Mostrando postagens com marcador Daniel Massa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniel Massa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de julho de 2013

“Do que eu falo quando falo de poesia?” – Daniel Massa & Thiago Ponce.

Entre críticos de poesia, acadêmicos, e jornais especializados, e mesmo entre diversos poetas em atividade, já se consolidou a noção de que a média da produção poética brasileira recente demonstra um alto nível de qualidade – o que não quer dizer que não haja quem conteste, assim como aqueles que sempre veem na produção cultural presente a decadência de um tempo passado e aqueles que acreditam que a poesia não tem mais lugar na dinâmica da cultura hoje (mas que sentem necessidade de falar da poesia, justamente para falar dessa perda de significância, ou desse seu não lugar). Se os critérios de avaliação, ou mesmo o pensamento crítico produzido acerca da poesia, são, de um modo ou de outro, enviesados, marcados ideologicamente, o fundamental parece se deslocar em outra direção: que haja textos poéticos circulando e com potencial de afetar leitores do mundo de hoje. Nesse cenário, julgamos que a pergunta mais curiosa que se pode fazer é aquela que – desviando das querelas de qual poema é bom, qual ruim, qual é “o” poema, e qual não pode ser, qual deve ser excluído da categoria poesia, etc. – vai investigar que diferentes práticas e fazeres se agrupam, se encaixam, se reúnem sob esse nome, ‘poesia’. Que diferentes histórias se contam quando se chama este estranho nome? Começamos aqui uma série, em que sempre uma dupla (de poetas, ou de leitores de poesia) responde à pergunta “Do que eu falo quando falo de poesia?”.
         A pergunta, gostava de acreditar, coloca a poesia a meio termo da corrida e da filosofia.  Quanto à corrida (e há mesmo um ótimo livro, do romancista japonês Haruki Murakami, cujo título é justamente “Do que eu falo quando falo de corrida”, publicado aqui pela Alfaguara/Objetiva, em 2010), ela é um tipo de atividade sobre a qual não se pode falar enquanto pratica, ou que, pelo menos, fazê-lo vai dificultar singularmente sua execução a contento. Quanto à filosofia, pode-se dizer que falar do que ela trata, e abordar seu modo de pensar o mundo, é já fazer filosofia, e talvez não se possa pensar, de fato, a filosofia sem já estar com isso filosofando. Ou seja, num resumo rasteiro, a poesia poderia ser pensada como corrida atravessada de filosofia atravessada de corrida, ou ao contrário, filosofia atravessada de corrida atravessada de filosofia. Isso, contudo, ainda não é uma resposta à pergunta “Do que se fala quando se fala de poesia?”.
Para respondê-la, começamos nossa série com dois poetas que participaram do primeiro evento “Bliss não tem Bis”, em novembro de 2012, Thiago Ponce de Moraes e Daniel Massa. Junto com a resposta de Massa, publicamos aqui a segunda parte de seu diário de viagem durante o Mochilão do Marrocos (a primeira publicamos aqui nesse mesmo blog na postagem "Correspondências - Jogos de Cartas, Cartas de Viagens" no início deste mês), a composição de um postal seu de Paris e um de seus poemas chuvosos. Junto com a resposta de Thiago Ponce, poemas selecionados de seu livro mais recente De Gestos Lassos e Nenhuns.

*

Daniel Massa



Sou coagido a dizer. E, assim, digo. O resto é forma. E aí se caminha por onde há espaço.
Construo a mim mesmo no que é dito. Ergo as fronteiras que me divisam do mundo, que me delimitam como sendo, a partir da palavra. Nesse sentido, dizer é sobrevivência.
E poesia é dizer-se. Todo poema é um alicerce de mim. É uma forma, entre outras, de lançar-me ao mundo. É a possibilidade de criar-me e recriar-me a partir do que eu digo e, assim, ser. O que surge a partir daí não se sabe. Se conforma, se transforma, se informa ou se deforma.
Mas não se engane, não. Isso nada tem a ver com a velha máxima rilkeana endereçada ao jovem poeta. Vive-se muito bem, obrigado, sem poesia. Há necessidade de feijão, juros baixos e conexão banda larga de qualidade. O resto é supérfluo.
Como pode então a poesia, objeto dispensável, sustentar uma condição? Como pode então a poesia, artigo de perfumaria, fazer-me?
Certa vez ouvi de uma senhora casada a vida toda com um poeta que o ego do seu marido era do tamanho de uma Kombi. Todos os poetas são uns egoístas filhos da puta, ela disse. Eles nunca estão satisfeitos.
Por isso, sinto-me coagido a dizer. O ego é uma Kombi e exige um espaço para si. Assim, desenho fronteiras, diviso-me do mundo através da poesia.
Quando falo de poesia, falo de mim mesmo. Tudo o que é meu é matéria do poema.
O que sustento e suporto está aí. Mas, perceba, tudo é claro como água suja. Porque, de fato, trata-se de um eu escamoteado, um jogo de véus em que não se mostra o que se quer mostrar.
A poesia, enfim, é uma criptografia de mim.

*

Composição de postal

Na França, as pessoas andam de bicicleta o tempo inteiro. Às vezes neva muito e eu vou pra janela dar uma olhada. Neve é uma coisa muito bonita. Os prédios ficam parecendo a cabeça do Ziraldo, marrons com o telhado branco.
Volta e meia sou surpreendido por alguém pedalando, de lugar nenhum para lugar qualquer. E assim o rastro fino dos pneus vai tatuando a neve recém-caída. Não importa o frio, não importa a quantidade de gelo que cai do céu. Lá estão os franceses pedalando.
Como diria o poeta, somos todos a bicicleta dos deuses.

*

jean jacques rousseau na chuva
com cheiro de chuva

quando cheguei rousseau já estava
e desde então tenho o acompanhado
em dia santo e feriado cívico
rousseau sério, rousseau de poucas palavras
tampa de tempo tem pé e tem pó pra todo lado.

carro zero km, mocinha namorosa, velho com tosse, pombo gordo
o mundo cabe em rousseau.
mas o mundo não quer caber em lugar nenhum.
e da janela eu vejo
jean jacques rousseau na chuva
mais nada.

e da janela eu penso
em pular
me juntar a rousseau em sua eternidade cinza
levando lugar qualquer a lugar nenhum
e da janela eu calo
e da janela eu selo

jean jacques rousseau
seja réu
       rua
       rio
afoga na chuva o que não tem nome em mim.

*
Diário de Viagem. Marrocos. Parte II.

3 de março de 2013

Meu amigo ainda mastiga a comida da véspera. Eu já não tenho nada além de um gosto amargo na boca.
Quando o sol nasce eu quase acredito em deus.

*
São dois dias sem banho. O sol se põe, e as mesquitas cantam quando chego a Marrakech. Eu me pergunto pra quê existe tanta gente no mundo.
Sufoco.

*
Não há comida e não há dinheiro. Erro pela Medina em busca de alguma coisa. O cheiro do pão me leva a um beco sem eletricidade. Me abaixo através do que parece uma porta e alcanço um porão.
Três homens trabalham. Centenas de pães acabam de sair da fornalha. De mão em mão eles são empilhados em um canto.
Compro seis. Tão bom quanto a carne de cristo.
Junto aos pães quatro ovos e meio quilo de bananas. Com um euro eu tenho a comida de dois dias.

4 de março de 2013

Os autofalantes da mesquita anunciam um novo dia. Me levanto quieto para não acordar meus companheiros de quarto.
Marrakech acorda com sono.
A Medina está cheia de gatos. Me sinto bem em companhia de gatos. Quem sabe num futuro não muito distante eu viva numa casa com duzentos gatos, usando calças mijadas e desviando das pedras que as crianças atiram nas vidraças.
Tomo um suco de laranja na praça Jamma El Fna.
Deixo Marrakech a bordo de um trem.

5 de março de 2013

- Me diz alguma coisa bonita.
- Janela.

6 de março de 2013

Volubilis dá vontade de ser eterno.
A chuva cai violenta e suja a roupa já suja.

*
Entro num taxi. Não há dinheiro e as refeições se tornaram escassas.
Jairzinho, Gérson, Pelé, Tostão, Sócrates. Ele entende das coisas. Não tiro os olhos do taxímetro. Pergunto quanto vai dar até a gare.
- T'inquiète pas!
Insisto.
- T'inquiète pas, mon ami.
Quando chego ao destino ele me diz:
- Si vous n'avez pas d'argent, pas de problème. C’est la vie.
Mèknes fica para trás. Levo comigo um pouco de paz para acalmar um espírito que ferve.
O mundo é bão, Abraão.
T'inquiète pas.

*
Já é noite quando chego a Fès. A Medina é formada por milhares de estreitos corredores. Não é possível ver o céu. Por vezes, as casas cobrem as ruas formando túneis que mesmo durante o dia não é possível caminhar sem o auxílio de uma lanterna.
Saio do Rhiad em busca de comida. No meio do caminho me dou conta de um erro. Uso displicentemente uma camisa do Vasco da Gama. Do lado esquerdo do peito, sustento uma cruz de malta. Não existem cruzes no Marrocos. A Cruz Vermelha se transforma em Croissant-Rouge. Os letreiros luminosos das farmácias francesas que sustentam uma cruz verde são substituídos por uma lua crescente.
Entro em um beco qualquer. Não há ninguém nas ruas. Tiro a minha camisa e a visto pelo avesso. Procuro caminhar com a mão direita sobre o peito. Me sinto idiota.
Acho uma mercearia. Crianças se empilham no balcão para comprar doces. Gasto dez dirhams em bolinhos, chocolates e uma coca-cola quente.
Antes mesmo que eu pudesse me afastar, ouço um grito acompanhado de risadas.
- Monsieur, votre chemise est à l'envers.
Agradeço.
De que lado mesmo a gente vive?

*
O cheiro do couro me enjoa.
- Un feuilleton brésilien a été tourné ici.
Não me entusiasmo.

*
Queria tomar uma cerveja vendo mulheres passarem.
Não há álcool e as mulheres não passam.

8 de março de 2013

Chove o dia todo.
Setecentas mesquitas gritam ao mesmo tempo e todas as pessoas atendem ao seu chamado.
É sexta-feira. Hoje tudo é mais grave.

*
Crianças jogam futebol onde há espaço.
Ouço uma história. Certa vez, um jogador marroquino marcou um belo gol e se inspirou em um famoso meio-campista brasileiro para comemorar. Correu em direção a sua torcida e fez o sinal da cruz por diversas vezes. Garrafas e sapatos voaram em direção a ele e antes mesmo que pudesse compreender o seu equívoco, o juiz o expulsou.
Crianças jogam futebol onde não há espaço.

9 de março de 2013
           
Durmo na gare para economizar uma diária.
Todo abraço de chegada me cria um sorriso.
Não caibo na cadeira da estação.

*
Em Paris sou devolvido ao mundo.
Mas o mundo mudou enquanto estive fora.

- Monsieur, votre chemise est à l'envers.
Agradeço.
Ela me veste muito mais confortável assim.

***

Thiago Ponce de Moraes



Do que eu falo quando falo de poesia?

Querido Lucas,

Gostaria de retornar a resposta como determinado endereçamento, por isso nomeio. Ao menos assim garanto alguma precisão (como fosse preciso). O quanto adiei responder, saiba, tem a ver com a própria impossibilidade de seu questionamento. Não é preciso dizer. No entanto, aí está. Difuso, incerto.
Não consigo conceber poesia como um termo, um conceito, que se encerra. Um saber-sabido, um a priori qualquer. Portanto, poderia começar me perguntando (dirigisse-me a mim mesmo enquanto falo; assim o faço?) se falo de alguma coisa quando falo de poesia, esta forma de vida. Ou se, de outra forma, enquanto busco na impossibilidade da fala sobre poesia qualquer dizer sobre poesia acabo por dizer a própria busca pelo falar sobre poesia sempre, seu caminho, seu vir-a-ser; nunca seu termo, pois: poesia, em si, como se fosse. Retorno.
A pressa dessas palavras, como pode ler, pretende falar de alguma coisa. Mas, mais do que isso, pretende dizer alguma coisa. Dizer, prioritariamente, porque se pretende breve como uma prece sobre o falar sobre poesia hoje: sob céus sombrios. Prece também pela graça de pensar no que falo quando falo de poesia (se o faço, se me é possível fazer). E sobre esse céu sob o qual estamos. Graça. Leve como um dito. Necessariamente dito em falhas, aos soluços, em balbucios ou gagueiras. Para quem? Dirá um dos versos de Celan, em Salmo: Louvado sejas, Ninguém.
A poesia, para Celan, deve atravessar seu vazio de respostas, o terrível emudecimento, as mil trevas de um discurso letal. A poesia deve continuar sua travessia e, nesse acontecimento, manter seu estar sempre a caminho. Mas de onde? A poesia, que busco dizer no emudecimento da fala, só pode ser uma colisão de atravessamentos que segue em direção a algo aberto, talvez ocupável, como a orla de um pensamento, ou inocupável, como o mar alto de alguma convicção; ou nem uma coisa, nem outra.
Afinal, o falar sobre poesia me parece ser a travessia do estar-a-atravessar da poesia; algo que não se pode definir, apenas por uma busca perene que objetiva se dizer enquanto tal. Diário da travessia. Sertão, mar. A fala da travessia é sempre o seu acaso: dizer; é sempre poder lançar os dados mais uma vez com palavras – apesar de tudo, por isso tudo, contudo –, como que a golpear a superfície das coisas; a turvar o chão dos mundos prováveis; a apagar as linhas rápidas das mais elaboradas convicções.
Quando escrevo sobre o que falo quando falo de poesia quero fazer sentir alguma vida na vinda dessas palavras em travessia. Sim. Algo do real dessa vida que nos atravessa. A fala da travessia é, também, sempre o seu ocaso, o seu fim. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia – recito da boca de Riobaldo.

*

Vê-la nascer, tocá-la ao acaso as mãos,
Os pulsos de ilegíveis saudades. Então,
Vivê-la; contudo sem pressa, sem gosto,
Sem cartografia que nomeie seu rosto,
Sem nem ao menos pensá-la. Enfim, calá-la
Com um sonho antigo no fundo da alma:
Estrelas ao longe desta paisagem cadente,
Desta tela a ensiná-la o que falta e o que sente.

Nos gestos da via sem origem ou ocaso,
Não tê-la nunca e todavia velá-la.

*

Estrelas

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Com a palavra longe te aproximas deste nome,
E de teu nome, arrancado pela Raiz,
Procura os sais.

Confundes a hora da aurora se alvoreces
E tornas originais os que amanhecem
Na palavra dia.

Abissais tuas sílabas soam com a melancolia
Natural da melodia que se oculta
Entre a palavra escuta e a palavra escrita.

Adias os nomes, de vozes te acercas em portos
Infinitos. E na palavra abismo
Cais.

*

Caligrafia

Não imaginas linguagem alguma –
E a manhã rompe como uma ferida em teus lábios.
Tua boca se abre, apenas uma palavra sangra
Enquanto passa o dia.

Sépala: na casa do esquecimento afundas,
Folhas no chão e sombras da folhagem das árvores
Por onde o caminho vaza. A noite
Não precisa de estre-

Las. Riscam a areia tuas folhas,
Uma palavra ainda tem
Luz:
Nada está perdido.

*

Paralela Mallarmé

Entre a Aurora e a Alvorada uma linha de azul fina e pálida traça –
Nasce sob o céu, no entanto –
Um círculo que existe e em seu centro – como do poema um lago, um véu –
Jazes qual o que na vida há de profuso e simultâneo.

Queres despertar como um sopro, de uma vez,
Ou da relva levantar como o verbo reverbera,
Pois num esboço de espaços a delinear teus contornos
Exibes no rosto o que poema algum concebe.

Nem o vento que te abraça te expande ou te revela,
Nem tuas costas, estes mapas para acervos de saudades,
Não te legam sem fronteiras e sem leis.

Uma linha de azul fina e pálida traça um círculo:
E em seu centro te elide – e te estreita e te enleia sem te ler –
Entre o Anseio e a Angústia de tuas páginas em branco.

*

Como das nuvens o teu raio

Há em teu rosto inerte
Algo de hieroglífico (de
Indecifrável) que por todo
Instante basta.

Há em teu rosto algo
Que também passeia pelas
Tuas mãos – há uma renúncia
Trágica que não alude a nada.

E como quem sabe das palavras
Mas limita-se a sorrir,
Deixas de teu rosto Algo
E as memórias ermas daquele

Verão em que escrevias, propondo,
Pois, tuas feições por horas:
Desejo mais ver

Do que dizer.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Correspondências – Jogos de Cartas, Cartas de Viagens. Parte 1.

 “Escrever cartas é mais misterioso do que se pensa. Na prática da correspondência pessoal, supostamente é tudo muito simples. Não há um narrador fictício, nem lugar para fingimentos literários, nem para o domínio imperioso das palavras. Diante do papel fino da carta, seríamos nós mesmos, com toda a possível sinceridade verbal: o eu da carta corresponderia, por princípio, ao eu ‘verdadeiro’, à espera de correspondente réplica. No entanto, quem se debruçar sobre essa prática perceberá as suas tortuosidades. A limpidez de sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu
Ana C., em Escritos no Rio.

Conhecemos o perfil típico do personagem – o antologista de cartas. Algo devasso e espalhafatoso, mas também tímido e (quase) um perverso, um erudito. Ali, quando o voyeur encontra quem estuda textos, textualidades diversas. Temos cá conosco uma dessas figuras, organizou o making of da revista e sempre está à cata de cartas (enviadas, ou não, guardadas em envelope para nunca conhecer os correios), e-mails, mensagens de celular, mensagens trocadas em redes sociais. Vai acumulando, cruzando com outras cartas de outras pessoas para outras que nunca conhecemos, que só ouvimos falar bem depois de já terem ido. Hoje, inauguramos um espaço de correspondências diversas, de correspondências incompletas com o que ele separou como ‘cartas de viagens’. Há uma de Mário para Bandeira sobre uma travessia pelo Norte do Brasil, e uma do Daniel Massa (para quem?), em que ele registra em forma de diário (e aqui só vai a primeira parte do diário) um Mochilão pelo Marrocos. O antologista de cartas, como se sabe, é um curtidor, matreiro sabido, porque saca que, em toda carta, o que há é matéria-prima para outros escritos, e quem sabe, outras cartas.

***

De Mário de Andrade para Manuel Bandeira.

Por êsse mundo de aguas – VI – 27
Manú

         Estamos numa paradinha para cortar canarana da margem pros bois dos nossos jantares. Amanhã se chega a Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por êste mundo de aguas. Porêm me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belem me conquistou assim. Meu unico ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belem. O direito de sentar naquele terrasse em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuassú, de assaí, você que conhece mundo, conhece coisa milhor que isso, Manú? Me parece impossível. Olha que tenho visto bem coisas estupendas. Vi o Rio em todas as horas e lugares, vi a Tijuca e a Sta. Tereza de você, vi a queda da Serra para Santos, vi a tarde de sinos em Ouro Preto e vejo agorinha mesmo a manhã mais linda do Amazonas. Nada disso, que lembro com saudades e que me extasia sempre ver, nada desejo rever como uma precisão absoluta fatalizada do meu organismo inteirinho. Porêm Belem eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão exquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belem. Quero Belem como se quer um amor. É inconcebivel o amor que Belem despertou em mim. E como já falei, sentar de linho branco depois da chuva na terrasse do Grande Hotel, e tragar o sorvete, sem vontade, isso me dá um gôso incontestavelmente realização de amor de tão sexual.
         Quanto a êste mundo de aguas é o que não se imagina. A gente pode ler toda a literatura provocada por êle e ver todas as fotografias que ele revelou, si não viu, não pode perceber o que é. A gente já sabe da monotonia porêm monotonia á palavra mais estupida do mundo. Tem monotonias insuportaveis e tem monotonias que a gente não se cansa de gosar. Assim esta do Amazonas. Tem uma variedade prodigiosa si a gente põe reparo nela. E si não põe e se deixa prender por ela então é uma gostosura niilisante como não se pode imaginar outra, é sublime. Aliás ela tem sido bem relativa porquê o Amazonas vai sendo camarada conosco, mostrando tudo o que possui, jacarés, até o morto descendo o rio e com barriga estufada pra riba, bandos de garças de duzentas e mais, toda a passarada do museu Goeldi, todos os geitos de tardes, de noites, de manhãs e meios-dias, e todos os peixes e frutas pro nosso paladar. Não sei si já contei pra você que o por aqui vou bancando o jornalista celebre. Fazem tudo por nos agradar é lógico que por causa de Dona Olivia e eu passo por homem ilustre e grande inteligencia aí do sul. Só vendo quanta amabilidade e quanta coisa preparada só prá gente. Navegamos no mel. Si não fosse a cacetada dos protocolos oficiais, palavra que não faltava nada pra isto ser uma paraizo pra mim. Imagine porêm que até um discurso de improviso tive de fazer, respondendo a uma saudação do Dionisio Bentes, presidente do Pará! Sou incapaz de improvisar. Falei um quarto de duzia de coisas familiares e me assentei tremendo feito bobo. Pelos asneira creio que não saiu nenhuma não!
         Vou tomando umas notinhas porêm estou imaginando que viagem não produzirá nada não. A gente percebe quando sairá alguma coisa do que vai sentindo. Desta vez não percebo nada. O extase vai me abatendo cada vez mais. Me entreguei com uma volupia que nunca possuí á contemplação destas coisas, e não tenho por isso o minimo controle sobre mim mesmo. A inteligência não ha meios de reagir nem aquele poucadinho necessario pra realizar em dados ou em bases de consciencia o que os sentidos vão recebendo. Estou gazlich animalizado me observo porquê não encontro aquela clarividencia discrecionaria que pra uso pessoal sempre conservei, mesmo nos momentos de maior prazer. O batimento intelectual é quasi que completo. Vivo de arrastão numa vida de pura sensibilidade. O gôso que passa morre sem comparação sem critica nem mesmo posterior, estou quase irracional. Aliás esta carta bestissima prova isso mais que qualquer afirmativa minha.
         Amanhã chegamos em Manaus. A merda dos protocolos vai recomeçar. Felizmente que somos decididos e sabemos não nos prender nem nos prejudicar com isso. e creio que não te escrevo mais. Esta carta está me deixando numa tristeza que você não imagina. Estou besta. Enquanto a festeira durar vou ficar quietinho sem pegar no lápis mais.
         Um abraço do
MARIO.

***

De Daniel Massa para ?

26 ou 27 de fevereiro de 2013

Atravesso o Marrocos a bordo de um trem noturno. Divido o vagão com quatro pessoas. Há um homem na cama abaixo da minha. Sonhei com um diálogo entre o homem e o funcionário do trem. Ele pedia para ser acordado na estação de Rabat. O funcionário dizia que não era possível ajudá-lo, indicou o tempo médio do percurso até a cidade e sugeriu que ele colocasse o celular para despertar.
O árabe rasgava o meu ouvido, mas eu podia entender cada palavra que eles disseram. Em algum momento, eu havia me tornado fluente na língua.
Acordei no meio da madrugada com um despertador. O homem desceu. Pela janela, eu conheci Rabat.

*
Há muita coisa em minha cabeça agora. Não sei direito que horas são.
Mais cedo, presenciei um cortejo fúnebre na Medina de Tânger. Trinta homens se revezavam para carregar um caixão que era erguido acima da cabeça de todos eles. Em nada se parecia com os cortejos de minha infância em Saquarema. Marchavam como se coreografados, eram soldados de uma guerra suja qualquer.
Gritavam palavras de ordem, uma oração que parecia amaldiçoar a deus.
Somos todos soldados de uma guerra já perdida.
Se vamos ser derrotados, que ao menos cuspamos no chão e deixemos claro o nosso desagrado.
Atravesso a mim mesmo a bordo de um trem noturno.

27 de fevereiro de 2013

Jamma El Fna.
            Repito por três vezes enquanto o taxista corrige a minha pronúncia.
            Quando me vejo na praça, tudo se apaga.
            Homens se misturam a macacos e a cobras e a laranjas e a barracas e a barracas e a homens e a bicicletas e a motocicletas. São milhares de motocicletas.
            Não há pobres na Medina. Não há ricos na Medina.
            Todas as normas de segurança do código de trânsito se resumem a uma:
            - Encontre espaço.
            Todas as orientações de higiene da vigilância sanitária se fazem uma:
            - Experimente.
            Eu durmo cheio.

28 de fevereiro de 2013

E foi assim que me apaixonei à segunda vista.
            Você não pode se perder se não há um destino te esperando.
            E eu flanei por todos os becos da Medina de Marrakech. Bailei entre motocicletas, me deixei tocar por árabes, judeus, turistas, pessoas, paredes.
            Há qualquer coisa de ordem no caos.

1 de março de 2013

Você desce para cima nas montanhas do Alto Atlas. Por mais que o ônibus insistentemente cisme em se jogar estrada abaixo, há sempre um novo abismo que se mostra após cada curva.
            Me canso e durmo.

            *
Em Aït-Ben-Haddou eu volto dez vidas. Haverá num passado distante uma reencarnação que tenha me feito berbere.
            Deixo um pedaço aqui.

2 de março de 2013

As montanhas agora são dunas e onde havia cinza vejo apenas vermelho.
            Tudo que é sólido desmancha no ar. E o Marrocos se esfarela pela janela.

            *
Caminho duas horas sobre o deserto em companhia de um camelo.
            Meu companheiro mastiga algum resto de comida durante a viagem. Eu rumino qualquer coisa que já não é mais. Se houvesse um espelho, talvez eu pudesse me ver espumar como ele. Mas o que tenho na boca é intragável e não me alimenta mais.
            Cuspo.
            O sol some por trás das dunas.

            *
Omar nasceu no Saara. Fala a língua berbere, inglês, francês, árabe e um pouquinho de espanhol.
            Omar não gosta de cidades grandes. Quando precisa ir a Marrakech, amarra um elástico no deserto para puxá-lo de volta.
            Omar não ama o mar.
            Quando Omar ri nasce uma flor no deserto. Nessa noite ele quase sorriu e eu pude ver alguma coisa verde no meio da areia.

*

O melhor do Saara é mijar sob as estrelas e sentir o vento gelado do deserto beijar a cabeça do seu pau.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Daniel é massa é mossa é asa


Quando fizemos o primeiro encontro de poesia Bliss não tem bis em novembro do ano passado, Daniel Massa começou sua apresentação calado, enquanto ao fundo tocavam os acordes iniciais de Complexo de Épico, canção clássica de Tom Zé (lançada no LP Todos os olhos, o da famosa capa idealizada a partir de sugestão do Décio Pignatari, e que ainda vinha com um poema visual de Augusto de Campos no seu ‘encarte’), em que o autor enfrenta a tendência de se submeter a canção ao papel de adesão à lógica discursiva de batalhas políticas e ideológicas. Daniel Massa parece recolher tanto a posição de bufonaria – embora em tom menos histriônico e mais melancólico – quanto alguns procedimentos encontrados na canção. Ele nos lembra que, ali, onde as palavras parecem ter acumulado os sedimentos de certas formações discursivas que consolidam práticas históricas e disputas de poder diversas, sempre se pode confiar na mobilidade da sílaba. Nos seus contos curtos e poemas, há sempre como que essa corrente de ar, em que o som parece dispersar o que as sentenças e as palavras tentam manter coeso.
         Quando, no início do ano, Massa nos disse que iria passar uma temporada na França, pedimos que ele nos mandasse para publicar aqui no blogue Bliss não tem bis pequenos registros e flashes da viagem, numa correspondência sempre incompleta – que lembra que viajar é preciso. Junto com sua carta de (quase) Paris – ele se encontra em Reims, cidade que fica perto da capital – publicamos um conto e um poema curtos e chuvosos, e o querido De que tanto sorri a gorda? (publicado originalmente na Bliss) em versão ilustrada com traçado lúdico por Juliana Teixeira de Freitas.

*

Hoje eu roubei um guarda-chuva.
Em algum lugar dessa cidade submersa de bueiros entupidos e ruas alagadas alguém está molhado porque eu roubei um guarda-chuva.
Provavelmente ele – imagino um senhor. Meia idade, estatura média, calça jeans, cinto de couro e blusa social abotoada até o penúltimo botão antes do colarinho. Recentemente divorciado, mora de aluguel num conjugado e recebe a visita dos filhos adolescentes aos sábados. Trabalha vendendo planos de saúde, embora dependa do SUS e tenha uma consulta com um urologista marcada dali a três meses - chegará em casa com o cabelo encharcado e pingos escorrendo da ponta do nariz. Deixará um rastro a caminho do banheiro. Um espirro. Dois. Três. Não há Coristina em lugar nenhum. Não há Cebion em lugar nenhum. Não há chá de capim-limão muito menos capim-limão em lugar nenhum. Havia, sim, um guarda-chuva. Mas esse foi roubado.
Em algum lugar num conjugado qualquer dessa cidade de deslizamentos e estado de emergência alguém tosse e espirra. Moisés – esse foi o nome dado por sua mãe. Nasceu de oito meses e meio com três quilos e duzentos. Fora a catapora, teve uma infância saudável. Terminou o Ginásio e casou com vinte e três – estará febril. A calça secou atrás da geladeira, mas ele não irá trabalhar. Ele não conseguirá se levantar da cama. Tinha um guarda-chuva que, entre outras coisas, poderia servir de bengala. Mas alguém o roubou.
E fui eu.
Hoje eu roubei o guarda-chuva do Moisés. Que entre outras coisas, como servir de bengala, poderia ter evitado um resfriado que poderia ter evitado uma gripe que poderia ter evitado uma pneumonia que poderia ter evitado a ida de Moisés ao hospital. A ida ao hospital já não pode evitar nada. Um homem morrerá porque hoje eu roubei um guarda-chuva.
Onde quer que você esteja, Moisés, me desculpe. Lamento muito e agradeço pela sobrevida que o seu guarda-chuva me deu.


*



Chove na Rio Branco
e eu que não sou de açúcar
rio amarelo
seguindo rumo
à Carioca.

*



Carta de (quase) Paris.

No último sábado, fui convidado em cima da hora para uma festa em homenagem aos estudantes latinos na França. Aceitei, claro.

Não sou o que se pode chamar de uma pessoa simpática, mas consegui fazer alguns amigos aquela noite. Conversei longamente com amáveis russas, ajudei os franceses com as tarefas domésticas, adicionei um sorridente panamenho no facebook e assisti às meninas dominicanas dançarem no melhor estilo chacal rápido e rasteiro. Mas talvez tenha sido o minuto e meio em que conversei com uma colombiana que me marcou mais.

É um vício um pouco idiota esse que a gente tem de procurar referências óbvias de um país estrangeiro para estreitar laços com seus habitantes. Outro dia, me despedi de uma mexicana no bar aos gritos de “Viva Zapata!”, ao que a moça — penteado britânico, roupa americana e inglês fluente desfilado durante toda a noite — sorriu amarelo e balançou a cabeça: “Babaca”.

Que merda. Os latinos na França são todos ingleses.

Enquanto a colombiana procurava uma música de seu país no youtube, eu disse:
— Coloca Shakira.
Ela foi sagaz.
— Shakira é americana, não tem nada a ver com a Colômbia.
Ponto. Foi o suficiente para que na frase seguinte eu abrisse meu coração.
— Gabriel García Márquez mudou a minha vida.
Ela sorriu e tentou repetir sem sucesso o que eu disse para a outra menina colombiana que dançava algo como el baile del perrito.

Tudo bem. Ali eu já havia reacendido uma antiga paixão.

Tinha 15 anos quando li Cem anos de solidão a primeira vez. Era um garoto que ficava errando pelos livros da biblioteca da escola e foi assim me deparei com uma coleção de banca de jornal d’O Globo. Olhei o livro com a capa toda azul e li o título na lateral. Quando se é adolescente, qualquer minuto sozinho é insuportável, cem anos me pareciam muito tempo para se cultivar a solidão. Li.

E Gabriel García Márquez mudou a minha vida.

Ele me fez prestar vestibular para Letras, ele me fez continuar escrevendo poemas e ficções, ele me fez ser professor de literatura.

Hoje, a notícia mais recente que eu tenho de Gabo fala sobre o seu estado avançado de demência senil. Não há memória. Não há mais livros. Não há sequer um rosto familiar para Gabo. Talvez ainda haja espaço para qualquer coisa de bonito, que lhe invade a cabeça quando bate um vento mais forte e sai antes mesmo que possa deixar qualquer vestígio de que esteve por ali.
 
E é assim que eu vejo Gabriel García Márquez hoje. Vivendo numa Macondo que ele ergue todos os dias e se desmancha antes mesmo de ficar pronta, abrindo espaço para uma nova construção na manhã seguinte.

*