: o texto de As artimanhas de Molière cito de memória.