Ontem, 15/07/2013, completaram dez anos
desde a morte de Roberto Bolaño. Há cerca de cinco, por recomendações de
Carlito Azevedo, encontramos com Os
Detetives Selvagens, romance que o autor chileno teria escrito como uma
carta de amor a sua geração, com direito a experimentações com gêneros diversos
– escrita de diário, entrevista documental, romance policial – e personagens
principais elípticos, ou significativamente fugidios. Ali, se encontram a
Cidade do México, os poetas real-visceralistas, e suas soluções para editar uma
revista de poesia, ali o deserto corta a pele, como há de cortar.
A partir da
primeira parte do livro – o diário do jovem Juan García Madero – Marcio
Junqueira e a artista plástica Daniela Seixas fizeram uma história em quadrinhos
que imagina os primeiros passos, os diferentes percursos de vida e de escrita
de um poeta iniciante. Aqui, os quadrinhos silenciam, criam, ao contrário do
que se poderia esperar, outras lacunas dentro das lacunas que já existiam no
romance, num comentário metapoético, em que a própria escrita ou a pergunta por
poetas/poesia se converte em mistérios de detetives impossíveis. A HQ foi
publicada, pela primeira vez, na revista Bliss,
de 2009. Hoje, disponibilizamos um download de seu arquivo em pdf, além de
publicarmos aqui um trecho do texto de Bolaño, na tradução de Eduardo Brandão
publicada pela Companhia das Letras.
Fui cordialmente convidado a fazer parte do
realismo visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor
assim.
3 de novembro
Não sei muito bem em que consiste o realismo
visceral. Tenho dezessete anos, meu nome é Juan García Madero, estou no
primeiro semestre de Direito. Não queria estudar Direito, e sim Letras, mas meu
tio insistiu e acabei cedendo. Sou órfão. Serei advogado. Foi o que disse ao
meu tio e à minha tia, depois me tranquei no quarto e chorei a noite inteira.
Ou, pelo menos, boa parte dela. Depois, com aparente resignação, entrei na
gloriosa Faculdade de Direito, mas ao fim de um mês me inscrevi na oficina de
poesia de Julio César Álamo, na Faculdade de Filosofia e Letras, e dessa
maneira conheci os real-visceralistas, ou visce-realistas, e até mesmo
vice-realistas, como às vezes gostam de se chamar. Até então eu havia assistido
quatro vezes à oficina e nunca havia acontecido nada, o que é um modo de falar,
porque observando bem sempre aconteciam coisas: líamos poemas, e Álamo,
conforme seu humor, elogiava ou pulverizava os textos; alguém lia, Álamo
criticava, outro lia, Álamo criticava. Às vezes Álamo se chateava e pedia que
nós (que naquele momento não líamos) também criticássemos, então criticávamos,
e Álamo começava a ler jornal.
O método era perfeito para que ninguém
ficasse amigo de ninguém ou para que as amizades se cimentassem na doença e no
rancor.
Por outro lado, não posso dizer que Álamo
fosse um bom crítico, embora sempre falasse da crítica. Hoje creio que falava
por falar. Sabia o que era uma perífrase, não muito bem, mas sabia. Não sabia,
porém, o que era uma pentapodia (como todo mundo sabe, na métrica clássica esse
é um sistema de cinco pés), tampouco sabia o que era um nicárqueo (um verso
parecido com o falêucio), nem o que era um tetrástico (uma estrofe de quatro
versos). Como sei que ele não sabia? Porque cometi o erro, no primeiro dia da
oficina, de lhe perguntar. Não sei em que estaria pensando. O único poeta
mexicano que sabe de cor essas coisas é Octavio Paz (nosso grande inimigo), os
demais nem têm ideia, pelo menos foi o que me disse Ulises Lima minutos depois
de eu me integrar e ser amistosamente aceito nas fileiras do realismo visceral.
Fazer essas perguntas a Álamo foi, como não demorei a perceber, uma prova de
minha falta de tato. A princípio pensei que o sorriso que me dirigiu fosse de
admiração. Logo me dei conta de que não passava de desprezo. Os poetas
mexicanos (suponho que os poetas em geral) detestam que lhes recordem sua
ignorância. Mas não me atemorizei e, depois de ele destroçar um par de poemas
meus na segunda sessão de que participei, eu lhe perguntei se sabia o que era
um rispetto. Álamo pensou que eu lhe exigia respeito a meus poemas e desatou a
falar da crítica objetiva (para variar), que é um campo minado por onde deve
transitar todo jovem poeta, etcétera e tal, mas não o deixei prosseguir e, após
lhe esclarecer que nunca em minha curta vida eu havia pedido respeito a minhas
pobres criações, tornei a formular a pergunta, desta vez tentando pronunciar
com a maior clareza possível.
- Não me venha com merda, García Madero -
Álamo disse.
- Um rispetto, querido mestre, é um tipo de
poesia lírica, amorosa, para ser mais exato, semelhante ao strambotto, que tem
seis ou oito hendecassílabos, os quatro primeiros em forma de sirvente e os
seguintes construídos em parelhas. Por exemplo... - eu já me dispunha a lhe dar
um ou dois exemplos, quando Álamo se levantou de um pulo e deu por encerrada a
discussão. O que aconteceu em seguida está envolto em brumas (apesar de eu ter
boa memória): lembro da risada de Álamo e das risadas dos quatro ou cinco
colegas de oficina, possivelmente coroando uma piada às minhas custas.
Outro, em meu lugar, não teria posto
novamente os pés ali, mas, apesar de minhas infaustas recordações (ou da
ausência de recordações, no caso tão ou mais infausta que a retenção
mnemotécnica destas), na semana seguinte lá estava eu, pontual como sempre.
Creio que foi o destino que me fez voltar.
Era minha quinta sessão na oficina de Álamo (mas pode ter sido a oitava ou a
nona, ultimamente notei que o tempo se encolhe ou se estica a seu arbítrio), e
a tensão, a corrente alternada da tragédia se sentia no ar, sem que ninguém
conseguisse explicar a que isso se devia. Para começar, estávamos todos
presentes, os sete aprendizes de poeta inscritos inicialmente, coisa que não
havia acontecido nas sessões precedentes. Também: estávamos nervosos. O próprio
Álamo, normalmente tranquilo, mal se aguentava. Por um momento pensei que
talvez houvesse acontecido algo na universidade, uma fuzilaria no campus de que
eu não estivesse a par, uma greve surpresa, o assassinato do decano da
faculdade, o sequestro de um professor de Filosofia ou algo do gênero. Mas nada
disso havia acontecido, e a verdade era que ninguém tinha motivos para estar
nervoso. Pelo menos objetivamente, ninguém tinha motivos. Mas a poesia (a
verdadeira poesia) é assim: ela se deixa pressentir, se anuncia no ar, como os terremotos
que, segundo dizem, alguns animais especialmente aptos a tal propósito
pressentem. (Esses animais são as cobras, as minhocas, os ratos e certos
pássaros.) O que aconteceu em seguida foi tumultuado mas dotado de algo que,
mesmo correndo o risco de ser cafona, eu me atreveria a chamar de maravilhoso.
Chegaram dois poetas real-visceralistas, e, a contragosto, Álamo os apresentou
a nós, embora só conhecesse pessoalmente um deles; o outro conhecia de ouvir
falar, ou seu nome não lhe era estranho, ou alguém lhe havia falado dele, mas
mesmo assim o apresentou.
Não sei o que eles teriam ido fazer lá. A
visita parecia claramente de natureza beligerante, embora não isenta de um
matiz propagandístico e proselitista. A princípio, os real-visceralistas se
mantiveram calados ou discretos. Álamo, por sua vez, adotou uma postura
diplomática, levemente irônica, de esperar os acontecimentos, mas, pouco a
pouco, ante a timidez dos estranhos, foi se encorajando, e ao cabo de meia hora
a oficina já era a mesma de sempre. Então começou a batalha. Os
real-visceralistas puseram em dúvida o sistema crítico que Álamo adotava; este,
por sua vez, chamou os real-visceralistas de surrealistas de araque e de falsos
marxistas, sendo apoiado no embate por cinco membros da oficina, ou seja, por
todos menos por um cara muito magro, que andava sempre com um livro de Lewis
Carroll debaixo do braço e que quase nunca falava, e por mim, atitude que com
toda franqueza me deixou surpreso, pois os que apoiavam Álamo com tanto ardor
eram os mesmos que recebiam com atitude estoica suas críticas implacáveis e que
agora se revelavam (o que me pareceu surpreendente) seus mais fiéis defensores.
Nesse momento decidi pôr meu grão de areia e acusei Álamo de não ter ideia do
que era um rispetto; intrepidamente, os real-visceralistas reconheceram que
eles também não sabiam o que era isso, mas minha observação lhes pareceu
pertinente e assim afirmaram; um deles me perguntou que idade eu tinha, eu
disse que tinha dezessete anos e tentei explicar mais uma vez o que era um
rispetto. Álamo estava rubro de raiva; os membros da oficina me acusaram de
pedante (um disse que isso não passava de academicismo meu); os
real-visceralistas me defenderam; já embalado, perguntei a Álamo e à oficina em
geral se pelo menos lembravam o que era um nicárqueo ou um tetrástico. E
ninguém soube me responder.
A discussão não acabou, contrariamente ao
que eu esperava, num quebra-pau generalizado. Sou obrigado a reconhecer que eu
teria adorado. E, embora um dos membros da oficina tenha prometido a Ulises
Lima que um dia iria quebrar a cara dele, no final não aconteceu nada, quer
dizer, nada violento, ainda que eu tenha reagido à ameaça (que, repito, não foi
dirigida a mim) garantindo ao ameaçador que eu me punha à sua inteira disposição
em qualquer canto do campus, no dia e na hora que ele quisesse.
O fim do sarau foi surpreendente. Álamo
desafiou Ulises Lima a ler um de seus poemas. Este não se fez de rogado e tirou
do bolso do blusão uns papéis sujos e amarfanhados. Cacete, pensei, esse panaca
se meteu sozinho na boca do lobo. Creio que fechei os olhos de pura vergonha
por ele. Há momentos para recitar poesias e há momentos para boxear. Para mim,
aquele era um destes últimos. Fechei os olhos, como já disse, e ouvi Lima
pigarrear. Ouvi o silêncio (se isso é possível, embora eu duvide) um tanto
incômodo que foi se fazendo à sua volta. E finalmente escutei sua voz, que lia
o melhor poema que eu jamais havia ouvido. Depois Arturo Belano se levantou e
disse que estavam procurando poetas que quisessem participar da revista que os
real-visceralistas pretendiam publicar. Todos gostariam de se inscrever, mas
depois da discussão se sentiam meio sem jeito e ninguém abriu o bico. Quando a
oficina terminou (mais tarde que de costume), fui com eles até o ponto de
ônibus. Era muito tarde. Como não passava nenhum ônibus, decidimos tomar juntos
um táxi-lotação até a praça Reforma e de lá fomos andando até um bar da rua
Bucareli, onde ficamos até tarde falando de poesia.
Não tirei muita coisa a limpo. O nome do
grupo de certo modo é uma piada e de certo modo é algo totalmente sério. Pelo
que entendi, muitos anos atrás houve um grupo vanguardista mexicano chamado de
real-visceralistas, mas não sei se eram escritores, pintores, jornalistas ou
revolucionários. Foram ativos, também não sei bem, na década de 20 ou 30.
Evidentemente eu nunca tinha ouvido falar desse grupo, mas isso deve ser
imputado à minha ignorância em assuntos literários (todos os livros do mundo
estão esperando quem os leia). Segundo Arturo Belano, os real-visceralistas se
perderam no deserto de Sonora. Depois mencionaram uma tal de Cesárea Tinajero
ou Tinaja, não me lembro, acho que a esta altura eu discutia aos berros com um
garçom por causa de umas garrafas de cerveja, e falaram das Poesias do conde de
Lautréamont, algo nas Poesias relacionado à tal Tinajero, depois Lima fez uma
asseveração misteriosa. Segundo ele, os atuais real-visceralistas andavam para
trás. Como para trás?, perguntei.
- Andam de costas, olhando para um ponto
mas se afastando dele, em linha reta, rumo ao desconhecido.
Eu disse que me parecia perfeito andar
dessa maneira, mas na realidade não tinha entendido nada. Pensando bem, é a
pior forma de andar.
Mais tarde chegaram outros poetas, alguns
real-visceralistas, outros não, e a barafunda se tornou impossível. Por um
momento pensei que Belano e Lima tinham se esquecido de mim, ocupados que
estavam em conversar com quantas personagens estapafúrdias se aproximassem da
nossa mesa, mas, quando começava a amanhecer, eles me perguntaram se eu queria
pertencer ao bando. Não disseram "grupo" ou "movimento",
disseram bando, e isso me agradou. É claro que respondi que sim. Foi muito
simples. Um deles, Belano, apertou minha mão, disse que eu já era um dos deles,
depois cantamos uma rancheira. Isso foi tudo. A letra da canção falava dos
povos perdidos do norte e dos olhos de uma mulher. Antes de começar a vomitar
na rua, perguntei se os olhos eram os de Cesárea Tinajero. Belano e Lima
olharam para mim e disseram que sem dúvida nenhuma eu já era um
real-visceralista e que juntos iríamos mudar a poesia latino-americana. Às seis
da manhã peguei outro táxi-lotação, desta vez sozinho, que me trouxe até
Lindavista, bairro onde moro. Hoje não fui à universidade. Passei o dia inteiro
trancado no quarto escrevendo poemas.
Laurie Anderson é uma artista nascida nos
EUA, que, desde os anos 70, tem trabalhado com performances e formas de arte
diversas, que incluem a criação de instrumentos (em especial, diferentes
espécies de violinos), instalações, objetos esculturais interativos, além de
discos de canções e de palavra falada.
Mais comumente, ela se define como uma “contadora de histórias” – apresentando
a partir da utilização de vídeos e de formas tecnológicas variadas um modo de
contar história que sempre reflete sobre o que acontece – em termos físicos,
também talvez, mas fundamentalmente do ponto de vista antropológico – quando
estamos contando algo, ou ainda, que gesto é esse, que usamos cotidianamente
para falar quem somos, e para agir, intervir no mundo. Roselee Goldberg, no seu
Arte da performance: do futuro ao
presente, destaca o trabalho da artista, em dois momentos – num primeiro,
no início dos anos 70, pela relação estabelecida entre performance e
autobiografia (como, por exemplo, na peça em que ela tocava violino sobre
patins grudados em blocos de gelo e que se relacionavam com uma história acerca
do dia em que sua avó morrera), e depois, nos anos 80, por ter se tornado, a
partir da gravação do disco Big Science (título
aqui traduzido como Grande Ciência), uma artista multimídia reconhecida mundialmente. O disco se transformou
depois na segunda parte (antecedendo em criação a primeira parte, entretanto) de
uma performance multimídia que durava oito horas e que era intitulada Estados Unidos I-IV (Transporte, Política, Dinheiro,
Amor). Em 2007, quando do lançamento de uma versão remasterizada do disco,
ela escreveu:
“a produtora Roma Baran me convenceu a
gravar a canção O Superman (aqui
traduzida por Ó Super-Homem) com o
argumento de que obras de arte eram elitistas e caras. Discos eram baratos!
Todo mundo poderia ter a mesma obra por quase nada. Ela tinha sacado qual era a
minha. (...) Nós fizemos 1.000 cópias de um single de Ó Super-Homem, com Walk the
Dog (aqui traduzida por Passear com o
cão) no lado B, com uma gravadora pequena, One Ten Records, comandada pelo
meu amigo Bob George. A ideia era vender cópias por encomendas pelo correio.
“As vendas seguiram bem lentamente até um
dia, quando eu recebi uma ligação de Londres. Eles queriam 40.000 cópias até
aquela sexta-feira, e outras 40.000 na semana seguinte. O DJ John Peel estava
tocando o disco e ele escalava as listas dos mais vendidos britânicas. Foi
quando eu liguei para a Warner Bros. e perguntei se eles podiam ‘me ajudar a
fazer cópias’. Eles disseram que não faziam esse tipo de coisa, mas que
gostariam de negociar um contrato de oito discos reservando todos os direitos
‘perpetuamente pelo universo afora’, era o que constava no acordo deles. Trincando os
dentes e incerta se aquilo seria um grande erro ou não, eu topei.
“Entre o lançamento do single e o do LP, eu
tinha me tornado uma pop star na
Europa, especialmente no Reino Unido. Do nada saíram os estilistas, as
limusines, os jornalistas ansiosos sem fôlego. Sabendo que tudo isso
provavelmente iria desaparecer tão rapidamente quanto tinha chegado, eu tentei
manter meu papel como uma antropóloga
cultural. Eu nunca vou ter certeza mesmo se consegui fazer isso de modo
bem-sucedido ou não”.
Apesar de ter colaborado com artistas
brasileiros, em especial na gravação da faixa Enquanto isso (parceria entre Marisa Monte e Nando Reis) no disco Cor de rosa e carvão de Marisa Monte, e
de ter feito performances no Brasil, a mais recente quando de sua exposição I IN YOU no Centro Cultural Banco do
Brasil em 2011, ainda não contamos com uma tradução cuidada da sua obra em
língua portuguesa e que contemple a diversidade e a multiplicidade dos seus
textos.
Apresentamos aqui uma primeira tradução –
assinada por Lucas Matos – minimamente comentada das peças que se encontram no
álbum Grande Ciência, acrescidas de Passear com o cão, o lado B do single Ó Super-Homem. Além disso, incluímos uma
tradução de uma entrevista da artista dada nos anos 2000 para a rádio Silicon Valley. Ao
longo da semana, postaremos mais entrevistas e outras traduções de seus textos.
Para nós, o mais divertido é ouvir como
podem soar diferentemente as histórias de Laurie nas nossas vozes, e a nossa língua
nas histórias que ela conta e em seu jeito tão peculiar de pensá-las.
***
Pelos
ares
Boa noite. Aqui fala o seu Capitão.
Nós estamos prestes a tentar um pouso
forçado.
Por favor, apaguem seus cigarros.
Coloquem as mesas na
Posição vertical, trancadas.
O seu Capitão diz: Bota a cabeça nos
joelhos.
O seu Capitão diz: Bota a cabeça nas mãos.
O Capitão diz: Bota as mãos na cabeça.
Bota as mãos nos quadris. Ha, ha.
Aqui fala seu Capitão – e nós vamos cair de
cabeça.
Nós vamos cair de boca, juntos.
E eu disse: oh-oh. Vai ser um dia e tanto.
Atenção. Aqui está o tempo.
E aqui está o registro do tempo.
Aqui está o tempo. E aqui está o registro
do tempo.
Hã. Aqui fala o seu Capitão de novo.
Quer saber, eu tenho a sensação engraçada
de que já vi isso tudo antes.
Por quê? É que eu sou um homem-primata.
Por quê? É que eu tenho olhos nas costas.
Por quê? É o calor. Atenção.
Aqui está o tempo. E aqui está o registro
do tempo.
Aqui está o tempo. E aqui está o registro
do tempo.
Bota as mãos sobre os olhos. Pula do avião.
Não há piloto. Você não está sozinho.
Atenção.
Aqui está o tempo. E aqui está o registro
do tempo.
Aqui está o tempo. E aqui está o registro
do tempo.
(Notas:
1- O título From the air talvez seja apenas insuficientemente traduzido como Pelos ares, mas a escolha se faz
necessária por uma vontade de enfatizar, a partir de um imaginário preenchido
pelo universo da canção brasileira, certos temas possíveis de diálogo –
processo semelhante se deu na escolha do verbo ‘Botar’ ao invés de ‘Pôr’, bem
como de ‘homem-primata’ no lugar de ‘homem das cavernas’.
2- Cheguei a
idealizar uma tradução ao vivo, em que a faixa tocasse e eu dissesse os versos
em português numa espécie de duplo da tradução simultânea, mas com um final
traidor, em que a repetição seria substituída por uma citação de versos de um
poema de Angélica Freitas: “Não há piloto. Você não está sozinho. Atenção./
Senhoras intactas, afrouxem os cintos./ Que o chão é lindo. & já vem
vindo./ One./ Two./ Three”. A performance-tradução, entretanto, ainda permanece
inédita).
*
Grande
Ciência (Big Science)
Cu-co! é a cuca lá fora.
Cu-co! é a cuca lá fora.
Uuuh, cu-co!
não esqueça as luvas.
Ei, amigo! Como eu chego no centro daqui?
E ele disse: bem, é só entrar à direita ali
onde vão construir o novo shopping,
vai toda vida por onde vão pôr a via
expressa,
e segue direto até chegar ao lugar onde
estão pensando em construir o banco express.
Não tem erro. E eu disse: este deve ser o
lugar.
Cu-co! Cu-co! Cidades de ouro. Capitais de
ouro.
Cidades de ouro. Capitais de ouro.
E carros longos em filas longas e grandes
anúncios
e todos eles dizem: Aleluia. Iorelei-hi-hu.
Cada um por si. Uuuh cu-co.
Cidades de ouro. Capitais de ouro. Obrigado
pelo passeio.
Grande Ciência. Aleluia. Grande Ciência.
Iorelei-hi-hu.
Sabe, eu acho que devíamos pôr umas
montanhas aqui.
Senão as personagens vão cair de onde?
E que tal escadas? Iorelei-hi-hu. Uuuh cu-co.
Aqui está um homem que leva uma vida com
perigo.
E onde quer que ele vá, ele continua – o
esquisito.
‘Tarde, esquisito. Liga se eu fumar? E ele
disse:
Cada um, cada um por si.
Cada um, cada um por si.
Todos de acordo digam sim.
Grande Ciência. Aleluia. Grande Ciência.
Iorelei-hi-hu.
Ei, professor! Você pode apagar as luzes?
Vamos rodar o filme.
Grande Ciência. Aleluia.
Cada um, cada um por si.
Grande Ciência. Aleluia. Iorelei-hi-hu.
(Notas:
1- Até onde pude apurar, numa
primeira sondagem ainda superficial, não encontrei tradução para ‘Big Science’
em português. O termo, utilizado por cientistas e historiadores da ciência,
designa as transformações ocorridas no campo da pesquisa científica em nações
com projetos de grande desenvolvimento científico-tecnológico a partir do final
da 2ª Guerra Mundial. De um modo geral, avolumam-se projetos de larga escala
(em especial, nas áreas das denominadas hard
sciences – fundamentalmente, áreas da Física e da Astronomia, mas também
Genética, e certos ramos da Ecologia, e da Medicina, ou da Biomedicina) com
demanda de grandes quantidades de dinheiro, providas por governos nacionais ou
grupos de governos. A descrição do que seja ‘Big Science’ (que encontra as
seguintes traduções possíveis em espanhol ‘Megaciencia’, ‘Turbociencia’,
‘Ciencia a gran escala’, ‘Ciencia mayor’, ou simplesmente, ‘Ciencia grande’)
inclui comumente a apresentação de uma ou mais das seguintes características:
grandes orçamentos; equipes numerosas; grandes máquinas; grandes corporações de
laboratórios. A cunhagem do termo é atribuída a Alvin Weinberg, físico nuclear
norte-americano, que administrou o Laboratório
Nacional de Oak Ridge, e que lançou uma série de livros acerca da Era Nuclear
e das novas formas de se fazer ciência. Não consegui encontrar menção a nenhuma
tradução de seus livros para o português numa apuração inicial. Indico a
leitura do artigo As relações entre
ciência, Estado e sociedade: um domínio de visibilidade para as questões da
informação, de autoria de Maria Nélida González de Gómez, disponível em http://www.scielo.br/pdf/ci/v32n1/15974.pdf,
para um primeiro panorama sobre o tema. Talvez a opção por ‘Ciência Grande’
fosse preferida por cientistas que procurassem uma maior 'objetividade', todavia,
me pareceu que cabia mais claramente nas alternâncias de ‘Big Science’ para
‘Hallelujah’ e depois para ‘Yodellayheehoo’ a colocação do adjetivo na frente,
dando uma espécie de nobreza, ou sacralização maior para a Grande Ciência.
2- O primeiro verso
‘Coo coo it’s cold outside’ obriga o tradutor a uma opção. Da onomatopeia de
uma ave, Laurie tira a frase que literalmente diz “Faz frio lá fora”. O
tradutor, nesse caso, ou mantém o significado, ou busca reproduzir a relação
sonora entre os termos, uma vez que muito dificilmente se conseguiria
reproduzir tal jogo em português, já que a palavra ‘frio’ não lembra nenhuma
onomatopeia de pássaro que nos seja comum. Cheguei a cogitar as opções
‘piu-piu’, ou mesmo ‘fiu-fiu’ (mas aqui já não ouviríamos um pássaro
assobiando), e nenhuma parecia ter um aproveitamento sonoro satisfatório. A
opção feita foi por tirar o frio, e tentar fazer um novo jogo, aproximado
sonoramente do original. A palavra cuca
em português brasileiro tem pelo menos dois significados: (a) trata-se de
personagem lendário que assombra o universo infantil; (b) é outro nome para
mente, cabeça, de uso significativamente coloquial. Se o cenário abre margem
para uma ambiguidade de sentido, ficando menos claro – e deixando a
interpretação do verso ‘não esqueça as luvas’ mais complexa – mantém-se a
relação entre onomatopeia e nome do que pode estar lá fora, e se reintroduz a questão
do tempo e da temporalidade que parece marcar toda a composição e o próprio
disco de um modo geral).
*
Casacos
Eu não amo mais sua boca.
Eu não mais seus olhos.
Eu não amo mais seus olhos.
Eu não amo mais a cor dos seus casacos.
Eu não amo mais nada.
Eu não amo mais a cor dos seus casacos.
Eu não amo mais seu jeito de segurar lápis
e canetas.
Eu não amo mais nada.
Sua boca. Seus olhos.
Seu jeito de segurar lápis e canetas.
Eu não amo mais nada. Eu não amo mais nada.
*
Caminhando
caindo
Eu quis você. E eu procurava por você.
Mas eu não pude encontrar.
Eu quis você. E eu procurava por você o dia
todo.
Mas eu não pude encontrar. Eu não pude
encontrar.
Você está caminhando. E você nem sempre
percebe,
mas você sempre cai.
A cada passo, você cai um pouco adiante.
Então se segura pra não cair.
De novo e de novo, você cai.
Então se segura pra não cair.
Assim você está caminhando e caindo
ao mesmo tempo.
*
Nascer,
nunca pedir
Era uma sala ampla. Cheia de gente. Todos
os tipos.
E eles tinha todos chegado ao mesmo prédio
Mais ou menos ao mesmo tempo.
E todos eles eram livres. E eles estavam
todos
Se perguntando a mesma questão:
O que está atrás da cortina?
Você nasceu. Então, você é livre. Então,
feliz aniversário.
*
Ó
Super-Homem (a Massenet)
Ó Super-Homem. Ó Juiz. Ó Mãe e Pai. Pai e
Mãe.
Ó Super-Homem. Ó Juiz. Ó Mãe e Pai. Pai e
Mãe.
Oi. Eu não estou em casa agora. Mas se
quiser deixar um
Recado, por favor falar após soar o sinal.
Alô? É a sua mãe. Você está aí? Você está a
caminho de casa?
Alô? Tem alguém em casa? Então, você não me
conhece, mas eu conheço você.
E eu tenho um recado para você.
Lá vêm os aviões.
Então, é melhor estar pronto. Pronto para
partir. Você pode vir
como está, mas pague quando for. Pague como
for.
E eu disse: Ok. Quem é você mesmo? E a voz
disse:
Quem fala é a mão, a mão que toma. Quem
fala é a
mão, a mão que toma.
Quem fala é a mão, a mão que toma.
Lá vêm os aviões.
São aviões americanos. Feitos na América.
Fumantes ou não-fumantes?
E a voz disse: nem neve ou chuva ou a
escuridão
da noite irão deter os correios ao
arrebentar
dúzias de cavalos para com toda urgência
chegar a seu destino assinalado.
E quando não houver mais amor, haverá
sempre justiça.
E quando não houver mais justiça, haverá
sempre força.
E quando não houver mais força, haverá
sempre Mãe. Oi, Mãe!
Então, me abraça, Mãe, com seus longos
braços. Então, me abraça,
Mãe, com seus longos braços.
Com seus braços automáticos. Seus braços
eletrônicos. Com seus braços.
Então, me abraça, Mãe, com seus longos
braços.
Seus braços petroquímicos. Seus braços
militares.
Com seus braços eletrônicos.
(Notas:1- Quando relançou o disco Grande Ciência em 2007 (ele foi lançado
pela primeira vez em 1982), Laurie Anderson escreveu sobre essa canção visual que a tornou conhecida
mundialmente: “A canção Ó Super-Homem
foi inspirada em um concerto impressionante que eu ouvi do tenor negro
americano Charles Holland. Ele cantou O
Souverain (algo como Ó Soberano,
em francês), uma ária da ópera El Cid
de Jules Massenet. Tinha qualquer coisa nessa música que quase parou meu
coração. As pausas, a melodia. ‘O souverain, ô juge, ô père’ (‘Ó
soberano, ó juiz, ó pai’, que Laurie Anderson traduziu em inglês assim: ‘O
Lord, o judge, o father’, que, por sua vez, é algo como ‘Ó Senhor, ó juiz, ó pai’).
O Souverain foi
escrito como uma prece de um cavaleiro na véspera de uma batalha perdida. Os
seus temas icônicos me fizeram pensar em Napoleão em Waterloo olhando o campo
de batalha devastado coberto de corpos de homens e cavalos. O Souverain era uma prece sobre império,
ambição e perda.
Ó Super-Homem também foi inspirada em um evento de abril
de 1979. Durante uma missão secreta para resgatar reféns em Teerã, os
helicópteros americanos colidiram durante uma tempestade de areia e explodiram.
O fracasso da missão foi um golpe para a reputação dos Estados Unidos de
superpotência tecnológica e teve um papel importante na queda da administração
Carter e no surgimento do Reaganismo. Quase trinta anos depois, nós estamos
lutando a mesma guerra de violência militar e econômica.
Em Setembro de
2001, eu estava em uma turnê e toquei Ó Super-Homem no Town Hall em Nova
York. O show foi uma semana depois do Onze de Setembro e, enquanto eu cantava
‘Lá vêm os aviões/ São aviões americanos’, eu de repente percebi que estava
cantando sobre o presente. Nós estamos relançando Grande Ciência em 18 de junho de 2007, aniversário da batalha de
Waterloo”.
2- "Neither
snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift
completion of their appointed rounds" é uma citação do lema dos correios
americanos, que por sua vez, é uma citação de Heródoto (VIII, XCVIII), quando
ele narra o funcionamento do sistema de mensagens dos persas, num momento em
que é necessário avisar as derrotas que eles sofreram no mar. Até onde eu
consegui apurar, não há nenhum lema em português dos correios, nem no Brasil
nem em Portugal. A história dos Correios em língua portuguesa não deixa de ser,
todavia, curiosa e de sinalizar uma série de questões talvez relevante para um
contexto brasileiro. A Colônia estatizou antes da Metrópole o sistema de trocas
epistolares, entre outras coisas porque queria um controle mais rígido sobre o
destino das notícias que saíam de Minas, quando das primeiras descobertas de
seus materiais preciosos. Além disso, segundo o site dos Correios brasileiros:
"As palavras proferidas pelo Conselheiro José Bonifácio de Andrada e
Silva, ao recomendar pressa na entrega das correspondências, ainda hoje
sintetizam a mística do trabalho responsável do carteiro: ‘Arrebente e estafe
quantos cavalos necessários, mas entregue a carta com toda a urgência’ -
segundo uma versão. ‘Se não arrebentar uma dúzia de cavalos, no caminho, nunca
mais será correio; veja o que faz!’ - segundo outra". A frase de José
Bonifácio pareceu saborosa demais, e singular no sentido de flagrar uma atitude
comum à forma dos homens de poder lidarem com a vida no exercício de suas
necessidades políticas por aqui. De modo que considerei importante tentar
combiná-la com trechos da tradução do Heródoto. Se aqui não soam tão claros os
temas da destruição do Império e de batalha perdida, certamente outros temas
surgem que denunciam na nossa língua um modo de experiência com o mundo comum a
nossas práticas culturais e sociais).
*
Exemplo
#22
Beispiele paranormaler Tonbandstimmen.
Was sind paranormale Tonbandstimmen?
Es sind Stimmen unbekannte herkunft.
Es sind paranormaler Tonbandstimmen–
(Exemplos de vozes paranormais na fita.
O que são vozes paranormais na fita?
São vozes de origem desconhecida.
São vozes paranormais na fita).
Ihren Klang. Ich verstehe die Sprachen.
Ich verstehe die Sprachen nicht. Ich höre nur
Irhen Klang.
(Seu som. Eu entendo línguas.
Eu não entendo línguas.
Eu ouço só o seu som).
O sol está surgindo bem lento,
Os pássaros voam perto.
Você é o meu amor agora e sempre,
Então, pague o que me deve.
As luzes se vão lentamente,
Nas florestas os animais se movem.
Nos meus sonhos você fala comigo.
Sua voz se move dentro de mim.
Você fala como se me conhecesse.
Então pague o que me deve.
Beispiel Nummer zweiundzwanzig.
(Exemplo #22).
O
sol está surgindo bem lento,
Os pássaros voam perto.
Você é o meu amor agora e sempre,
Então, pague o que me deve.
*
Deixe x=x
Eu vi um cara – e ele parecia alguém que
podia
ser um guardador de Achados e Perdidos de uma pista de gelo.
O que, na verdade, acabou que era. E eu
disse:
Gente. Acerto de novo.
deixe x=x. Sabe, podia ser com você.
É um azul céu azul. Os satélites saíram hoje à noite.
deixe x=x.
Sabe, eu poderia escrever um livro. E o
livro seria
grosso o bastante pra acabar com um boi.
Porque eu posso ver o
futuro, e é um lugar – cerca de 110
quilômetros a Leste
daqui. Onde é mais leve. Fica um pouco mais
aqui.
Tem tempo? deixe x=x.
Recebi um postal. E ele estava escrito, ele
dizia:
Caro Compañero – Caro parceiro.
Ouça, hã. Eu só quero dizer obrigado.
Então... obrigado.
Obrigado por todos os presentes. Obrigado
por me apresentar ao Chefe.
Obrigado por comer como um boi. Obrigado
por tudo que puder.
Obrigado por me mostrar seu canivete suíço.
E hã.
Obrigado por me deixar assinar seu gesso.
Abraços e beijos. B-B-BJJJUSX-X-X-X.
Ah, sim. P.S.
Eu – me sinto – como se – estivesse – num
prédio em chamas – e tenho que ir.
‘É que eu – me sinto – como se estivesse –
num prédio em chamas – e tenho que ir.
(Notas: 1- O original, na última estrofe, ao apresentar o suposto texto do postal, usa a palavra "Amigo", semelhante em espanhol e em português. E depois apresenta um possível equivalente em inglês, "Partner". Preferi manter a estranheza do texto do postal começar com uma língua estrangeira, de modo a trocar "Amigo" por "Parceiro", obtendo no equivalente algo passível de ser aceito como a tradução do "Partner".
2- Na gravação do disco, esta faixa e a seguinte estão emendadas uma na outra,
como em um medley musical. Tanto que
o título de ambas vinham, em 1982, juntos, “Let X=X/It tango”. De modo que
houve quem cogitasse a possibilidade de ler “Let X=Exit tango” (Algo como
‘Deixe X=Saída tango’). A versão, em CD, de 2007, não apresenta o título desse modo, entretanto. De qualquer modo, 'Xtão' é uma grafia possível encontrada na internet para a forma verbal 'estão').
*
Tão
Tango
Ela disse: parece. Você não acha que parece
chuva?
Ele disse: não é. Não é mesmo. Não é igual
a uma mulher?
Ela disse: é duro. É mesmo duro, é algo
duro de dizer.
Ele disse: não é. Não é mesmo. Não é mesmo
igual a uma mulher?
Ela disse: é preciso. É preciso uma. É preciso
uma para. É preciso uma para reconhecer
outra.
Ele disse: não é mesmo igual a uma mulher?
Ela disse. Ela disse isso. Ela disso para
nem. Ela disse isso para ninguém.
Não é. Não é mesmo. Não é mesmo igual a uma
mulher?
Seus olhos. Um dia inteiro de trabalho para
olhar neles.
Seus olhos. Um dia inteiro de trabalho só
para ficar olhando neles.
*
Passear
com o cão
Eu vi muitas árvores hoje. E todas eram
feitas de madeira.
Bem, eram árvores amadeiradas – e eram
feitas inteiramente de madeira.
Bem, eu cheguei em casa hoje, e todos vocês
estavam pegando fogo. Sua camisa pegando fogo.
E o seu cabelo pegando fogo. E as chamas
lambiam tudo ao redor dos seus pés.
E eu não sabia o que fazer. Então mil
violinos começaram a tocar.
E eu não sabia mesmo o que fazer agora, daí
eu decidi sair.
E passear com o cão.
Eu fui ao cinema, e vi um cão de 14
metros de altura.
E o cão era feito inteiramente de luz.
E ele preenchia toda a tela.
E os seus olhos eram corredores compridos. Ele
tinha olhos de corredor compridos, cheios
de eco.
Eu liguei o rádio e ouvi uma canção do Luiz
Gonzaga. E ele estava cantando:
Oh tamanha judiação. Ah que triste solidão.
Eu deixei Rosinha com meu coração.
Mas eu voltarei, viu?
Quando o verde dos olhos se espalhar na
plantação.
Bem, você
sabe que ele não vai voltar. E eu sei
que ele não vai voltar.
E ele
sabe que ele nunca vai voltar lá.
Eu só quero saber quem vai passear com o seu cão.
Oh tamanha judiação. Ah que triste solidão.
Mas não tão triste quanto na noite em que
fiz esta canção.
Feche os olhos. Muito bem. Agora imagina
que você está na melhor das festas. Muito
bem.
Comida deliciosa. Hã-hã. Gente interessante.
Hã-hã. Ótima música. Hm-hm.
AGORA ABRA OS OLHOS!
(Notas:
1- apesar de esta canção não constar
no disco de 1982, ela fez parte do single Ó
Super-Homem, e era a segunda peça que Laurie fazia na performance
multimídia de 8 horas Estados Unidos I-IV.
2- Talvez não seja,
do ponto de vista musical, ou mesmo se considerarmos o desenvolvimento do texto
e a vida pessoal do artista, completamente justo utilizar Luiz Gonzaga nessa tradução/adaptação. No
original, Laurie menciona a cantora country Dolly Parton, e talvez não faça
nenhuma citação tão direta quanto a que empreguei. Uma tradução literal do
conjunto de versos seria: “Eu liguei o rádio, e ouvi uma canção de Dolly
Parton. E ela estava cantando:/ Oh! Eu me sinto tão mal! Eu me sinto tão
triste! Eu deixei minha mãe e meu pai!/ E eu só quero ir para casa agora./ Eu
só quero ir para a minha casa na montanha do Tennessee agora”. Não conheço
profundamente a obra de Dolly Parton, mas creio que aí temos uma paródia, ou alguma paráfrase cujo texto original não consegui identificar. De fato, o mais próximo tematicamente das canções de Dolly que ouvi para trabalhar na tradução, encontramos
em Tennessee Homesick Blues. Porém, a estrutura e as palavras não são nem um pouco semelhantes. O esquema das rimas simples de Asa Branca
e a questão temática – com diferenças evidentes, embora de um modo geral
semelhante – se encaixavam tão bem que não pude resistir e empreguei ambos,
Luiz Gonzaga e Asa Branca, na
adaptação (o que talvez no fundo seja apenas demonstração da minha estima por
eles). Cheguei a procurar algumas letras cantadas por cantores sertanejos, que
talvez fossem uma escolha mais óbvia, porém nenhuma funcionava tanto).
***
Entrevista
de Laurie Anderson para a Rádio Silicon Valley.
Bem-vindos à Rádio Silicon Valley. Nós
trazemos para você conversas com as personalidades mais influentes da Internet.
Hoje, estamos com a cantora, compositora, e artista multimídia Laurie Anderson.
Laurie fez sete álbuns no estúdio Warner Bros e produziu a música de filmes de
Jonathan Demme e Win Wenders. Ela também criou peças para a Rádio Pública
Nacional e compôs diversas peças para orquestra. Atualmente, Laurie trabalha
com a Internet, produzindo para seu Web Site em voyagerco.com.
Silicon Valley Radio: Laurie, que
qualidades sensíveis das artes podem ser transpostas para a Internet?
Laurie Anderson: Vai ser tão interessante
ver que tipo de arte surge nesse espaço – arte e comédia e o que for. Eu acho
que a resposta mais óbvia é as mesmas coisas que funcionam aqui, provavelmente.
Apesar de visualmente não ser exatamente bonito, eu acho que as pessoas podem
visualizar o que é apropriado para o meio. Quer dizer, eu adoro desenhos a
lápis. Então, eu acho que você não tem que fazer filmes 35-mm deslizantes e
belos para produzir coisas bonitas. Eu acho que artistas que se sentem atraídos
por trabalhar com a Internet vão obviamente ajustar o trabalho deles para uma
tela bem pequena.
Há orientadores de
alunos da Escola de Artes Visuais em Nova York – onde você pode até conseguir o
seu diploma em Cyberarte, o que é realmente um modo fantástico de se
especializar em Artes – que estão pensando em teatro de formas diferentes.
Estamos numa fase tão experimental e estimulante agora mesmo que é uma
maravilha assistir aos artistas surgindo com ideias, algumas que funcionam,
outras que não. Mas as coisas que funcionam aqui vão funcionar lá na maior
parte das vezes. Só que é impossível prever qualquer coisa desse tipo.
SVR: Como uma artista, você provavelmente
está atenta com o assunto de o quanto a tecnologia interfere na emoção que você
está tentando passer e o quanto favorece a comunicação. É provavelmente algo
difícil de balancear para você. Como você supera isso? Como julga o que é
apropriado? E como isso vai ser traduzido na Internet?
Anderson: Eu uso tecnologia de modos
bastante simples, de modos que eu mesma possa fazer tudo. Quer dizer, eu não
peço para ninguém fazer a identidade visual ou nada do tipo. Eu prefiro sentar
e tentar fazer uma animação no Premiere, se ficar com cara de feito em casa, e
daí? Quer dizer, tem um monte de gente no mundo que faz os visuais mais belos,
brilhantes e super produzidos. Eu tento
não me focar nisso, mas nas ideias e emoções que eu estou tentando enxergar.
SVR: Quem são os artistas que você admira e
por quê?
Anderson: Eu admiro muito Thomas Pynchon. E
estou pensando agora na palavra “artista” no seu sentido mais amplo. “O
arco-íris da gravidade” é tão bonito exatamente porque é bem multidimensional.
Eu gosto mesmo de livros que você pode tanto ouvir como pensar, e que são
também gráficos e visuais. Eu queria fazer uma ópera desse livro, na verdade, e
eu escrevi para ele e perguntei se ele estava de acordo (de verdade, eu achei o
cara; ele é um bocado recluso). E ele me escreveu essa carta engraçada. Ele
disse: “Você pode fazer, mas só pode usar um banjo”. E então eu pensei: “Bem,
obrigado. Eu não sei se posso fazer assim”. Acho que esse foi o jeito educado
de ele dizer: “Não. Você não pode fazer isso de modo algum”.
Enfim, outros
artistas que eu gosto – Eu gosto de William Burroughs por causa da voz. Eu me
sinto quase perdida ao responder isso, porque eu aprecio tanto quando alguém
tenta fazer alguma coisa e tenta fazer artisticamente que eu fico feliz só de
ver o trabalho. A única coisa que eu realmente não gosto são os musicais da
Broadway. Eu detesto.
SVR: O que tem nos musicais da Broadway que
te irrita?
Anderson: Por favor, não começa esse
assunto. (Risos). Eu, na verdade, não gosto de falar das coisas que eu não
gosto. Você entende, né? Eu não aguento mesmo.
SVR: Fala alguma coisa que as pessoas não
sabem sobre você – algum interesse, hobby ou peculiaridade do seu jeito que não
podemos imaginar conhecendo quem você é como performer?
Anderson: Eu tenho um novo hobby, que são
os invertebrados. Eu tinha essa quitinete que usava de estúdio, e ela tinha uma
parede bem grossa. A vista dava para o rio Hudson e para outras salas e
quartos. Eu sempre quis encher a janela com água e peixes e coisas. Então eu
acabei fazendo isso mesmo. Eu mudei o meu estúdio de gravação para outro lugar,
e coloquei um grande aquário de água salgada nesse lugar. Então, esse é o meu
novo hobby. Eu não vou colocar nenhum
peixe no aquário porque eu tenho medo de coisas que ficam boiando. E eu detesto
zoológicos.
Então, vão ser só
os invertebrados: corais diferentes, pequenas criaturas que têm esses tubos
longos e que ondulam na brisa de debaixo d’água, e criaturas que não poderiam
explorar muito mais que as dimensões de um aquário. É realmente fantástico. Só
que é um hobby que dá um bocado de trabalho. Eu nunca tinha tido um hobby antes.
Quer dizer, a não ser que você conte a arte, que, uma vez, a Receita Federal me
disse que eu tinha que declarar como hobby porque eu não tinha obtido nenhuma
renda com isso nos últimos anos. Isso foi há bastante tempo atrás e eu estava
apenas começando. Eles disseram: ‘A não ser que você ganhe dinheiro no próximo
ano, você deve declarar esse suposto trabalho como um hobby’.
SVR: O que você acha de cobras?
Anderson: Eu gosto de répteis.
SVR: Você gosta?
Anderson: Claro. Eu gosto do que é frio e
escamoso ao toque. Quer dizer, eu gosto de coisas mornas e peludas também, mas
tem alguma coisa nas cobras que me faz querer contar histórias sobre elas. E eu
escrevi muitas histórias sobre cobras. Tem alguma coisa muito primitiva nisso.
E eu gosto muito mesmo de cobras.
SVR: Você acha que vai chegar a escrever
livros para crianças algum dia?
Anderson: Eu escrevi alguns livros para
crianças, há muito, muito tempo atrás. O primeiro livro que eu escrevi era para
crianças. O nome dele era “O Pacote”, e era uma história de suspense em
ilustrações. Não tinha nenhuma palavra. E também foi a primeira coisa que eu
fiz estritamente por causa do dinheiro. Eu estava na faculdade, e eu estava sem
dinheiro nenhum, e era orgulhosa demais para pedir para os meus pais. Mas o meu
dinheiro todo tinha acabado, aí eu decidi que ia fazer um livro. Então – eu me
lembro muito bem disso – era uma sexta de tarde, e eu andei até a primeira
editora que encontrei na lista telefônica, Bobbs-Merrill, e fui me sentar no
escritório deles.
Bem,
eu falei com a secretária e disse, ‘Eu gostaria de falar com alguém sobre um
livro que eu quero fazer’. E a secretária fez, ‘Ah, claro. Eu sinto, querida,
mas nós marcamos reuniões com seis meses de antecedência’. Eu disse, ‘Bem, tudo
bem. Você se importa se eu ficar aqui sentada esperando?’. E fiquei lá sentada
com todos os meus desenhos por quase oito horas, olhando para diante, sem ler
nada. Finalmente, às quatro e meia mais ou menos, um editora disse, ‘Muito bem,
o que você quer? Vamos para o meu escritório’. Eu mostrei os desenhos e disse,
‘Eu gostaria de fazer um livro chamado O Pacote, etc. etc.’
Ela
disse, ‘Sabe, eu ia simplesmente mandar você sair daqui. Eu nem acredito, mas
quer saber, eu fiquei realmente interessada’. E eu disse, ‘Ótimo! Podemos
fechar o contrato agora?’. Ela ficou assim, ‘Ah, essas coisas levam tempo,
levam advogados, sabe. A gente não tem como fazer isso, entende? Mas eu
adoraria mesmo fazer esse livro. Eu nem acredito que eu estou dizendo isso, mas
é verdade, eu quero mesmo fazer’. E eu disse, ‘Bem, ótimo, mas eu tenho que te
contar que estou sem dinheiro. Você poderia me dar um adiantamento?’. E essa
mulher era tão incrível, que ela tirou da própria bolsa e me deu setenta dólares.
Eu
fui saltitando para casa, e eu estava bem feliz. Afinal, quando eu finalmente
fui paga pelo livro, eu estava andando de volta da editora e fiquei muito
orgulhosa que tinha lançado um livro. Não tinha nenhuma importância se era um
livro para crianças ou de qualquer outro tipo. Eu passei por uma agência de
viagens. Grande avião. Visite a Jamaica. Eu entrei, comprei uma passagem e saí.
Foram as melhores férias que eu tinha tido, porque eu cheguei nesse lugar na
Jamaica e disse, ‘Eu sou uma autora de livros, estou trabalhando no meu segundo
livro e, por favor, não incomode’. Eu não tinha nenhum papel comigo, e nenhum
plano de trabalhar.
SVR: Como você era quando criança?
Anderson: Uma nerd. Chegava na escolar mais
cedo para dar de comer para os peixes. Eu gostava de peixes naquela época.
Insuportável de metida, sabe? Eu sempre li muito. Sou de uma família muito
grande, então todo o momento que eu podia passar sozinha, eu tentava me virar
por mim mesma.
SVR: Sendo uma Anderson, você é fã de Hans
Christian Andersen?
Anderson: Famílias de origens diferentes.
Ele é do sul. Nós somos a versão sueca, os -sons, e eles são dinamarqueses.
Mas, é, eu gosto de histórias de assustar. Eu provavelmente gosto mais dos
contos de fadas alemães porque eles são ainda mais amedrontadores.
SVR: De onde o seu corte de cabelo
característico veio? Qual a história por trás dele?
Anderson: Tédio. Eu estava na Alemanha, e
alguém me disse que o teatro onde a gente estava trabalhando tinha que adiar os
nossos shows por uma semana. Nós ficamos presos em Munique sem nada para fazer,
e tinha esse manipulador de marionetes japonês que chegou e me disse, ‘Que tal
se eu cortar o seu cabelo bem curto?’. Aí eu disse, ‘Ótimo, faz isso mesmo’.
SVR: Qual o elogio que você ouviu sobre a
sua arte e mais gostou?
Anderson: Eu não lido bem com elogios. Quer
dizer, eu sempre abaixo a cabeça e balanço meio desajeitada, então eu tento
esquecer imediatamente, porque os elogios meio que me lembram que eu deveria
estar trabalhando. E eu sou mesmo uma workaholic.
SVR: Você e Lou Reed ainda estão juntos?
Como o relacionamento de vocês está indo?
Anderson: Bem, sabe quando você se apaixona
por alguém, é assim que está indo.
SVR: O Lou Reed tem algum tipo de interesse
pela Internet?
Anderson: É, ele dá uma olhada no que tem
por aí.
SVR: Foi ele quem abriu os seus olhos para
formas diferentes de encarar a sua arte ou você que fez isso com ele?
Anderson: Bem, eu acho que ele
provavelmente me fez mais dura na queda. E com isso eu quero dizer que se eu
fico meio que falando em torno de alguma coisa, ele simplesmente vai e fala,
‘Por que você não diz só o que realmente pensa? Ok? Você não precisa ser
bacana, ou fingir’. Então isso é muito interessante. E talvez ele esteja
aprendendo comigo quase que o oposto.
Sabe, eu fico meio
assim, ‘Você não tem que dizer isso de cara. Você pode caminhar um pouco antes
de chegar nisso’. Mas é claro que a melhor coisa é que eu nunca sei o que
esperar do Lou. É ótimo estar com alguém que está sempre te surpreendendo com
suas opiniões e pensamentos. Isso é muito estimulante.
SVR: Quais são os ingredientes chaves para
fazer um relacionamento funcionar?
Anderson: Oh, você perguntou isso para a
pessoa completamente errada. [Risos]. Eu jamais me assumiria como capaz de
fazer qualquer comentário desse tipo. É simplesmente um grande milagre quando
as coisas acontecem, e elas acontecem por causa de uma variedade imensa das
razões mais loucas. Se fizesse qualquer declaração desse tipo, eu me sentiria
simplesmente ridícula.
SVR: Quais são as suas ambições para o
futuro?
Anderson: Eu tenho uma ideia bem ambiciosa
em que eu estou trabalhando agora, que é uma grande plano de cinco anos. Depois
que eu voltei da minha última turnê, eu me dei conta que em vez de fazer o que
eu faço normalmente, que é ir de um projeto para o próximo, eu acho que
gostaria de realmente pensar no que gostaria de fazer durante um período de
tempo maior
Então, eu fiz
vários gráficos e todos eles têm linhas pontilhadas que conectam um ao outro,
mostrando como as ideias diferentes podem ser relacionadas. Eu recomendo
fortemente isso para as pessoas, simplesmente tomar uma distância maior e
pensar, ‘O que eu realmente gostaria de fazer se eu não tivesse nenhum tipo de
limitação?’.
Eu espero que eu
consiga fazer algumas dessas coisas. Mas se eu não chegar a fazer todas elas,
eu ainda acho que foi um ótimo exercício de aprendizado sobre que artista eu
sou. Simplesmente meio que pensar o que eu realmente gostaria de fazer, o que
eu realmente sonho em realizar.