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sábado, 13 de dezembro de 2014

Roberto Piva [parte 2/2]: meu coração paranóico de veludo verde

Para ler ao som de “rock’n’roll sugar Darling”de Thiago Pethit.

Nessa segunda semana  dedicada ao trabalho de Roberto Piva  fazemos uma seleta  de” Mala na mão & asa preta” , segundo volume das obras reunidas do poeta, organizadas  por Alcir Pécora para a Editora Globo +  o documentário  Assombração Urbana de Valesca Canabarro Dios.

O volume  traz 4 livros publicados entre a 1976 e 1983. Nos detemos em 3: Abra os olhos e diga Ah! (1976), Coxas  (1979) e  20 poemas com brócolis (1981).  Quizumba (1983), apesar de ser o livro que traz “A Coréia é na esquina”, sentimos que se afastava mais  da imagem que rastreávamos.   

Este segundo post investiga (mas não de forma exaustiva) a figura do menino bonito. O moço, o garoto, o rapaz, o tuareg, o boy.

Que imagens se projetam sobre ele? Que promessa ele traz? Que canto estimula sua presença (ou ausência)? [nota mental: a canção de caetano  o menino cantada por gal em recanto. A leitura de tyrone dessa canção]

Camile Paglia em Personas sexuais dedica um capitulo inteiro a pensar o menino bonito, que segundo ela tem a dupla função de  origem do canto e destruição dele. Camile toma Dorian Gray e a vida de Oscar Wilde para pensar esse arquétipo. Uma beleza quase afeminada, rica em subtextos psicológicos, relações de dominação e submissão - quem manda e quem obdece.

Os garotos de piva não são assim. Os garotos de piva são Marlon Brando em  O selvagem. Brutos, barulhentos,  ávidos,  às vezes insuportavelmente distraídos (ou dissimulados).
Alcir Pécora, na introdução do volume escreve:

“ Os poemas compõem uma franca e desassombrada celebração amorosa, em particular do amor do efebo, cuja posse frequentemente fornece a principal matéria para o canto. Trata-se da apropriação de um modelo poético antigo, no qual o amor entre homens (regido por Afrodite Urânia, nascida exclusivamente do sémen de Cronos, e não  por Afrodite Pandêmia, popular e heterossexual, nos termos platônicos) é essencialmente passagem para uma forma de conhecimento inteligível ou supra sensível. Mas trata-se também de uma contradição e diferença em relação aos modelos metafísicos, uma vez que o discurso amoroso se constrói centrado substancialmente na energia do corpo e do ato sexual. Poesia hardcore – para dizê-lo com rigor -, cujo princípio cognitivo tem sua sede no sexo.”   
  
Mais a frente, retoma:
“O desejo que o seu discurso professa não é antegozo do que se passa entre quatro paredes nem chama que se esgota na boemia anárquica ou na bizarria juvenil, mas front de combate a um mundo dado como morto. Entenda-se o cadáver: um mundo regido pela normalidade assexuada e invariavelmente associado a negociatas e mitologias mercadológicas – ‘totem kapitalista’.”

 O garoto é a promessa de (a)ventura.

Em Coxas, entre outros ele é “Pólen”; em 20 poemas com brócoli  ele atende por “o garoto”;   em Abra os olhos e diga ah! ele não é nomeado. “Ele” seria o interlocutor implícito da maioria dos textos.  Na seção final do livro de 1976 Piva retoma personas míticas (como Ganimedes & Antínoo) que funcionam como máscaras  para esse(s) interlocutor(es).   

Nesse sentido, é vital a fala de Ricardo Domeneck em entrevista à Escamandro como forma de pensar os lugares possíveis desse garoto e a poética que ele constrói.

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GGF – Você costuma sempre falar da relação entre poesia e poeta com seu contexto e função. Qual é o lugar, ou a função est-É-tica (como você diz) da poesia amorosa no presente?

RD - Esta talvez seja a pergunta mais difícil de responder, certamente a que apresenta maiores armadilhas. Você se lembra da colaboração entre Tom Zé e o Grupo Corpo, há alguns anos? Ali havia, em minha opinião, uma expressão muito clara da necessidade de salvaguardar o discurso amoroso, para usar a expressão de Roland Barthes, no mundo contemporâneo ou qualquer mundo. O próprio Barthes exprimiu algo desta necessidade na pequena introdução que faz a seu Fragmentos de um discurso amoroso. Numa sociedade que busca a uniformização de quase tudo (não dos direitos e privilégios) e a criação de autômatos, a poesia lírica torna-se um refúgio não do individualismo egocêntrico, como certos patetas parecem crer, mas um refúgio para o direito de cada indivíduo de ser um indivíduo, ao mesmo tempo que é parte de uma comunidade. Num mundo em que a individualidade é muitas vezes acusada de individualismo num discurso que quer ajudar a transformar cada ser em mera ferramenta de um sistema, sociedade em que tudo é dispensável, em que seres humanos são usados todos os dias como bucha de canhão, o ato de eleger outro ser como uma “festa-em-si”, como teu próprio “príncipe das belugas” ou “princesa das raposas”, torna-se uma subversão completa e perigosa do sistema de uniformização e automatização. Não há nada menos alienado que a poesia amorosa. Pelo contrário, parece-me por vezes a mais desperta. Porque mantém em nós o desejo, seguindo as palavras de Cummings, de seguir sentindo, “porque sentir é estar vivo”, de não ceder ao cinismo. Algo a ser celebrado, sempre. Cummings o exprime de maneira muito melhor que eu, portanto, se você me permite, encerro com minha tradução de um trecho de uma das nonlectures do grande lírico amoroso americano:
“Vocês não têm a menor ou mais vaga concepção do que é serestar aqui, e agora, e a sós, e ensimesmos. Por que (vocês perguntam) alguém deveria querer estar aqui, quando (com o simples apertar dum botão) qualquer um pode estar em cinquenta lugares ao mesmo tempo? Por que alguém deveria querer ser agora, quando qualquer um pode ir quandando por toda a criação num girar de manivela? O que poderia induzir alguém a desejar sozinhez, quando bilhões de soi-disant dólares são misericordiamente desperdiçados por um bom e grande governo para evitar que qualquer onde quer que jamais esteja um instante qualquer só? Quanto a ser você mesmo – por que diabos ser você mesmo; quando em vez de ser você mesmo você pode ser centenas, ou milhares, ou centenas de milhares de outras pessoas? A simples ideia de ser-se a si mesmo em uma época de eus intercambiáveis deve parecer supremamente ridícula.” — e.e. cummings
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Pessoalmente considero 20 poemas com brócoli, o conjunto de textos mais bem construídos de Piva. Tanto como projeto de livro, quanto os poemas individualmente. O tom dos textos  é consideravelmente menos declamatório do que nos livros anteriores, os versos (super concentrados) estão centrados em imagens (pedras, membros, autores) de grande riqueza cromática. Formalmente, recordam Lawrence Ferlinghetti de Poems from pictures of the gone world.

Depois do lançamento do livro de Thiago Gallego, que foi um dia enorme e cheio de gente e acontecimentos, já no fim da noite, tomando a saideira num pé-sujo do Humaitá, lembrei  do ensaio do Gore Vidal sobre Mishima. C começamos (eu, Gallego, Valmir e Madiano) uma lista absurda das gays literárias que seriam boas companheiras de caça. De Verlaine à  Ismar Tirelli Neto, passando por João do Rio, William S. Burroughs, Thomas Mann e Néstor Perlongher.  Alguém dizia um nome e os outros levantavam objeções baseadas na obra e/ou biografia. Unânimes, só Piva & Pasolini.

Por Marcio Junqueira.


***

De  20 poemas com brócoli

I
última locomotiva. gregos de Homero
                sonhando dentro do chapéu de palha
                       última vozes antes dos lábios &
            dos cabelos. sonoterapia voraz.
                                você adora as folhas que caem
                                                     no lago escuro
                              este é o banquete do poeta
                                                                     sempre
                                                                     querendo
                                                         penetrar
                                                                      no caroço
                                                                                 da verdade.
nariz do garoto negro apontando para
                            a praça apinhada de tucanos sambistas
                                     você tranca o planeta.
*

XIV

                                                                                     para o Carlinhos
vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
                          coxas imberbes e brancas.
        vou dilapidar a riqueza de tua
                           adolescência. vou queimar teus
                          olhos com ferro em brasa.
                    vou incinerar teu coração de carne &
                                de tuas cinzas vou fabricar a
                                substância enlouquecida das
                                             cartas de amor.
                                                                               (música de
                                     Bach ao fundo)
*

XVI

abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
                     poesia em cascatas floridas com aranhas
                               azuladas nas samambaias.
        todo trabalhador é escravo. toda autoridade
                    é cômica. fazer da anarquia um
                        método & modo de visa. estradas.
                              bocas perfumadas. cervejas tomadas
                                   nos acampamentos. Sonhar Alto.
*

XVII

quero dividir com você a ventania a morte
            & as flores do pessegueiro.
                sinistras aves de rapina.
                        fontes de mel. pequena cidade do
                               interior donde você brota como
                                              Amor-Perfeito.
                        imensa & indelicada adolescência.
             tambores dos quintais & do riacho
                         nas asas dos anjos da Memória”

*

XIX

o garoto engole a flor. mistura de
                                   serpentes. seus olhos acendem
                                           miosótis na dissipada
                                                ternura do neon.
               dançarei no musgo do teu coração
                                     onde as estrelas do
                                     amor caem feito
                                         ducha


*

De Abra os olhos & diga Ah!


eu sou o jet-set do amor maldito
      DENTRO DA NOITE & SUAS CÓLICAS ILUMINADAS
os papagaios da morte com Aristóteles na proa do trovão
          DISPOSIÇÃO DE IR A DERIVA NOS DADOS DO AMOR
              espinafre pela manhã & queijo em pasta
                  almas-esportivas com flores entre os dentes
     minha laranja se abrindo como uma porta
         TUA VOZ Ê ETERNA eu vejo a mão cinzenta rasgar
     a parede do mundo
         ESTAMOS DEFINITIVAMENTE NA VIDA

*

(A POLÍTICA DO CORPO EM FOGO DO CORPO EM CHAMAS
DO CORPO EM FOGO) APAGANDO A LUZ as trevas devoram
          teu corpo em chamas tua boca aberta teu suicídio
 de prazer na grama tuas mãos colhendo meu rosto
 de folhas machadas na escuridão teu gemido à sombra
              das cuequinhas em flor
                    teus cabelos são solidamente negros

*

(MEU AMOR DORME & SE COÇA EM SONHOS SE DEBATE & GEME
                SE DEBATE & GEME SE DEBATE & GEME)
                       antes do almoço sentaremos no pára-lama de
              um carro & falaremos de EMPÉDOCLES assim os pássaros
          carregam suas verdades magníficas no centro do mundo onde
                                             escutamos vozes de MOTORES HUMANOS
EU OUVI SUAS PALAVRAS QUE ARROMBARAM O UNIVERSO   antes
                            da chuva carnívora
                    antes do transistor canibal

*

(A EPOPÉIA DO AMOR COMEÇA NA CAMA COM O LENÇÓIS
          DESARRUMADOS FEITO CAMPO DE BATALHA) 
é ali que eu começo a nascer para a madrugada & suas
         vertigens onde você meu amor se enrosca em
meu coração paranóico de veludo verde & as delícias de continentes
alaranjados dormem em seu rosto de pérolas turvas oh tambores do amor
             sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS & suas
        cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
                  gosto de gostar & a tv da alma amanhece bêbada & tenta
                                           dizer alguma coisa”

*

Ganimedes 76
Teu sorriso
olhinhos como margaridas negras
meu amor navegando na tarde
batidas de pêssego refletindo em teus olhinhos de
          fuligem
cabelos ouriçados como um pequeno deus de um salão
          rococó
força de um corpo frágil como âncoras
gostei de você eu também
amanhã então às 7
amanhã às 7
tudo começa agora num ritual lento & cercados de
         gardênias de pano
Teu olhar maluco atravessa os relógios as fontes a tarde
         de São Paulo como um desejo espetacular tão
         dopado de coragem
marfim de teu sorriso nascosto fra orizzonti perduti
assim te quero: anjo ardente no abraço da Paisagem

*

Atentado Profundamente o Emocional 

                                              (Antinoo, ragazzo di marbro)
     garoto pornógrafo
                             antes que a lua chegue
                                                     esta feijoada será uma batalha
            Átila vence a grama do mundo
                                            ADIANUS CESAR Imperator
          caminhando na manhã romana com seus doze amantes
eu gostaria que você lesse Jacob Boehme
                                 suas coxas se retesam
                                                                   & você chora um pouco
                        venha, lamba minha mão &
                                                  se prepare para um milhão
                                                  de comas loucas loucas
                     antes que a lua chegue
                                                 morda meu coração na esquina
                                                                                      & não me esqueça
*

Antinous
(movimento de árvores)

são questões
                     terça-feira eu prefiro você bem
                                                                   louco
                    minha palavra & nada que você acredita
                    poderá acontecer: ostras olhos injetados Hegel
              durma com suas violetas do subúrbio
                                          e a cidade tosse como
                                          um índio com febre
São Paulo acorda em suas coxas
                       docemente
banho quente com vapor
    em espiral flocos de
    samambaias eróticas
assim que você espreguiçar eu estarei
                                                            sangrando

*

De Coxas

      sex fiction & delírios


OS ESCORPIÕES DO SOL

O adolescente ajoelhou-se abriu a braguilha da calça de
Pólen & começou a chupar.
Eram 4 horas da tarde do mês de junho & o sol batia no
topo do Edifício Copan suas rajadas paulistanas onde Pólen
& Luizinho foram fazer amor & tomar vinho.
O adolescente vestia uma camiseta preta com o desenho no
peito de um punho fechado socialista, calças Lee desbotadas
& calçava tênis branco com listras azuis. Você é minha
putinha, disse Pólen. Isso, gritou Luizinho, gosto de ser
chamado de putinha, puto, viado, bichinha, viadinho ah
acho que vou gozar todo o esperma do Universo!
Neste instante um helicóptero do Citibank se aproximava
pedindo pouso & os dois nem ligaram continuando com
suas blasfêmias eróticas heróicas & assassinas.
O guarda que estava no helicóptero então mirou & abriu fogo.
Luizinho ficou morto lá no topo do Edifício Copan com uma
bala no coração.
Por onde é preciso começar?
Pólen não sabia, mas seu olho sabia, sua mão sabia, sua
política cósmica sabia.
Hermafrodita morto no musgo mais alto. Suas baleias de
ternura, suas tranças do mais puro ouro, suas sardas em
torno do narizinho meio arrebitado & insolente.
Luizinho era uma sombra dentro do seu coração anarquista
& rápido suas lágrimas quebraram o aço dos elevadores com
seus guinchos de múmias eletrificadas ondas de reflexos
polaróide em frente à Igreja da Consolação rostos picados
nos escritórios & seus violinos enfadonhos, o amor
começaria por uma perda?
A atmosfera cor de azeitona era um alívio para o coração
metralhada pela dor construída ao crepúsculo doente em
cargas elétricas & surdas feitas de veludo & espinhas de
peixe um rodízio de aberrações crispou o rosto de Pólen
que agora tomou um ônibus & percorreu São Paulo num
suspiro rodando & rodando por aquela massa cinzenta do
capitalismo periférico sem escapatória & suas grandes asas
cobriam o Sol & seus escorpiões.
Enquanto isso os cinemas sofriam ataques contínuos de
office boys armados com estilingues & bolinhas de gude &
partilhavam da turbulência do Grande Terror com
máscaras feitas de folhas de bananeiras & bermudas
justíssimas onde se podiam ver magníficas coxas & lindos pés
descalços com tornozelos rodeados com florzinhas amarelas
& muitos traziam a palavra COMA-ME costurada na
bermuda na altura do cu.
Naquela tarde todo mundo estava com vontade de nadar
em sangue.
Anjos da verdade pensou Pólen em sua calma estranguladora
de babuínos agora devem começar as quermesses com leitões
coloridos purê de maçã & delicados tutus à mineira ostras de
Cananéia apimentadas servidas com retumbantes batidas
de Maracujá (a fruta da paixão) codorninhas recheadas com uvas
passas & torresminhos com queijo ralado o verão bem
poderia chegar com seu perfume de acarajé invadindo os
colégios fazendo os adolescentes terem ereções & as garotas
desmaiarem de desejo com seus pequeninos seios latejantes.
                                     agora
                                          um anjo pousou
                               em seu ombro
                                                    & Pólen adormeceu.
Quando acordou alguém tinha deixado em suas mãos o
livro As Américas e a civilização de Darcy Ribeiro & ele
desceu do ônibus para sentar na praça Buenos Aires & ler.
Abriu na página 503 & leu:
“Os Guerreiros do Apocalipse.
Uma vez implantadas as bases do Estado militarista na
América do Norte, uma série de acontecimentos comoveu
a opinião pública, os governantes, os militares, conduzindo
toda a classe dirigente do país a crises sucessivas de
apavoramento e histeria”.

*

APAVORAMENTO N° 1
dezoito garotos & dezoito garotas foram emparedados vivos
em caixas construídas com chicletes que só Adams fabrica &
tostados dentro de um porão de arsênico & cascavéis.

*

APAVORAMENTO N° 2
quinze adolescentes de ambos os sexos foram chicoteados na 
bunda por batalhões da TFP que os insultavam enquanto
trezentos rapazes & moças de seita imperialista Igreja Católica
cortavam rodelas de cebola & colavam em seus olhos.

*

HISTERIA N° 1
a confraria reacionária Unidos em Série promovedora de
festivais de telenovelas nas fábricas jogou uma substância
criadora de histeria CBK7 no reservatório de água de um
colégio de freiras & as alunas peidaram 3 dias & 3 noites
sem parar & depois se flagelaram & crucificaram.

*

HISTERIA N° 2
setenta adolescentes fascistas do Colégio Objetivo criaram
no laboratório de química (com auxílio de alguns
professores) uma substância hipnótica cuja finalidade é
levar a vítima ao arrependimento seguido de crises
de misticismo histérico.
Essa substância foi testada no bairro operário da Mooca &
durante 2 meses às 6 horas da tarde na avenida Paes de
Barros os operários se reuniram para rezar

*

Antínoo & Adriano
L`énigme du labyrinthe est
Celle-ci: comment descendre
Jusqu`à Dionysos sans perdre
La connaissance du chemin?
A.   Kremmer –Marietti, L`homme est ses labyrinthes

The rain outside was cold in
Hadrian`s soul.
Fernando Pessoa,  “Antinous”


Esta é a zona batida pelos afogados
Esta é a velocidade máxima de quem submerge
aqui as romãs romanas não crescerão mais
& duas águias de névoa orvalhando sandálias
adolescentes na grama de primavera escrevem
a palavra remenber
o doce Antínoo com seu arco carregando
corações maduros na aljava da fenda-essência
da história
os semáforos do tempo acendem seu sinal
verde por cima de sua
longa cabeleira
este doce garoto
patiu o coração do imperador
o Império adorando um deus adolescente afogado no nilo
sem esperar a Manhã egípcia chegar
Adriano chorou o resto de sua
vida na villa ao sul de Roma
as paredes rachavam pelas tardes
deixando entrar as lembranças
houve um tempo nas montanhas da
Bitínia quando as caçadas se prolongavam
até a hora do amor
o vinho de Falerno aderindo aos estômagos
enquanto os olhares se
cruzavam sobre o javali assado e rodeado
de frutas
este amor contruiu seu império na
memória & as escamas de
meu cérebro caem ao contato de seu dedo
os poetas latinos ouviram provaram
entenderam este tesouro afundado
nas tripas do tempo
resta o vento de verão nos caminhos
onde eles andaram

***


Assombração urbana, filme de Valesca Canabarro Dios


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Roberto Piva [parte 1/2]: Uma outra cidade

Em setembro deste ano fizemos um post em torno do Roberto Piva. O post era um tributo de Clarissa Freitas ao doc  “uma outra cidade” de Ugo Georgette.   Histórias + poemas de  Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo Haro, Jorge Mautner e Claudio Willer.  Piva rondava o post (sendo inclusive sido citado no título) mas não aparecia com nenhum texto. Esta primeira postagem dedicada à sua poesia é uma espécie de complemento/desdobramento do post de setembro.  
Trazemos, então, o documentário de Ugo Georgette, diretamente dos arquivos de carlos lima, + uma seleção de Paranoia (1963)  e Piazzas (1964), os dois primeiros livros de Roberto Piva, que dialogam diretamente com o ambiente descrito tanto no doc quanto no post de setembro. (Não por acaso o filme começa exatamente no relançamento de Paranoia, em abril de 2000).
Uma sugestão que pode render leituras interessantes é brincar do jogo dos sete erros com o doc  de Ugo Georgette e “dentes da memória”  (Azougue, 2011), biografia de Camila Hungria e Renata d’Elia sobre o mesmo período e personagens (no livro Haro e Mautner viram coadjuvantes e Roberto Bicceli, que não aparece no doc, vira o quarto beatle).  Formalmente a montagem do livro se assemelha muito a transcrição de um documentário.  
Entre o filme e o texto, a gente imagina Piva como um personagem do Detetives Selvagens de Roberto  Bolaño. Piva é Ernesto San Epitáfio explicando a taxionomia literária para Juan Garcia Madero (que pode ser Willer, Haro ou Mautner, de acordo a sua imaginação):

Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.
Dentro do imenso oceano da poesia, distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bambis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bambi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Darío era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma das bichas-loucas.
– Na nossa língua, é claro – esclareceu –, no vasto mundo o paradigma continua sendo Verlaine, o Generoso.
Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podiam ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. De fato, a poesia mexicana carecia de poetas bichonas, embora algum otimista pudesse pensar que aí se enquadravam López Velarde ou Efraín Huerta. Bichas, em compensação, abundavam, do maldoso (mas por um segundo escutei mafioso) Díaz Mirón até o conspícuo Homero Aridjis. Deveríamos remontar a Amado Nervo (vaias) para encontrar um poeta de verdade, quer dizer, um poeta bichona, e não um bambi como o agora famoso e reivindicado potosino Manuel José Othón, pesadão como ele só. E falando de poetas pesados: borboleta era Manuel Acuña e ninfo dos bosques da Grécia, José Joaquín Pesado, perenes cafetões de certa lírica mexicana.
– E Efrén Rebolledo? – perguntei.
– Uma bicha menorzíssima. Sua única virtude é ser, se não o único, oprimeiro poeta mexicano a publicar um livro em Tóquio, Rimas japonesas, 1909. Era diplomata, claro.
O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que, por fraqueza ou comodidade, acatavam – se bem que nem sempre – os parâmetros estéticos e vitais das bichas. Na Espanha, na França e na Itália os poetas bichas foram legião, ele dizia, ao contrário do que poderia pensar um leitor não excessivamente atento. O que acontecia era que um poeta bichona feito Leopardi, por exemplo, reconstrói de alguma maneira os bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo, o trio da morte.
– Do mesmo modo, Pasolini retoca a bichice italiana atual, vejam o caso do pobre Sanguinetti (com Pavese eu não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único de sua espécie, nem me meto com Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais). Para não falar da França, grande língua de fagocitadores, em que cem poetas bichonas, de Villon à nossa admirada Sophie Podolski, apascentaram, apascentam e apascentarão com o sangue de suas tetas dez mil poetas bichas com sua corte de bambis, ninfos, bonecas e borboletas, excelsos diretores de revistas literárias, grandes tradutores, pequenos funcionários e grandíssimos diplomatas do Reino das Letras (ver, se for o caso, o lamentável e sinistro discorrer dos poetas da Tel Quel). E nem falemos da bichice da Revolução Russa, em que, se tivermos que ser sinceros, só houve um poeta bichona, um só.
– Quem? – alguém lhe perguntou.
– Maiakovski?
– Não.
– Essenin?
– Também não.
– Pasternak, Blok, Mandelstam, Akhmatova?
– Muito menos.
– Diga de uma vez, Ernesto, estou roendo as unhas de curiosidade.
– Só um – San Epifanio disse –, e tiro já a sua dúvida, mas este sim, bichona das estepes e das neves, bichona da cabeça aos pés: Khlebnikov
                                                                           ###

Aqui na bliss consideramos o Piva uma bichona, detetive selvagem no deserto de São Paulo. Mas sei que já disseram por aí, e foi pessoa seria quem falou, que ele não passa de uma bicha. Azinimiga chegaram a dizer que era na verdade uma bambi.

***

De Paranoia (1963)

A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema
paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos
sábados à noite
Eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu de ferro e me 
fariam perguntas por que navio boia? Por que prego afunda?
Eu deixaria proliferar uma úlcera admiraria as estátuas de 
fortes dentaduras
Iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho 
todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos

*

Boletim do Mundo Mágico

Meus pés sonham suspensos no Abismo
minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina
eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão
havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios
eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa
na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as galerias do
meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos
colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longo delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados 
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool 
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios de telefônicos cruzam-se no meu esôfago 
nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo 
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota
minha alma desconjuntada passa rodando

*

Os anjos de Sodoma

Eu vi os anjos de Sodoma escalando 
um monte até o céu
E suas asas destruídas pelo fogo
abanavam o ar da tarde
Eu vi os anjos de Sodoma semeando 
prodígios para a criação não
perder seu ritmo de harpas
Eu vi os anjos de Sodoma lambendo
as feridas dos que morreram sem
alarde, dos suplicantes, dos suicidas
e dos jovens mortos
Eu vi os anjos de Sodoma crescendo
com o fogo e de suas bocas saltavam
medusas cegas
Eu vi os anjos de Sodoma desgrenhados e 
violentos aniquilando os mercadores
roubando o sono das virgens
criando palavras turbulentas
Eu vi os anjos de Sodoma inventando 
A loucura e o arrependimento de Deus

*

Poema porrada

Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei  uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição de tudo que é frágil
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
duas centopeias 
o universo é cuspido pelo eu sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem 
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que eu existo
mariposas perfuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o  mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
a Morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos
de Modigliani
Eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani
minha alma louca aponta para a Lua
vi os professores e seus cálculos discretos ocupando 
o mundo do espírito
vi criancinhas vomitando nos radiadores
vi canetas dementes hortas tampas de privada
abro os olhos as nuvens tomam-se mais duras
trago o mundo na orelha como um brinco imenso
a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego

*

Meteoro

Eu direi as palavras mais terríveis esta noite
enquanto os ponteiros se dissolvem
contra o meu poder 
contra o meu amor
no sobressalto da minha mente
meus olhos dançavam
no alto da Lapa os mosquitos me sufocam
que me importa saber que as mulheres são 
férteis se Deus caiu no mar
Kierkegaard pede socorro numa montanha
da Dinamarca?
os telefones gritam
isoladas criaturas caem do nada
os órgãos de carne falam morte
morte doce carnaval de rua do 
fim do mundo
eu não quero elegias mas sim os lírios
de ferro dos recintos
há uma epopeia nas roupas penduradas contra 
o céu cinza
e os luminosos me fitam do espaço alucinado
quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?

***

De Piazzas (1964)

Piazza VI

Algumas vezes
                as bombas de sorvete
                     caindo há 15 anos
                                 durante a tempestade

Sem ler
        Freud ou Villon
                  os garotos
                                         rompem barreiras
                  então em qualquer
                                            terreno baldio
iluminam
                               vestem-se
                                            no furacão do amor humano
onde
                               um cometa se desdobra

TESTE DI RAGAZZI CHE RIDONDO
          nos céus de whisky
          em cada canto da boca
                                                   cósmica

Matéria & clarineta

As panteras das plumas & as tranças das estrelas
numa fuselagem sem saída
um pelicano de tempos em tempos esganiça o mar dos 
      ambulantes

noite de meninos com corações brancos
fendas diminuídas  na imóvel lamentação entre a sopa
       & o garfo de polaroide
os canteiros dos clavicórdios em oblíqua oração sob os
         dentes

um curto langor & velas ampliando

*

Piazza VII

O equilíbrio (embora meu)
é um pouco teu como esta luz ao nível da maré
que tu divides benfeitor fascinando meu olho de fogo
            justo
é a vibração impossível de domar agora na potência do
            vazio celeste
dizem que urras
desmaias & tens visões
rolando sobre tua boca dilatada as auroras feitas de
            Presa

*

Piazza VIII

Eu aprendi com Rimbaud
& Nietzsche os meus
toques de INFERNO
(Anjos de Freud
            sustentai-me!)
& afirmando isto
    através dos quartos sem teto
    & amores azuis
eu corro até a colher de espuma fervente
      driblando-me no cemitério
faminto da última FOME
com tumbas & amantes cheios de pétalas
porque o céu foi nossa última chance
    esta noite

*

Piazza IX 

Os corações árticos coçavam suas cabeleiras cultivando
a morte
grandes & ardentes no mesmo sopro de um mesmo
sorriso apodrecido
purificados como os nossos idênticos pioneiros metálicos
às vésperas dos trovões de ar que nos arrebatam as
cabeças para o céu
sobre os muros de plenas dissecações ao brilho
inesperado do salmão das nuvens
nas cidades circulares de dolorosos espinhos atômicos
na infância cor de pêssego como a hora do amor
em cada solitário as mesmas oitavas com ossos à mostra
éter & línguas sólidas que nós não vemos
catalogadas ao lado trágico das mesmas ondas paralelas
aquelas que nos transportam vencendo toda a paisagem
purulenta
gotas de meninos morenos mudados em nevoentos
cascalhos de desolação
nas montanhas murchas de luar onde a lembrança é
cinzenta
correndo teu arco na tempestade solar da incerteza
o dia escurecia a auréola dos mortos descobridores de
Mágicas

*

PIAZZA XII

Teus olhos amarelos
                                 ritmados numa ferida distante
                                                                           de AMOR
A Rosa Azul & vazia como uma gaveta de hotel
Diga-me langorosamente os pequenos mamelucos
                                tremem em tentáculos eletrificados
       eu provo tua boca
                                       as folhas se desorganizam
                     em tapeçarias outonais
                                             & nas curvas de teus RINS
Fotografando em cores (em supremo grau como
                                                  o fogo na floresta)
uma cidade sagrada tão

                                        AZUL

***

Uma outra cidade, de Ugo Giorgetti