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terça-feira, 29 de abril de 2014

Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita

Se abril foi o mês de retorno do blog à agenda de postagens semanais, maio será em definitivo o momento em que o coletivo Bliss não tem bis retoma, após os lançamentos na Bahia, os eventos de leitura e reflexão do fazer poético. São quatro os eventos programados para o Rio de Janeiro, dois deles com a presença dos poetas Marília Garcia e Aníbal Cristobo:

06/05 (terça), 20h - CEP 20.000/ CEP VINTEMÉIER
Retorno do CEP 20.000, agora em novo espaço. Dentre os apresentados, estará Lucas Matos. Estarão disponíveis para compra também as revistas-disco de poesia Bliss não tem bis.
Local: Imperator, na Rua Dias da Cruz, 170 - Méier.

08/05 (quinta), 18h - CORPO, POLÍTICA E CANÇÃO
Performance seguida de comunicação sobre voz, som e poesia - por Lucas Matos.
Oferecido pela Escola de Letras da UNIRIO - grupo de pesquisas CNPq Literatura e Linguagens: fronteira, espaço, performance, memória.
Local: Av. Pasteur 436 - fundos - CLA - sala 504 – Urca.

13/05 (terça), 19h30 - EDIÇÃO DE POESIA HOJE: MODOS DE FAZER E DESFAZER
Mesa de debate com a presença de Aníbal Cristobo (Kriller71 Ediciones), Italo Moriconi (Ciranda da Poesia/EdUERJ) e Marília Garcia (Revista Modo de Usar & Co)
Mediadores: Lucas Matos e Marcio Junqueira (ambos editores da Revista-Disco e blog Bliss Não Tem Bis).
Local: Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel. Rua das Palmeiras, 82 – Botafogo.

15/05 (quinta), 19h30 - LEITURAS DE POESIA/PERFORMANCES POÉTICAS
Apresentações dos poetas: Aníbal Cristobo, Clarissa Freitas, Lucas Matos, Marcio Junqueira, Marília Garcia e Thiago Gallego.
Local: Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel. Rua das Palmeiras, 82 - Botafogo.

*

Propomos esta semana, um olhar sobre formas de escrita cuja (não-)criação passa pela reapropriação do material já presente no mundo deslocado de sua posição inicial.

Referindo-se à sua técnica de criação por justaposição de fragmentos de materiais diversos, que vão da própria memória a textos e imagens de revistas, William  Burroughs declarou em entrevista à Paris Review, em 1965, “O que é qualquer texto senão um cutup?”. De forma similar, Fabiana Faleiros monta sua segunda autobiografia (com trechos publicados neste blog) num misto de improviso – o livro é pensado para um lançamento ao vivo em Microsoft Word – com textos previamente arranjados “de sites colaborativos como Wikipédia, yahoo respostas, facebook”. Faz parte da obra também, o próprio histórico de pesquisa da internet.
Já em trabalhos como os de Pablo Katchdjian,  “eu” embora ator na interpretação e rearranjo do material selecionado, não é o foco. Em seu El Aleph Engordado, o argentino, sem modificar a ordem e pontuação das quatro mil palavras de O Aleph, de Borges, insere entre elas cinco mil e seissentas outras, de modo a gerar um outro texto, onde, nas palavras do próprio autor, “se alguém quiser, pode voltar ao texto de Borges a partir deste”.

Seu El Martín Fierro Ordenado Alfabéticamente, reordena os versos do épico argentino de José Hernández, em um processo que Marília Garcia repetiria com A teus pés, de Ana Cristina Cesar. O que se tem difundido enquanto prática artística contemporânea, levando a crítica norte-americana Marjorie Perloff a formular a ideia de "unoriginal genius", é um questionamento da atividade artística, em que o processo de criação é revisto, sendo compreendido não a partir da produção de algo inédito, mas a partir da reordenação ou recolocação de objetos/textos/informação previamente existentes, de modo a se permitir observar o quanto do contexto atua na produção de significados. O que marca os procedimentos atuais, no sentido de uma diferenciação com relação a práticas bastante antigas de escrita (como o pastiche, a paródia, e mesmo a colagem, o ready made, e o cut up) é a ênfase na utilização de novos aparelhos de organização e de escrita (seja pela marca das ferramentas de pesquisa, seja por fazer algo que se destaca que poderia ser feito por um robô) bem como certa tendência ao repetitivo, à acumulação informativa, por meio de critérios que não revelam, de imediato, uma interpretação subjetiva (reduzindo as marcas de pessoalidade de um texto a um mínimo inextinguível). Os gestos básicos desse modo de escrita seriam: selecionar (escolher), (re)ordenar e deslocar. Nota-se uma contração, por meio de um pensamento espacializado, da diferença que Borges notava nos textos com as mesmas palavras - um do Quixote de Cervantes, outro do Quixote de Pierre Mènard - mas cuja diferença contextual era produzida pela temporalidade, ou pelo espírito do tempo.

O que interessa aqui, porém, é sobretudo como esses deslocamentos podem atuar em diferentes obras e propostas poéticas. Reunimos, então, trabalhos de Angélica Freitas e Marília Garcia a um ensaio-tradução-colagem de Lucas Matos acerca da escrita não criativa, que lida com a questão "quanta criação cabe num texto sobre as técnicas de não criatividade?". Junto às googlagens de Angélica Freitas, também a vídeo performance de Rwolf Kindle para os poemas, dirigida por Marcio Junqueira e apresentada em alguns dos eventos de lançamento da revista-disco Bliss não tem bis na Bahia.


***
Angélica Freitas

POEMAS COM O AUXÍLIO DO GOOGLE

a mulher vai

a mulher vai ao cinema
a mulher vai aprontar
a mulher vai ovular
a mulher vai sentir prazer
a mulher vai implorar por mais
a mulher vai ficar louca por você
a mulher vai dormir
a mulher vai ao médico e se queixa
a mulher vai notando o crescimento do seu ventre
a mulher vai passar nove meses com uma criança na barriga
a mulher vai realizar o primeiro ultrassom
a mulher vai para a sala de cirurgia e recebe a anestesia
a mulher vai se casar, ter filhos, cuidar do marido e das crianças
a mulher vai a um curandeiro, com um grave problema de hemorroidas
a mulher vai sentindo-se abandonada
a mulher vai gastando seus folículos primários
a mulher vai se arrepender até a última lágrima
a mulher vai ao canil disposta a comprar um cachorro
a mulher vai para o fundo da camioneta e senta-se, choramingando
a mulher vai colocar ordem na casa
a mulher vai ao supermercado comprar o que é necessário
a mulher vai para dentro de casa para preparar a mesa
a mulher vai desistir de tentar mudar um homem
a mulher vai mais cedo para a agência
a mulher vai pro trabalho e deixa o homem na cozinha
a mulher vai embora e deixa uma penca de filhos
a mulher vai no fim sair com outro
a mulher vai ganhar um lugar ao sol
a mulher vai poder dirigir no afeganistão

*

a mulher pensa

a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos
a mulher pensa muito antes de fazer besteira
a mulher pensa em engravidar
a mulher pensa que pode se dedicar integralmente à carreira
a mulher pensa nisto, antes de engravidar
a mulher pensa imediatamente que pode estar grávida
a mulher pensa mais rápido, porém o homem não acredita
a mulher pensa que sabe sobre homens
a mulher pensa que deve ser uma “supermãe” perfeita
a mulher pensa primeiro nos outros
a mulher pensa em roupas, crianças, viagens, passeios
a mulher pensa não só na roupa, mas no cabelo, na maquiagem
a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente

*

a mulher quer

a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer ter estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar

*





*

De: Angélica Freitas
Enviada: Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013 15:31
Para: Marcio Junqueira [para seus alunos da graduação em Letras na UNEB]
Assunto: poemas com o google

oi, márcio, tudo bem? espero que sim. você me pediu algumas linhas sobre os poemas escritos com o google. pois bem: comecei a fazer algumas experiências com o google lá por 2004, 2005, por curiosidade, mesmo. não tinha notícia de ninguém fazendo poemas com o google. e bem, minha preocupação nunca é "fazer poemas", mas ver no que a coisa vai dar, sempre tentando me divertir bastante no caminho. a primeira experiência de que gostei deveras foi a partir de textos encontrados na internet sobre o episódio do tiro que o verlaine deu na mão do rimbaud depois de uma briga. coloquei as palavras "rimbaud shot verlaine" no google e li os resultados. eram vários textos contando a história de maneiras levemente diferentes, com algumas disparidades nas datas do ocorrido, por exemplo. recortei frases dos textos e fui montando um outro texto intuitivamente. ficou assim:

 LOVE (collage)

During a drunken argument in Brussels, Verlaine
shot atRimbaud, hitting him once in the wrist On 10
July 1875, in a drunken quarrel in Brussels,
Verlaine shot Rimbaud in the wrist, and was
imprisoned for two years at Mons. Together again in
Brussels in the summer of that year, Verlaine shot
Rimbaud in the wrist following a drunken argument.
Verlaine, drunk and desolate, shot Rimbaud in the
wristwith a 7mm pistol after a quarrel. At one
point, the tension between them became so great
thatVerlaine shot Rimbaud in the wrist. about 2
o'clock,when M. Paul Verlaine, in his mother's
bedroom, fired a shot of revolver. the subject of
various books, films, and curiosities, ended July
12, 1873 when a drunken Verlaine shot at Rimbaud and
injured him in the wrist. Verlaine shot Rimbaud in a
fit of drunken jealousy.

resolvi chamar o texto de "LOVE" porque me pareceu um caso de amor mesmo. :-)

depois continuei fazendo algumas tentativas com o google, mas nada que me empolgasse muito. e eu só costumo mostrar os poemas que me empolgam, de outra forma não vejo muita razão pra publicar.

corta pra 2011, quando estava escrevendo os poemas de "um útero é do tamanho de um punho". decidi procurar na web textos sobre o corpo da mulher, pra ver como eram escritos, como era a linguagem, que palavras eram usadas, se havia alguma estrutura ou pensamento recorrente. e como o google também é um termômetro da internet, resolvi procurar as frases "a mulher vai", "a mulher quer" e "a mulher pensa" pra tomar um pouco a temperatura. me surpreendi, encontrei muitas piadas, textos machistas, preconceituosos... fiz uma seleção das frases, recortei-as e colei para tentar buscar um sentido. acho que ficaram poemas absurdos e também engraçados. mas o engraçado aqui funciona pra jogar uma luz sobre o absurdo dessas frases, de um tipo de pensamento que ainda existe, enfim.

um abraço,
angelica


***
Marília Garcia

a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente



98 voltas pelo parque antes de cair em
círculos sobre o próprio peso
               98 vezes dizia o mesmo:
você pode ou não pensar em algo
definitivo. parecia a garota de belfast com
sua memória dobrada como um pára-quedas
dentro do tecido eletrizado.
                                      enquanto falava descia a
escada lateral recortando os ruídos
da orquestra. a roda da bicicleta
girando em loop esfarelando os
reflexos no ar e seis horas parada diante
do ralo, pode ou não pensar em algo, sentada na beira do
quarto. olha de longe quando o carro
passa, desce à noite pelos trilhos
quando tudo é uma vingança
[passagem é a ligação externa
entre dois prédios]
fala de pontes atravessando os túneis
da cidade e ordena a teus pés
alfabeticamente

          A anoitecer sobre a cidade
          A câmera em rasante
          A correspondência
          A curriola consolava
          A dor
          A espera
          A intimidade era teatro

e depois de algumas linhas

          A tomar chá, quase na borda
          A voz em off nas montanhas
          Abre a boca, deusa
          Abria a cortina
          Acho que é mentira

pode ou não pensar que era sua voz em mountain hill
a uma velocidade de 1 km/h ou mil. antes
de voltar para a irlanda já começara a perder. entende
que só depois de o blindex esfarinhado contra a
cabeça, só em poucos segundos até que a cabeça
contra o blindex, mas era apenas parte
do trajeto, não tinha como calcular as noites ou linhas
em que passaria.

                        "como extrair o áudio de uma imagem
congelada" era a etiqueta que colava nas paredes
para tentar descobrir como chegar com precisão
e ao fundo a voz pela fresta
a ordenar este livro:

          Agora nessa contramão
          Agora chega
          Agora é a sua vez
          Agora estamos em movimento
          Agora pouco sentimental
          Agora sou profissional
          Água
          Água na boca
          Agulhadas

ou vertigem das alturas. você pode acordar trinta anos
depois com a imagem ainda mais viva
quando o quarto está às cegas

          As cartas
          As cartas, quando chegavam
          As lupas desistem
          As mulheres e as crianças
          Asas batendo
          Atravessa a ponte
          Atravessando a grande ponte
          Atravessa vários túneis da cidade
          Autobiografia. Não, biografia
          Aviso que vou virando um avião
          Azul deixo as chaves do 1114 soltas no balcão
          Azul que não me espanta

*

conheci a poesia de ana c. lá no parque lage, em 1998, em um curso de
pintura. conheci a poesia de ana c. em um fim de tarde de
sexta-feira quando alguém citou o poema dos dois quartos vazios
como epígrafe para uma tela, preciso voltar e olhar de novo.
aqueles dois quartos vazios da pintura
são hoje para mim um eco do poema de ana c.
conheci a poesia de ana c. várias outras vezes
parece que a gente está sempre buscando conhecer de novo,
refazer o caminho até as coisas.
dez anos depois, fiz o poema “a garota de belfast
ordena a teus pés alfabeticamente” para participar da antologia
a nossos pés, publicada nos 25 anos de sua morte, pelas editoras dantes e da casa.
o poema partiu de uma experiência bem material:
peguei todos os versos de a teus pés e os coloquei em ordem alfabética.
foi uma maneira de conhecer ana c. outra vez, de deslocar o
contexto de onde tinham saído esses versos e poder perceber
outras relações a partir dos próprios versos. ou de
confirmar certas relações a partir da repetição. ou de se
surpreender ao ver, por exemplo, que “atravessar”
se repete muitas vezes ou então que “agora” é o marcador temporal
mais frequente ocupando o início dos versos. surpresa que se junta com a
curiosidade crescente ao pensar que é possível conhecer
os caminhos tomados pelo
pronome “eu” nos poemas de ana c.
ou pelo “você”.
a teus pés em ordem alfabética foi apenas uma brincadeira
para conhecer ana c. outra vez. a partir dele, cheguei
ao poema da antologia que ganha
agora, para esta homenagem, movimento, corpo, voz, quase uma carta
atravessando essas linhas invisíveis e os túneis da cidade.

[retirado de: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/12/homenagem-a-ana-c-por-marilia-garcia/]

***
Lucas Matos

Escrita Não Criativa

Cena 1.
É a cena final da peça – mas não há cena final. Molière – o ator que interpreta Molière – disse na primeira cena que não houve tempo de escrever. Talvez ninguém lembre, mas ele disse ao fim da primeira cena: “Quanto ao final? Já sei: vou à frente e peço desculpas ao rei”. O ator agora está no alto da escada. Ele não vem à frente, não estamos no século XVII, estamos em 2001. O ator olha para o público e diz: “Majestade, nada mais sublime que o nome de sua alteza, sereníssima, o rei Luiz XIV, e nada mais insignificante que a comédia que ora encenamos”. Olha para o público e diz: “Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?”. Olha para o público e diz: “As flores do mal foi um dos primeiros, mas não o primeiro. Creio que estive experimentando coisas durante todo o ano de 2006: ordenei poemas meus, grandes e curtos, e poemas de outros. Talvez As flores do mal tenha sido o primeiro que ordenei inteiro, como livro. Mas a cada vez que ordenava, eu ria e guardava porque nada acontecia, quer dizer, não se ordenava realmente nada porque o que aparecia não era uma ordem. Se bem que eu não estava pensando o tempo todo em ordenar textos, se vinha pensando nisso era algo que estava em segundo plano. E um dia apareceu a ideia de ordenar o Martin Fierro, e quando fui fazer, tive a impressão de que aconteceu algo. O que eu queria ver era se um sistema de organização conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. E a ordem alfabética me atraía porque tem algo puro e autônomo, né? Como que além das decisões do autor. A cabeça do autor estava no que se unia. De qualquer forma, creio que cada vez que trato de explicar ou de me explicar este livro, penso e digo coisas diferentes”. É Molière – o ator quem o interpreta – que olha para o público e diz: “Tudo que fiz na minha vida foi plagiar. Plagiei Plauto, Terêncio, os gregos. Plagiei a mim mesmo”.

Cena 2.
Hoje é dia 18 de dezembro de 2013 e estamos, como todos os anos, imersos em listas e mais listas que seguem enumerando os feitos e acontecimentos do ano. Acho que estou mais para este outro tipo de lista, ordem alfabética. Escolha um livro que você goste muito e ordene alfabeticamente.


Cena 3.
Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. (Obs: quando se coloca no Google “Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita”, alguém pode encontrar a frase: “A forma correta de escrita da palavra é mau-caráter”).

Cena 4.
Houve uma explosão de escritores – Houve uma explosão de escritores empregando estratégias de cópia e apropriação nos últimos anos – Houve uma explosão com o computador encorajando escritores a mimetizar seus processos. Nada mais sublime do que o nome de sua alteza, nada mais insignificante que a comédia que ora encenamos. Com o montante sem precedente de textos disponíveis, estamos, como todos os anos, imersos em listas e mais listas que seguem enumerando os feitos e acontecimentos do ano. Nosso problema não é produzir mais textos; ao invés disso, precisamos aprender a negociar a vasta quantidade existente. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. Como eu faço meu caminho através da densidade das informações – como administro, como analiso, organizo e distribuo – é o que distingue a minha escrita da sua. Nos últimos anos, dei um curso na Universidade da Pennsylvania chamado “Escrita não criativa”. Nele, os alunos são penalizados por mostrar qualquer traço de criatividade e originalidade. O que eu queria ver era se um sistema de organização de conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. Os alunos são penalizados por mostrar qualquer traço de criatividade e originalidade. Ao contrário, são congratulados por plágio, falsificação de identidade, reapresentação de artigos, pastiches, misturas, saques e roubos. O ato de selecionar e recontextualizar diz tanto sobre nós mesmos quanto a operação de câncer da nossa mãe.


Cena 5.
Marília Garcia faz filmes recortando trechos de outros filmes, editando. Muda a velocidade da cena, repete imagens, acrescenta versos sobrepostos. Lê a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente. Ordena a teus pés ou ordena a teus pés? Marília ordena um poema próprio alfabeticamente. Adriana Calcanhotto canta a resposta de Joaquim Pedro de Andrade em uma entrevista. Caetano Veloso canta trechos de email que escreve. Verônica Stigger recolhe frases ouvidas na rua. A Companhia Teatral Nosconosco monta a comédia As Artimanhas de Molière – ou Molière Em cena – um texto composto de cenas de peças diversas coladas juntas por Célia Bispo e Roberto Dória. Victor Heringer rouba vídeos de família do youtube para fazer o clipe de A mutante, canção de Jonas Sá, gravada por Mariano Marovatto em Praia. Tom Zé canta os comentários feitos no facebbok sobre a campanha que gravou para uma marca/empresa de refrigerantes estadunidense. Victor Heringer intercala com seus poemas trechos de textos diversos escritos em acordos ortográficos há muito em desuso. Trechos que falam sobre o diabo, por exemplo. Nos 3 poemas com o auxílio do google, não é Angélica Freitas quem fala da mulher. Flora Sussekind escreve um artigo para o jornal falando sobre vozes ou versos corais na poesia brasileira contemporânea. Pablo Katchdjian achou que O Aleph estava magro, tratou de engordá-lo. Penou processo por isso. Se O Martin Fierro ordenado alfabeticamente pode ser feito por um robô em um minuto, O Aleph engordado é feito por um artesão durante várias semanas. Todo um movimento de escrita, chamado Flarf, é baseado em reunir o resultado de pesquisas do Google: o quão mais ofensivo, mais ridículo, mais revoltante, melhor. Thiago Ponce, em sua dissertação de Mestrado, escreveu um capítulo, em que tudo que há são trechos da tradução de Donald Schüler para o Finnegans Wake, de James Joyce, reconfigurados, remontados e recolecionados para que funcionem como comentários de leitura de poemas de Paul Celan e Ricardo Reis. A coisa que os alunos de aulas tradicionais de língua mais falam quando não querem escrever a redação que estão sendo forçados a escrever: “hoje, eu estou sem criatividade”.


Cena 6.
A estratégia é recolocar textos que já existem em novos contextos para lhes dar novos significados. A colagem apresenta materiais integrados num conjunto, pela habilidade do artista, produzindo uma expressão singular inventada pelo artista. O plagiário pega uma fonte e a realoca, para chamar atenção para o seu novo contexto, de modo a recolher os sentidos dessa mudança. Mais, o plagiário explora e restaura a instabilidade da linguagem, conforme ela tropeça dentro desses novos contextos. Essas novas situações instigam incerteza, que, por sua vez, instigam experiências culturais e investigação. As escolhas de como alguém compõem com os textos encontrados, como alguém conceitua tais escolhas, determinam o sucesso da poesia. Para poetas, esta é uma nova prosódia, um novo modo de pensar como ler e escrever.

Cena 7.
“Quanto ao final? Já sei:

Vai ter brigadeiro de vagina
beijinho de pênis
e muita champanhe”.

Cena final.
É a cena final da peça – mas não há cena final. Molière – o ator que interpreta Molière – disse na primeira cena que não houve tempo de escrever. Talvez ninguém lembre, mas ele disse ao fim da primeira cena: “Quanto ao final? Já sei: vou à frente e peço desculpas”. O ator agora está no alto da escada. Ele não vem à frente, não estamos no século XVII, estamos em 2001. O ator olha para o público e diz: “Nada mais sublime que o nome, e nada mais insignificante que a comédia”. Olha para o público e diz: “Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?”. Olha para o público e diz: “O que eu queria ver era se um sistema de organização conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. E a ordem alfabética me atraía porque tem algo puro e autônomo, né? Como que além das decisões do autor. A cabeça do autor estava no que se unia. De qualquer forma, creio que cada vez que trato de explicar ou de me explicar este livro, penso e digo coisas diferentes”. É Molière – o ator quem o interpreta – que olha para o público e diz: “Tudo que fiz na minha vida foi plagiar. Plagiei. Plagiei a mim mesmo”.

Fontes:
http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/2013/07/antes-do-encontro.html
http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/2013/12/a-garota-de-belfast-ordena-teus-pes.html
http://www.marovatto.org/a-mutante/
https://sites.google.com/site/la3eraopinion/la-tercera-numero-4/entrevista-a-pablo-katchadjian
https://files.nyu.edu/rmf1/public/works/identity_theft_final.pdf
Freitas, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
Stigger, Verônica. Delírios de damasco. Florianópolis: Cultura e barbárie, 2012.
Motta, Marcus Alexandre; Moraes, Thiago Ponce de. Remos e Versões. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.

Obs: o texto de As artimanhas de Molière cito de memória.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Victória Guimarães, Angélica Freitas: Pensando a Voz no feminino. 2º Lançamento Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis”. Pelotas – RS. 19/12/2013.

Alô, Rio Grande do Sul!
Alô, Pelotas!

Lucas Matos & Thiago Gallego desembarcam hoje em Pelotas para:

Quinta-feira! Dia 19/12/2013!

O segundo lançamento da Revista-Disco de poesia Bliss Não Tem Bis.

Será na cidade de Pelotas – RS. O lançamento ocorrerá às 19h no casarão 6 – praça Cel. Osório, número 06. Para mais detalhes, ver aqui.

Contamos, na Revista-Disco com a colaboração de duas grandes artistas de Pelotas, Angélica Freitas (gravando a vocalização de sua série Uma mulher limpa) e Fabiana Faleiros (com uma nova versão de Polícia, artista, etc.).

Para quem ainda não sabe do que se trata a Revista-Disco e de seu percurso, indicamos as nossas postagens do dia 26/11, 03/12 e 10/12 (as três últimas semanas). O primeiro lançamento aconteceu no Rio de Janeiro no dia 29/11. Estamos programando lançamentos em 2014 em outras cidades, como Feira de Santana (BA), São Paulo (SP). Informaremos em breve.

A Revista-Disco pode ser encontrada à venda na Berinjela (Av. Rio Branco, 185, loja 10, Centro, Rio de Janeiro – RJ. (prédio em frente à estação de Metrô Carioca)), ou para encomenda entrar em contato pelo e-mail: blissnaotembis@gmail.com (sujeito à cobrança de frete).

Na postagem desta semana, decidimos trazer duas vozes femininas que constam na Revista-Disco: a estreante Victória Guimarães, de apenas 17 anos, e a nossa anfitriã em Pelotas, com dois livros de poemas e uma grapphic novel publicados, Angélica Freitas.

O contraste pode interessar: tudo em Victória parece se afigurar como tempestade, e seus versos, desde o primeiro poema, que retoma o tema de um enforcamento, quase como na balada de Villon, se entrechocam numa fricção difícil ao mesmo tempo que parecem surpreender a cada passo. O poema “Falt’ar” consta na Revista-Disco, trabalhado com Lucas Matos, a partir de respirações entrecortadas, gritos pela metade.

Trazemos aqui também as duas séries que Angélica Freitas leu no encontro “Bliss Não Tem Bis” naquele quase distante 18/06/2013. Logo antes de gravar sua série “Uma mulher limpa” para a Revista-Disco. Nota-se a procura por um verso que apresenta uma espécie de clareza, noturna, que não perde o aço da inquietude, o gume do problema.

Em ambas, o convite é sempre ao leitor dar acolhida a um conjunto de questões que aparecem como bichos vivos, agitando seu corpo por dentro da cabeça de quem lê, vida intempestiva afora.

Com muito orgulho, proporcionamos no dia 29/11, no lançamento da Revista-Disco, a oportunidade de Victória Guimarães se apresentar ao vivo pela primeira vez. E com muito orgulho levamos Angélica ao Rio em junho e agora vamos ao encontro dela. A pergunta sobre as vozes das poetas retorna e insiste e pensamos em como se coloca a diferença entre as vozes de mulheres poetas e de homens poetas no gesto de dizer o poema, e como a diferença entre a voz de uma jovem de 17 anos que começa seu percurso, e uma poeta de 41 anos, que se afirma de maneira cada vez mais consolidada como uma das figuras mais importantes da atualidade poética.

Como elas, por exemplo, mais vozes da voz.

Até Pelotas – RS!

***

Victória Guimarães

Falt’ar

Todo o mundo a seis pés dos meus pés e
Quero o meu colo, e-eu não Te
Vejo; e-eu não o desejo,
eu desacelero até
a ponta, até
a porta, e–
...

Mas é que
Ontem você disse
“amanhã”, um hoje per
doado desde que cá dentro
você se aloje, para que a gente–

Se o conforto viesse só
Contigo, Mas daí também
Vem ar
Dor
“Fecha os olhos e a-corda, nós se-
Remos os mais serenos amigos”.

Mas podes dour–
Ar os meus dias, essa é só
Mais uma ferida,
“Toma as rédeas e a-corda, nós se-
Remos os mais serenos amigos”, sob qual
Olhar rígido esse seu
Coração escoteiro viaja
Só e com pouco peso, traz e descar
Rega só ar
Dor

Perene gemido no
Final dês
S’en
gas
go

*

Nunca foi sobre nenhum de nós

Eu sou todas as fotografias que você tirou quando a câmera estava com a lente tampada.
Eu sou todos os capítulos que você não leu por já estar muito cansada.
Eu sou todos os dias longos que só serviram pra te fazer mais velha.

Eu estou no canto da sua sala,
Sonolenta e febril.
Vê como eu luto. Vê como eu perco.

Eu sou o diabinho rouco que te aquece os ouvidos.
Eu sou todos os teus suspiros contidos.
Eu sou os momentos nos quais você torceu os lábios sem perceber.

Eu estou no canto da sua cama,
Sonolenta e febril,
Numa preguiça urgente
Desprezando o vento que vem daí.

Eu sou todos os sonhos nos quais você largou tudo e foi embora.
Eu sou a sua vida derretendo lá fora.
Eu sou todos os calibres de tristeza que você já quis sentir.

Eu estou no canto da sua cozinha
Com pés tortos e andando em círculos,
Uma sentinela hostil da fúria calma.

Mas eu durmo enquanto eles falam,
Eu durmo enquanto ela chora,
Eu durmo enquanto todo mundo se azara,
E acordo assim que a ponta do lápis quebra.

*

Não havia ninguém em casa
Há tanto, tanto!
E me dilatava intocada em tamanho igual estado
Como um escorpião branco que não sabe torcer para dentro ainda.
Eu vi um homem de olhos límpidos morrer de fome no Kalahari,
Congelou com as mãos trançadas em forma de pistola
E desejei que pudesse atirar em quem menos merecesse.
Eu te digo olhos e sonhos
Da precisa magnitude de almôndegas bem pequenas.
Um coração fino e mínimo,
Um ataque cardíaco por minuto,
Porque ele sobrevoava todos como um míssil noturno
Muito inquieto
E infeliz.
Desculpe, mas está na constituição
Este estabelecimento está fechado para carícias aos domingos.
Aos domingos, a gente condensa, escreve e vê problemas.
Aos domingos, de repente, tudo é igualmente ligeiro
E rouco
E pouco
Como uma branda casa vazia.

*

Trial version of almost everything else

Eu falo da conduta,
Das bebedeiras fabulosas na Filadélfia,
Do teu olhar de passarinho cozido
Do planeta que a Rubi veio,
A cinquenta anos-luz daqui.

Lá, garotas não tem caixa torácica,
Os caras tem pintos maiores,
Existe xarope pra confissão engasgada
E dá pra fazer poema bom no smartphone
Como se faz pipoca de micro-ondas.

A Rubi faz de conta que viveu muitíssimo,
Que é caríssima
Ajoelha-se com as mãos à frente
Frente à montanha branca
E chora como animal desnutrido

Eu assisto, eu presto atenção, e
Me dá... náuseas, Neide.
Me dá... náuseas, Neide.

“Essa vai ser a última solidão da sua vida.
Essa vai ser a penúltima solidão da sua vida.”
Eu tenho sempre sentimentos mistos
Sobre vistos no seu passaporte
Para o meu país.

*

PEGUEI SEU CONTO E
Sol na cara para disfarçar a sensação
De criança humana e desumana desaguando letal
De frango atingido pela magreza vagabunda
De adolescente escuro esquecido na areia

Símbolos fálicos comem cachorros-quentes
Carregados de odisseias quentes
Pedem socorro,
Desenham a extinção dos salva-vidas descontextualizados
Enterram casais dilatados
Rumo à água fria
Dão mortal para trás frente às expectativas

Há certos rumores de que
Cada obra-prima de Kubrick é uma forma de mate a um real:
Verdadeira crítica neutra aos humanos tripulantes
De biquínis e maiôs engalfinhados
Como o próprio escritor descongelado do mundo,
Intensa ficção científica, café entornado,
Somos
Uma nave espacial que arrepiantemente revoltou-se

*

COISAS DOÍDAS DE DIA QUE DE REPENTE SÓ DE NOITE

Jurei que era tua a horda de dedos caminhando aqui
Tateando-me a espinha como um andarilho paraplégico
Eu desmaiei levemente
Por um filme inteiro do Almodóvar
Aquele carinho
Foi a moça robusta na pintura velha se apaixonando
Pelas nossas costas lisas de areia vulcânica
Praias de baleias zonzas saltando para nos ver
Nesse contato furioso de existências

*

Viki’s delivery service

Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.

Não se encuba assim, só
Porque eu esqueci o nosso poema
no meu sonho ontem à noite
e agora ele foge no mundo
imundo desistido e delinquente
Ninguém tem culpa
quando o poema já nasce marginal

Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.

Não se chateia
Porque tem um japonês cortando ele todo em haikus bem agora
Quando a gente sabe que você é um romance russo
Cinco páginas só sobre o seu jeito de roer unhas

Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.

Na França cantam ele de madrugada
Fica bem no som dos baixos acústicos
Os países baixos
Se inebriam na nossa baixaria
Árabes dizem que a tua barriga é a nova terra prometida

Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.

E até Atlântida,
Terra Média,
Shangri-La
Ohio
De repente todas as dimensões
Sabem daquela pinta estranha na tua virilha
E querem conhecer os teus olhos continentais.

Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.

Victória Guimarães se apresenta no lançamento da Revista-Disco "Bliss Não Tem Bis". 29/11/2013. Na Coart/UERJ. Foto por Alessandra Migueis.


***

Angélica Freitas

mijo
(um poema urgente)


1.

uma mulher não deve mijar
deve fazer xixi

2.

uma mulher faz xixi
não mija
mas em banheiros públicos
a mulher acaba que mija

3.

uma mulher faz xixi
porque é mais sexy
mas quando é incontinente
a questão se torna irrelevante

4.

conheço uma mulher
que mijava
mas dizia por aí
que fazia xixi

5.

mijei no balde
foi libertador
mijei no balde
dentro do elevador
mijei com vontade
sim senhor
hoje
sou outra mulher

6.

xixi, mijo, urina: como queira chamar
se tiver nojo e a água acabar
se quiser viver vai ter que tomar
mijo. se quiser pode dizer
xixi ou guaraná

mas continua sendo mijo

7.

nisso tudo eu pensava
a caminho do banheiro
após ter lido uma frase
do marcelo rubens paiva
será que ele mija, o marcelo?
com certeza deve mijar
mirando as estrelas, será?
fazendo desenhos no ar?

(quem se importa?
eu não me importo)

8.

outra questão a se especular
quando acontece dormindo
é xixi ou mijo?
dependerá do fluxo?
da quantidade?
qual o critério?
outra coisa que direi
como aviso ou comentário:
mija-se desperto ou dormindo
peidar só se pode acordado


março de 2011
provavelmente

*

a poetisa é legal
o que ela escreve não faz mal

a poetisa tem um blog
onde ela posta canções de rock

a poetisa lançou um livro
"o escaravelho do descalabro"

ela escreveu ajoelhada no milho
a poetisa é boa pra caralho

*

i

a poetisa gosta de pizza
acha a pizza democrática

a poetisa nunca foi à itália
mas tem souvenir da torre de pisa

é aquele preciso tijolo
cuja ausência a deixa inclinada

quem, a torre de pisa ou a poetisa?


ii


"cara, cês não entendem nada"
disse a poetisa irada

"o melhor leitor que existe
é o leitor de códigos de barras"

"vão ler uns códigos de barras!"

a poetisa lê pattismith e os beats
a poetisa fica puta da cara

*

uma poetisa by any other name?
é poetisa o que você quer

substantivo feminino
não se engane: é mulher

que é um s. f.
que rima com outro s. f.: colher

e forçando um pouco a barra
com um v.t.d.: colher

vai dizer que colher s.f.
podia ser outra coisa que s. f.?

e forçando um pouco a barra
quem ficava pra colher?

"boa tarde, o poeta está?"
"não, saiu pra caçar.

se não for comido por um tigre
em breve voltará."

uma poetisa by any other name?

*

a poetisa está numa boa
em casa ouvindo leonard cohen

ela pega o caderno e decide
escrever como se fosse o leonard cohen

para, fuma, pensa um pouco
mas em português eles não saem

os poemas do leonard cohen
"por que será?", ela indaga

"a dúvida é uma adaga que punciona
o olho cego do pássaro louco"

"mas isso aí funciona?
não será neobarroco?

socorro."

*

homenagem à poetisa*

poeta, não:
poetisa
que bonita a poetisa
é uma sacerdotisa

a ela, os sabonetes
os perfumes, as loções
a ela, todas as flores
todas as menções

que bonita a poetisa
ela sabe onde pisa

nenhuma banquisa
por mais fina que seja
se rompe sob seus pés


* a poetisa não gostou.

***

percalços da poetisa


a poetisa chega à alfândega e o funcionário da polícia federal logo desconfia. pede-lhe que abra as palavras. "isso pode demorar", pensa a poetisa. as palavras estão carregadas de significado até o máximo grau possível. o funcionário pergunta-lhe se ela sabe quanto significado pode trazer nas palavras. a poetisa diz que sim. o funcionário da polícia federal balança a cabeça e diz que infelizmente vai ter de registrar a infração.

*

um poema de "o escaravelho do descalabro",
gentilmente cedido pela poetisa

os poetas não me leem não quem me lê
são os passarinhos e as florzinhas nos campos
que me leem sim e os peixinhos no riacho
ai sim e os peixinhos no riacho que contam
para os caramujos que boa poetisa eu sou
ai sim e os caramujos que entram
na tubulação e anunciam minha glória
na cloaca municipal
ai sim quem me lê são os bichinhos
são os paramécios são os e.coli
e os seus semelhantes

*

a poetisa & sua relação com os leitores


perguntada sobre a relação com os leitores, a poetisa
disse: “volto pra casa sozinha, mais que o cesariny,
mas volto sempre pra casa, porque sei onde fica.
eu tenho uma casa, minha e não minha.
e nem de casa se trata. é apartamento. a chave extra
penduro no pescoço do meu gato mais arisco”.
perguntada sobre a revista que editou com amigos
e que afundou porque não flutuava, a poetisa
falou: “mas é a história mais velha do rock’n’roll.
junte três ou quatro deles. não precisa saber cantar.
jante com dois no máximo. não precisa contar
pros outros. funda-se e afunda-se no mesmo outono.
a próxima pergunta eu mesma faço: sabe nadar?
porque na outra pergunta eu desço”.

*

3 x 2 x 1

a poetisa gostava muito da história
do velho, do menino e do burro
ou seria mais certo dizer a história
do menino, do burro e do velho
ou ainda aquela antiga história
do burro, do velho e do menino
mas parecia que era realmente
do burro, do menino e do velho
poderia ser também, quem sabe
do menino, do velho e do burro
e para não ferir sensibilidades
do velho, do burro e do menino
gostava, não gosta mais
porque lembra dos rapapés
e com-licenças de seu país
“o leitor será carregado no alto
onde pensa que habita
e depois atirado na lama
para pensar como um poeta”

ou uma poetisa, no caso

*

três poetisas em forma de pera

daqui pra minha cama é um pulo
da minha cama pra tua é um pulo
da tua cama pra dela é um pulo
um pulo um pulo e meio um grande pulo

podiamos viver assim, a saltar
da rua pra cama e saber
tomar impulso e cair
sobre os dois pés e viver

pulando pulando pulando
ignorando avisos de apertar os cintos
indo ao centro de saúde

uma vez por mês

***